A Caça

Muitos são os comentários positivos ao longa-metragem A Caça (Jagten, Dinamarca, 2012), dirigido por Thomas Vintenberg, mas poucos deles percebem e discutem as questões de gênero que o filme intrinsecamente traz – o que aponta, na realidade, o quanto o gênero passa despercebido por aí. Neste texto, pretendo analisar alguns desses elementos.

O filme se ambienta em uma pequena comunidade rural da Dinamarca. Lucas, interpretado por Mads Mikkelsen, é professor de uma creche. Relaciona-se bem com as crianças, com a equipe escolar e com a comunidade. É, para sua idade, aquilo que a gente chamaria de “meninão”: franja na testa, jeito simples, disposto a se deitar no chão nas brincadeiras com as crianças. Essa posição de credibilidade, no entanto, é gravemente ferida quando a pequena Klara (Annika Wedderkopp) inventa uma estória, a princípio bastante inocente, de que Lucas teria exibido suas partes íntimas a ela.

Mads Mikkelsen interpreta Lucas, professor de creche que é acusado de pedofilia.

Mads Mikkelsen interpreta Lucas, professor de creche que é acusado de pedofilia.

Está claro, ao longo de todo o filme, que se trata de uma mentira. Porém, mesmo uma mentira, ao tomar grandes proporções, pode ter efeitos severos. É o que acontece com Lucas, que passa a ser rejeitado por muitas pessoas do seu entorno e chega até mesmo a ser agredido fisicamente. Enquanto tenta provar sua inocência, Lucas procura reconstruir sua relação com seu filho (de quem ele se distanciou após o divórcio), com sua namorada e também, é claro, com a comunidade.

Esse é o eixo da história. Apesar de o foco do filme ser uma discussão a respeito de como as falsas alegações podem assumir proporções danosas, o que pretendo chamar a atenção neste texto é como tal enredo se constrói com base em uma dada ordem de gênero. Em primeiro lugar, porque a suposta vítima é uma menina, de ares angelicais, que reproduz na escola aquilo que viu em casa: seu irmão mais velho, junto com colegas, apresentara a ela a imagem de um pênis (retirada de um pornô), no mesmo dia em que, mais tarde, ela inventaria a acusação.

Conforme relatam autores da Sociologia da Infância, dentre eles o inglês William Corsaro (2011), é comum que as crianças misturem elementos da realidade com a ficção. Assim, certa desilusão amorosa com o professor Lucas – a quem ela espontaneamente ofereceu um coração de papel e de quem roubou um selinho – serve de justificativa para a acusação. Uma vingança infantil, baseada em uma mentirinha. Porém, como insiste a diretora da creche, “as crianças nunca mentem”, reiterando ideia bastante comum de que as crianças são a melhor expressão da inocência e pureza.

Klara (Annika Wedderkopp), a menina que, ao acusar seu professor Lucas, não tem ideia da dimensão que tal mentira pode tomar.

Klara (Annika Wedderkopp), a menina que, ao acusar seu professor Lucas, não tem ideia da dimensão que tal mentira pode tomar.

Soma-se a isso o fato de Lucas ser um homem atuando em uma profissão altamente feminilizada. Não só porque a grande maioria das professoras de Educação Infantil são mulheres (no Brasil, esse índice bate os 97%) como também a profissão, em si, é associada a elementos da feminilidade, como já discutido em outro texto. Atuar na creche significa cuidar de crianças, trocar suas fraldas, preparar-lhes refeições etc; tarefas usualmente executadas por mulheres em seu ofício de “mães”.

Diante desse quadro, “ser homem” pode ser um problema. Um homem é capaz de “maternar”? Um homem pode expressar uma feminilidade? Em suma, um homem é capaz de cuidar de crianças tão bem quanto se supõe que sejam capazes as mulheres? Ainda que essa desconfiança não tenha até então vindo à tona, pois Lucas cumpria bem sua função, é na primeira oportunidade que ela surge. Caso Klara tivesse acusado uma professora do sexo feminino, a mentira teria tido perna curta.

Olhares cheios de expressão são marcas dessa longa-metragem, tal como ilustrado neste cartaz de divulgação.

Olhares cheios de expressão são marcas dessa longa-metragem, tal como ilustrado neste cartaz de divulgação.

E isso não esteve descolado da realidade que se vivia naquela comunidade. Lá, conforme o filme mostra, havia uma espécie de ritual de masculinidade que consistia em presentear um jovem do sexo masculino, já considerado adulto, com um rifle de caça – é o que acontece com o filho de Lucas. A arma simboliza uma masculinidade, sendo a própria materialização da virilidade e da força masculina, tal como a prática da caça de animais como os alces, os quais habitam as florestas temperadas do norte da Europa. Não se tratava apenas de uma prática exercida só por homens, como também parte da construção de uma masculinidade.

Os lugares sociais de mulheres e homens estavam, em certos aspectos, bem demarcados. A creche para elas; as armas para eles. Ao cruzar a fronteira, Lucas torna-se um alvo fácil de outra caça, mais metafórica, que poderia ter acontecido com qualquer outro homem assim como acontece com os alces, igualmente inocentes. E a cena final do filme – que não pretendo descrever aqui para não estragar a surpresa! – resume bem essa ambiguidade. Confesso que tal cena me impressionou pela riqueza simbólica que conseguiu congregar em apenas alguns segundos.

