Qual é a ideologia por trás de uma “escola sem ideologia”?

Circula por aí, vez ou outra, uma discussão a respeito de um suposto processo de doutrinação protagonizado pelas escolas – em especial por docentes da área de humanas – cujo objetivo seria alimentar uma ideologia comunista entre estudantes do ensino fundamental e médio. Existem até ONGs, como a Escola Sem Partido, para aglutinar denúncias e promover ações. Com o pretexto de limpar a escola da “ideologização”, pergunto: qual é a ideologia que existe por trás disso?

A rigor, também sou contra uma “doutrinação”. Não concordo que professoras/es ensinem a sua turma de alunos/as a optarem por determinadas ideologias ou terem certas preferências partidárias, sobretudo se considerarmos que os docentes, em sua posição de autoridade, teriam uma forte influência sobre um conjunto de estudantes que ainda está em formação e que, apesar da internet e outras fontes, pode ter a instituição escolar como uma referência para formularem opiniões e perspectivas.

Slogan da ONG Escola sem Partido: uma visita à sua página, seus grupos apoiadores, seus fundadores, seus links etc, já dá uma boa noção de quais ideologia eles defendem.

Slogan da ONG Escola sem Partido: uma visita à sua página, seus grupos apoiadores, seus fundadores, seus links etc, já dá uma boa noção de quais ideologia eles defendem.

O que se coloca aqui, no entanto, é o velho debate sobre ser ou não possível educar sem que haja uma concepção política por trás, discussão similar à possibilidade de haver imparcialidade nos meios de comunicação. Duas discussões, a meu ver, inócuas. Retirar da educação o seu caráter político é extrair todo o seu sentido. O que é a escola pública senão uma iniciativa essencialmente política de escolarizar toda a população brasileira, dar a ela capacidade de ler e escrever, de fornecer conhecimentos sobre o seu tempo e o espaço, de lhe fornecer autonomia e informação para pensar por sua própria conta? Se isso não é política, já não sei mais do que se trata.

Existe ou deveria existir, tanto nas políticas públicas quanto nos currículos escolares, um marco político muito claro: a construção de uma sociedade democrática. Vivemos em um sistema político que se pretende uma democracia. Não o é, mas lembra. A educação em um Estado democrático deveria, em primeira mão, zelar pelos valores democráticos. Não estou nem discutindo, aqui, uma formação crítica e tal, estou apenas relatando o óbvio: que escolhas políticas atravessam a constituição de nossas escolas. O respeito, a cidadania, a igualdade, a justiça, a gestão democrática – longe de serem paranoias de “militantes travestidos de professores”, estão presentes na nossa própria Constituição – deveriam ser aspectos inerentes à escola, bem como às demais instituições públicas.

Escolhas políticas são inerentes à educação, sendo ela própria uma iniciativa eminetemente política: escolarizar a população.

Escolhas políticas são inerentes à educação, sendo ela própria uma iniciativa eminetemente política: escolarizar a população.

Aprender que o Brasil foi “descoberto”, que não existiram conflitos armados na Guerra Fria, que os “tigres asiáticos” são exemplos de desenvolvimento etc, são conteúdos absolutamente politizados. Implicam, por exemplo, em minimizar os danos da colonização e da dominação cultural, em ignorar os massacres e golpes que aconteceram no pós-guerra (seja do lado dos EUA, seja do lado da URSS), em negligenciar trabalhadores/as asiáticos/as ganhando salários miseráveis para alimentar o capital externo.

Há política em tudo isso. Mas quando a patrulha da “escola sem ideologia” vem à tona, é para defender uma despolitização bastante parcial. Falar de “Descobrimento”, pode. Mencionar reforma agrária, não pode. Ensinar nomes de rios e capitais, pode. Discutir a questão racial, não pode. Passar os valores da “família”, pode. Debater casamento homo-afetivo, não pode.

Iniciativas que procuram neutralizar a suposta doutrinação, entre as quais a própria Escola sem Partido, são de uma desfaçatez tamanha. O cinismo desses grupos não esconde que o “sem Partido” é partidário, sim, de uma concepção ideológica evidente: a ideologia liberal conservadora, alheia à agenda dos direitos humanos, avessa aos movimentos sociais, incapaz de sustentar sequer a democracia capenga que a gente tem.

