A sexualidade é uma escolha?

Nos debates sobre diversidade sexual, vira e mexe alguém menciona “opção sexual”. Geralmente, esta pessoa é logo corrigida por um/a militante LGBT que dirá que o correto é “orientação sexual”, uma vez que a sexualidade não se trata de uma escolha. Tenho percebido, contudo, que usar a expressão “escolha”, apesar de suas limitações, pode ser uma ótima maneira de encarar a questão.

Legenda

Uma série de conceitos foram sendo criadas, modificados ou excluídos para adequar as pautas do movimento LGBT.

Ao longo do desenvolvimento do movimento LGBT, certas expressões foram criadas, enquanto outras foram modificadas ou excluídas. Criaram-se conceitos importantes como “homofobia” e “heteronormatividade”, úteis para se entender as relações de poder, ao mesmo tempo em que se ressignificaram termos como “gay” e “queer” para os fins de uma identificação positiva. Outros termos, como “homossexualismo”, caíram no ostracismo por remeterem a uma patologização do desejo homoerótico. Ainda, a ideia de “opção sexual” foi sendo gradativamente substituída por “orientação sexual”.

Diz-se que o desejo sexual não é uma escolha voluntária, consciente ou facultativa, senão algo difuso – que até hoje ninguém soube explicar – que se “orienta” para um determinado sexo, para vários ou para nenhum. Na narrativa romântica, que tanto se mescla com a política, o desejo sexual homo ou bi é legítimo simplesmente porque existe, é natural ou construído tal como a heterossexualidade. O desejo existe, está aí, surge. Estou andando na rua e, pronto, sinto atração por alguém e não tenho controle disso. Alguns vão dizer “nasci assim”, outros vão dizer “descobri-me assim”. Mas ninguém saberá refinar muito melhor do que isso.

Legenda

Militância LGBT: usa-se muito mais o conceito de “orientação sexual”, no lugar de “opção” ou “escolha”. Mas será esse o melhor caminho?

Se o conceito de “orientação sexual” é útil, porque dispensa uma explicação sobre a possível origem do desejo sexual, ele também é vago. De toda forma, costuma parecer melhor que a noção de “opção sexual” porque essa afirma categoricamente o lado da escolha, o que todos/as sabemos de que não se trata. Será que não? Não poderíamos chamar a atenção para um campo da “escolha” e da “opção” nesse emaranhado que é a sexualidade?

Basta pensarmos o seguinte: o que está em disputa nas pautas LGBT? É menos o desejo do que a prática sexual. Até mesmo os conservadores afirmam que o problema não é o homossexual em si, mas os seus atos. Os pastores fundamentalistas, como Silas Malafaia e Marco Feliciano, assim como o Papa Francisco em sua visita ao Brasil, afirmaram coisa semelhante. Isso é quase um consenso. Quer ser gay, seja. Só não dê bandeira, não assuma (“don’t ask, don’t tell”), não saia com gente do mesmo sexo, não quebre a munheca. Esconda. Evite pensar no desejo homoerótico. Mas, se o fizer, faça-o no seu quarto, sozinho, sem assumir, demonstrar ou praticar.

O desejo sexual está relativamente seguro porque ele, sozinho, não é nada. Sem a prática desse desejo, ele é apenas uma imaginação. E devemos ter em mente que quando falamos de “práticas” estamos falando, sim, de escolhas. Escolhe-se ter uma vida homossexualmente ativa, escolhe-se ter um/a namorado/a, escolhe-se sair do armário, escolhe-se investir numa determinada identidade, escolhe-se enfrentar a homofobia. Ainda que a sexualidade em si – o desejo – não seja uma escolha, tudo que gira em torno dele, dando-o forma e consolidando-o é uma escolha. Trata-se de uma opção, oras!

Legenda

Beijaço gay: falar em “escolhas” talvez seja a melhor forma de dar luz ao que está em disputa, ou seja, os direitos, a liberdade e a prática do desejo homoafetivo.