A Caça, para concluir, é um filme delicioso que vale muito a pena ser assistido. Além de bem produzido, conta com uma tensão crescente que angustia o espectador, a partir de um enredo bem encadeado. E Mikkelsen, em sua magistral atuação como protagonista, lança olhares que expressam, com precisão, a injustiça por ele sofrida e certo sentimento de revolta, medo e dúvida. São questões, evidentemente, que passam pela cabeça de pessoas que, assim como Lucas, conhecem os limites de uma sociedade tão marcada por gênero.

6 comentários
  1. Valdir Ferreira de Paiva disse:

    Sucesso e muita inspiração em seus textos, espero que alcancem os objetivos almejados. Amei seus textos. Excelentes trabalho de vocês. Parabéns… Abraços

  2. luiza disse:

    adriano, post bem interessante. o outro sobre magisterio tambem. mas uma coisa que ficou martelando na minha cabeça foi a ausencia de mençao sobre o medo real de abusos. vi que aqui vc destacou que a construçao da masculinidade envolve necessariamente violencia (nao que todo homem seja criado assim, felizmente ha desvios, mas a cultura patriarcal funciona idealmente assim). e sabemos que a conversa sobre respeito e consentimento nao sao uma praxe na criaçao de meninos (nem de meninas, na real, mas elas sao estimuladas a serem passivas, obedientes e reprimidas sexualmente, oq compensa essa falha). dessa forma, ocorrem concretamente mais abusos partindo de homens do que de mulheres. nao é essencialismo, é cultural, a prova sao os escandalos na igreja catolica, nos escoteiros, entre outras instituiçoes dominadas por homens onde crianças estao vulneraveis a eles. entao pra mim isso vai alem da questao de duvidar da capacidade de cuidado, mas de preocupaçao com a segurança das crianças mesmo. talvez a soluçao seja tornar as relaçoes entre adultos e crianças menos maternal, intima. diminuir as chances de contato fisico, de isolamento do restante do grupo, etc.alem de mudar a sociedade, claro, mas daí nao é simples, nem rapido. enfim, marquei aqui o filme para assistir😉

    • Oi Luiza,

      Perfeito comentário! Concordo plenamente. É fato que existe esse problema de masculinidade. Não é à toa que a maioria dos crimes – e não apenas sexuais – são cometidos por homens e, como você mesma apontou, também são eles que mais abusam sexualmente de crianças (e adultas!). Foi mais ou menos com essa ideia que eu termino o texto dizendo “São questões, evidentemente, que passam pela cabeça de pessoas que assim como Lucas conhecem os limites de uma sociedade tão marcada por gênero.” Porque existe essa separação de práticas usualmente realizadas por mulheres e homens, e por isso falamos de distintas masculinidades e feminilidades.

      Concordo que talvez uma relação diferente entre criança e adulto mudaria. Não precisaria ser necessariamente menos íntima. Mas talvez pressupondo menos uma masculinidades. Crianças menos associadas ao cuidado maternal, como você apontou, e também homens menos distantes dessa esfera relacional e íntima.

      Obrigado pelo comentário. São questões a se pensar. Assista o filme e depois volte para dizer o que achou!

      Abraços!

  3. Adriano, é muito interessante você iluminar aspectos de gênero no filme, que ficam nitidamente marcados. Gostei mais ainda de ver uma opinião “academizada” de alguém de outra área (eu sou do Direito, com atuação criminal), já que esse filme me incomodou muito (tive ânsia de vômito durante quase todo ele).

    Se você me permite, posso complementar sua observação? Além de mostrar papeis estereotipados de gênero, para mim também fica claro no filme a descrença no sistema de justiça e no que chamamos “verdade processual” – aquela verdade que não necessariamente corresponde ao fato histórico em si, mas ao que um juiz, com suas limitações humanas e dentro de princípios e regras jurídicas, pode concluir ter ocorrido, a partir das provas no processo – como se, mesmo em uma sociedade democrática, o sistema de justiça não fosse, efetivamente, considerado como tal, como se esse sistema não pudesse fazer justiça. Mais do que isso, o filme me incomodou por mostrar como uma absolvição não repercute na aceitação social da inocência do acusado, reforçando o caráter contramajoritário das garantias penais.

    Para mim, há um diálogo de estereótipos, tanto de gênero quanto criminais, de etiquetamento (labeling) daqueles que praticam condutas desviantes, e pela inversão na presunção de inocência em favor de uma vítima considerada vulnerável.

    Não sei se esses questionamentos lhe afligiram também…

    • Oi Rodrigo,

      Interessantes observações! Não sou da área de Direito, então não poderia avaliar o mérito do que você falou, mas me parece bastante plausível. É aquela noção de que, apesar de um aparato institucional para garantir a justiça, prepondera aquela “justiça” do cotidiano, baseada em crenças, em julgamentos morais, em preconceitos. Bem, é válido que a área de Direito está voltada principalmente para as… leis! Só que sob as leis, e até mesmo sobre elas, existem os meandros da sociedade, que as fazem valer ou não. Uma sociedade que obedece perfeitamente às suas leis é utópica. O campo social é muito mais complexo que isso. Acho que o filme permite sim esse questionamento

      Obrigado pelo seu comentário! Até mais!

  4. Joaquim Ramos disse:

    Adriano,
    super pertinente a contribuição do texto para o entendimento desse lugar ocupado por homens na docência de crianças pequenas. Não conhecia o filme e buscarei assisti-lo, assim que possível. A relação estabelecida por homens nesse ofício com crianças pequenas é recheada de interdições e suspeitas sem fundamentação.

    Realizei pesquisa de mestrado sobre o tema (um estudo sobre os professores homens da educação infantil e as relações de gênero na rede municipal de Belo Horizonte – M.G.) e o resultado foi bem bacana.

    Obrigado mais uma vez!

    Abraços,

    Joaquim Ramos

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