Slogan utilizado pelo grupo Escola sem Partido: a doutrinação de que eles falam tem nome e endereço.

Slogan utilizado pelo grupo Escola sem Partido: a doutrinação de que eles falam tem nome e endereço.

Não me assusta que este cerco armado contra qualquer formação crítica – repito, dentro dos marcos da nossa democracia – seja a maior opositora à incorporação das disciplinas de sociologia e filosofia nos currículos. É óbvio. O que são essas disciplinas senão um campo para o sujeito repensar seu papel na sociedade, repensando-a por inteiro? Dá no que dá: jovens saem da escola sem ter as mínimas noções do sistema político, da sociedade, do modo de produção econômico etc. Saem, portanto, despolitizados.

Ao mesmo tempo, termos e expressões como “desigualdades sociais”, “hierarquias”, “dominação”, “hegemonia”, entre outras, são abolidas do vocabulário escolar. Ensina-se a usar a redação para redigir currículos e a matemática para fazer cálculos financeiros, sem levar em conta que a necessidade de elaborar currículos para se trabalhar no setor financeiro faz parte de um momento histórico em que vivemos, de uma determinada circunstância e que, por isso, pode ser modificada, questionada, aperfeiçoada ou mesmo desmontada pelos mesmos sujeitos que são doutrinados pela farsa de uma “escola sem ideologia”.

Não se trata de "despolitizar" a escola, mas de definir coletivamente com a sociedade quais são os marcos políticos que vão nortear a educação, das políticas públicas aos currículos.

Não se trata de “despolitizar” a escola, mas de definir coletivamente com a sociedade quais são os marcos políticos que vão nortear a educação, das políticas públicas aos currículos.

O silêncio que se pretende impor é uma forma brutal de calar as desigualdades, injustiças e opressões que estão às vistas de toda a sociedade e que, elas mesmas, entram com força na própria escola: a violência, a discriminação, a marginalização, a repressão policial. Não sou apenas eu quem está falando (ou tirando elementos de uma cartola meramente ideológica): essa é a realidade que uma boa parcela dos/as estudantes pobres da periferia vivem, os quais compõem significativamente a massa de crianças e jovens das escolas públicas.

Uma coisa é exigir que os/as professores/as tenham cautela ao trabalhar com tais conteúdos com a sua turma, outra coisa é pretender a extinção desses assuntos. Para que o Estado possa enfrentar esse nó, é importante que esteja esclarecida qual é a noção de cidadania que vai nortear a formação das crianças e jovens, qual é o currículo que se pretende, quais valores serão discutidos, qual moral será trabalhada. Em nenhum desses aspectos estamos falando de uma pretensa neutralidade. Cabe definir, coletivamente com a sociedade civil, que concepção política vai dar o tom da educação.

10 comentários
  1. Gostei bastante do texto, ele toca em pontos importantes e que normalmente passam em branco.
    No entanto, não acho que ele tenha ido tão fundo. O grande problema ideológico do sistema educacional é que ele é moldado de forma que seja facilitado impor uma ideologia. Ele é massificado (como foi apontado pelo texto), minando a individualidade, mas acima disso ele (em momento algum) dá poder de escolha para o aluno e esse é o problema.

    O aluno não é o protagonista do processo de ensino, mas sim o professor em sua figura de autoridade conhecedora das coisas. Não acredito que noções de cidadania devam ser impostas como apontado no final do texto, mas sim trabalhadas naturalmente com os alunos.

    O sistema de ensino atual está (talvez desde sua criação) ultrapassado e a serviço do estado (independente de ideologia política, como pode ser visto ao longo da história). O que deve mudar, para que tenhamos ao final do processo educacional, cidadãos esclarecidos é o vínculo do processo de ensino com os desejos do estado e focando mais numa espécie de auto-aprendizado e menos num ensino hierarquizado e massificante.