E tem mais: falar de “escolhas” dá luz ao protagonismo dos sujeitos. Vai depender de o sujeito querer ser ou assumir-se gay/lésbica dentro de uma sociedade heteronormativa. E haverá consequências. Não quero que as outras pessoas me vejam como um pobre coitado que “nasceu” com determinada sexualidade e cabe às/aos demais me tolerar, aceitar e respeitar. Precisamos exigir mais do que as migalhas desses avanços. A pauta da diversidade sexual há de ter um impacto maior em nossas vidas e na vida social como um todo.

Ao falarmos das escolhas, estamos jogando luz ao que realmente está em disputa. Não é o desejo. São as práticas sexuais, constantemente ameaçadas, ridicularizadas, relegadas a certos guetos, mitificadas. O que está jogo é a nossa liberdade. A liberdade de escolha do que fazer com a sua sexualidade, a liberdade de ter domínio sobre o próprio corpo, a liberdade de expressar o seu desejo. A sexualidade tem que sair do campo da patologia, do essencialismo, da “natureza”, e cair de vez na esfera dos direitos humanos, das liberdades civis e das livres escolhas, como realça Rogério Diniz Junqueira (2009).

Por isso tenho preferido usar o termo “escolha” para me referir à sexualidade. Pois as escolhas são incontornáveis e a atração sexual é apenas uma parte disso, mas não é o que está sob ameaça e nem o que realmente tem o potencial de transformar as relações de gênero e a sexualidade em nossa sociedade. Para mudá-las, precisamos assumir que estamos escolhendo outra maneira de encarar a diversidade sexual tal como escolhemos o caminho da transformação. E que ao assumir nossas escolhas, assumamos nossos riscos e ganhos.

8 comentários
  1. É desse modo que vemos duas questões importantes nesse aspecto da militância do LGBT. Antes, é preciso dizer que como cidadãos e cidadãs livres em um país democrático como o Brasil, o movimento LGBT e qualquer outro pode pautar sua agenda específica de reivindicações. Primeiro que, ao se adequar a linguagem, ou melhor, o discurso social para contemplar vocábulos que pressupõem uma espécie de ajuste ao “politicamente correto”, nos indica a força que tem o movimento social, ou mais ainda, o movimento humano que vai DESCONSTRUINDO, RECONSTRUINDO E CONSTITUINDO NOVOS PARADIGMAS NA E PARA A LINGUAGEM.

    Segundo, é importante perceber até que ponto a RECOLOCAÇÃO LINGUSTICO-DISCURSIVA é um sinal de uma possível imposição de um discurso LGBT como sendo supremo, acima das outras convenções, visto que muitas vezes o movimento LGBT é muito audacioso em seus movimentos. Audacioso aqui não é positivo mas no sentido de petulância mesmo, querendo muitas vezes serem uma “casta privilegiada” no seio da Sociedade Brasileira.

  2. Matheus França disse:

    Sempre que iniciam o debate sobre opção/orientação sexual, lembro desse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=-S2B9YoI4WA (“Opção sexual do Félix: Caio Castro!” ahuhuahua).

    Achei interessante a perspectiva adotada. A galera fica aí tentando achar explicação/origem/motivo para o desejo sexual quando na verdade o debate seria exatamente outro: ok, tem gente que curte determinada prática sexual, ou se identifica enquanto [tal identidade sexual]… então o jeito é garantir liberdade e direitos para que essas diversidades sejam contempladas enquanto demandas cidadãs.

    Mas não é o que acontece, e os movimentos acabam pautando suas atuações em torno daquele tal “essencialismo estratégico”, na tentativa de receber aceitação e “inclusão social” na forma de migalhas políticas. Complicado.

    Continuarei pensando aqui… bom texto! =)

  3. Penso que a discussão em torno de escolha ou opção é tratar de um assunto apenas na aparência, que esvazia a discussão, não permitindo ir na essência. O problema é o preconceito. As pessoas optam ou escolhem serem preconceituosos/as?