  2. elza moraes disse:

    e de fundamental importancia, sempre que possivel ,desmascarar a pretensa logica liberal da neutralidade da educaçao….o projeto pedagogico de uma escola sempre sera politico embora muitas vezes camuflado …o mantra liberal repete ate a exaustao que a educaçao e a solucao para todos os problemas da socieddade brasileira e muita gente bem intencionada sai repetindo sem se dar conta de qual educaçao estamos falando….a educaçao, historicamente, sempre foi conservadora procurando reproduzir a dominaçao e os valores das elites ….por isso, cabe aos educadores com uma visao critica defenderem e praticarem uma educaçao transformadora ,desmascarando a ideologia liberal conservadora p.s. perdao pela falta de acentuaçao …meu computa esta com problemas,,,

  3. Nelia Ribeiro disse:

    O texto foi muito sutil passando ao largo da grande divergência com a ONG questionada. Escrever sobre um tema desta magnitude como a “educação das novas gerações” devemos ser ousados e francos se posicionando com clareza e sem medo em relação á divergência essencial. Neste tópico, não é quanto a fazer justiça ao povo nativo indígena e afro-brasileiro corrigindo os livros de História, ou política mundial imparcial, ou correntes filosóficas, porque corrigir a história já é quase unanimidade entre os cidadãos. O que se pretende aqui é discutir a introdução de ideologias no ensino escolar recorrendo a Leis, então esperava-se que começasse defendendo a própria resposta de forma inequívoca á pergunta fundamental: cabe á Escola/Estado doutrinar sobre religião, relações homoafetivas ou tendências políticas?

    • Cara Leila, bom os seus comentários, resta saber quem serão os protagonistas, os mediadores,…

  4. Jorge Fernandes disse:

    Posso dizer que compreendi uma coisa muito importante e preocupante no texto, através de um comentário no site, que diz: …”cabe á Escola/Estado doutrinar sobre religião, relações homoafetivas ou tendências políticas?”

    A escola tem sido o grande campo de batalha desses grupos (Políticos, Religiosos e os de Gêneros (sexuais e etnias)), já a algum tempo. E nenhum deles nos representa (professores).

    Para mim o objetivo principal do trabalho docente é contribuir para a formação de cidadãos críticos e capazes de pensar em vez de repetir e criar em vez de copiar, pois a educação deve estimular o desenvolvimento das aptidões individuais, transformando as qualidades potenciais em capacidades efetivas, a fim de que os indivíduos possam utilizar seus múltiplos talentos em benefício da sociedade.
    Para que isso possa ser realizado existe:
    – a Lei de Diretrizes e Bases como principio básico.
    – o Plano Diretor de cada Escola como meta.
    – o Planejamento dos Professores como Plano de Ação.

    O que o professor não precisa é de imposição velada na utilização em recursos pedagógicos.

    Os políticos, nunca serão contra o “pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas” porque eles sabem que seriam punidos pelos deveres legais que são: “conhecer e respeitar as leis”; “preservar os princípios, os ideais e fins da Educação Brasileira”, Artigo 63 da LC 444/85. No entanto, jogam para a população leiga discutirem e se digladiarem.

    Acima de tudo deve-se ter em mente, que o professor sabe muito bem de sua obrigação acima, e entende o respeito que deve ter pelos Direitos previstos no Art 61, da mesma lei, item IV “ter liberdade de escolha e de utilização de materiais, de procedimentos didáticos e de instrumentos de avaliação do processo ensino-aprendizagem, dentro dos princípios psicopedagógicos, objetivando alicerçar o respeito à pessoa humana e, à construção do bem comum”.

    Finalmente, devo considerar a pergunta do texto vazia. Apenas mais um artigo ocupando espaço na mídia para apresentar coisa alguma. Seria de mais utilidade a presença de pessoas com idéias e motivação, em uma sala de aula, das inúmeras escola pública espalhadas por todo o território nacional.

  5. Matheus Granzotto disse:

    Texto ruim. Pós moderno, baseado na fuga da realidade, uso de imagens e sem embasamento nenhum. Tipo de lixo proveniente da falha cognitiva que é o pós modernismo. Que sim, infecta o campo academico tornando ele inútil e depois esses educadores vão sim doutrinar as crianças para essas deformidades pós modernas, como teorias de genero, sexualidade desregrada. Destruindo assim a esquerda a partir de um plano do próprio pensamento liberal. Sou sim a favor dessa pele, mas para combater o pós modernismo, assim como por exemplo esse texto é, destituido de qualquer qualidade academica.

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