  4. Amanda disse:

    Sempre acreditei que a sexualidade tem tudo a ver com escolha. Ok, sentimos atração física por certas pessoas involuntariamente e outras não. Mas o fazer ou não fazer é uma escolha. A meu ver, este é mesmo o ponto essencial da discussão: o direito à liberdade de escolha. Com quem eu escolho me relacionar ou não é um direito que deve ser primordialmente respeitado, seja de qual for o sexo, origem ou idade (ok, aqui excluo menores de idade, claro). Quando um homem escolhe que não quer se relacionar com uma mulher, ele tem esse direito. Então, porque quando ele quer se relacionar com outra mulher, ou outro homem deve ser diferente? A liberdade de escolhermos fazer o que quisermos com nossos corpos, nossa sexualidade é realmente a discussão principal.
    Acredito também que nossas escolhas tem tudo a ver com o meio e o modo como fomos criados. E a partir de nossas escolhas queremos o direito de exercê-la com plenitude. Ora, porque seria desrespeitoso um homem beijar outro homem em público? ou outra mulher? Porque o amor e o carinho são considerados tão ofensivos e essas manifestações sofrem tantas e mais represálias do que manifestações de violência? Porque eu não posso manifestar o amor por alguém que escolhi? A liberdade de ser quem somos só entre quatro paredes, pra ninguém ver, pra que ninguém sinta vergonha, pra que finjam que vc não existe é uma falácia, uma hipocrisia. Cobrimos nossos corpos, sentimos vergonha de sermos como somos, de nos expressar como queremos. Porque queremos uma aceitação do normal, porque temos medo da intolerância, do preconceito. Porque nós mesmo fomos criados cheios de preconceitos e nos custa combatê-lo. Custa a liberdade do outro, a nossa liberdade. O direito de escolha vem de dentro, vem do nosso entendimento por nossa escolha, de nos aceitar e nos permitir escolher de quem gostar. E entender que o outro tem o direito de escolher e expressar sua escolha também.

  5. Sophia Alencar disse:

    Olá Adriano, gostei da provocação, mas senti falta da relação com as teorias da sexualidade. Qual sua opinião sobre a teoria da construção social? É completamente oposta à ideia de que o desejo sexual é algo “natural”, mas também não coaduna com a ideia da escolha, e sim que a orientação sexual é resultado da cultura, ou seja, a identidade sexual é algo construído, não algo essencial, biológico, nem pela qual optamos. Abraço.

    • Oi Sophia, obrigado pelo seu comentário.

      Seria necessário eu estudar direitinho o que essas teorias da “construção social” querem dizer. Meu problema com essa abordagem é que acho pouco específico dizer que algo é uma “construção social”. Se é uma “construção”, constroi-se como, de onde, por quem, com quais efeitos e limites etc. Da mesma forma, se é “social”, é cabível explicar que social é esse, sob que circunstâncias, envolvendo quais sujeitos etc. Pois, no limite, tudo é uma construção social. E aí? Muita gente pára aí. A meu ver, dizer que algo é uma construção social é o ponto de partido, não a chegada.

      Nesse sentindo, o meu intuito no texto foi justamente me esquivar da explicação da causa da sexualidade. Negando a biologia, não chego a afirmar que o desejo sexual, em si, é uma escolha. Pelo contrário, eu me esquivo desse debate e chamo a atenção para as escolhas no tocante a tudo aquilo que rodeia, define, executa e expressa uma sexualidade. Isso, sim, é uma escolha, pois se trata de uma decisão voluntária e consciente a respeito das formas de se vivenciar uma sexualidade, pondo em prática um desejo sexual que não sabemos exatamente de onde vem e, aceitando que é uma construção social, como este seria construído.

      Abraços!

  6. A mim não interessa , se é opcional , ou determinação genética , se é sacanagem mesmo . A mim interessa o seu comportamento diante da sociedade !!! .

  7. Paulo Jam Mar disse:

    Tá bom, então case com uma pessoa que não te dá nenhum desejo e passe o resto da vida reprimindo o desejo verdadeiro por outra pessoa, tudo em nome da religião. Quer viver esta tortura, problema seu! Mas não venha forçar ninguém a viver este pesadelo.

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