O Capital, um homem à frente do inimigo sem nome

Quando o presidente François Hollande, eleito em 2012 pelo Partido Socialista Francês, chegou ao poder, já era conhecida sua afirmação de que “meu inimigo não tem nome, não tem rosto nem partido, nunca apresentará sua candidatura e jamais será eleito; no entanto, esse inimigo governa: esse adversário é o mundo das finanças”. Talvez tenha sido este o contexto para que o diretor Costa-Gavras lançasse seu mais novo longa-metragem, O Capital (Le Capital, França, 2013), uma ácida crítica ao mercado financeiro, à especulação e ao capital transnacional.

O filme é interessante principalmente por algumas sacadas geniais, pois o enredo, em si, beira o clichê e retoma, em vários aspectos, a trama do clássico Wall Street: Poder e Cobiça (EUA, 1987), no qual Michael Douglas interpreta um arrogante empresário, no coração de Nova York, que detinha grande poderio econômico enquanto colocava em encruzilhadas éticas seu mais promissor funcionário, papel de Charlie Sheen. Já a obra francesa funciona quase como uma atualização do retrato deste mesmo mercado financeiro, mais de vinte anos depois.

Protagonista do filme, interpretado por Gad Elmaleh, um empresário à frente de um importante banco europeu em suas tensões por ascensão econômica e social.

Protagonista do filme, interpretado por Gad Elmaleh, um empresário à frente de um importante banco europeu em suas tensões por ascensão econômica e social.

Entre a década de 80 e a atualidade, a ganância corporativa não mudou nada, com exceção de que os negócios não são mais fechados com o uso daqueles celulares que mais pareciam tijolos, dando lugar aos smartphones e outras tecnologias que não cessam de evoluir. Neste longa-metragem, o empresário Marc Tourneuil (interpretado por Gad Elmaleh) toma a dianteira de um importante banco europeu, quando seu antigo presidente vê-se diante de um câncer testicular.

Encabeçando a empresa, Marc fecha um contrato com um voraz acionista norte-americano (Gabriel Byrne), que tenta forçar o banco europeu ao declínio a fim de comprá-lo. Para tanto, pressiona intensamente que Marc, após demitir massivamente seus funcionários (em torno de 10 mil), adquira uma empresa japonesa que estava prestes a falir. Antecipando tal sacada, Marc fica de olho nas alternativas para sair por cima – que de fato são bem sucedidas! Os custos, todavia, são marcantes: demite importantes colegas, contrata um policial aposentado para espionar parceiros e adversários, deteriora ainda mais suas relações pessoais etc.

A jovem Maud Baron (Céline Sallette) auxilia Marc em um de seus negócios, mas recua quando percebe a dimensão da ganância corporativa.

A jovem Maud Baron (Céline Sallette) auxilia Marc em um de seus negócios, mas recua quando percebe a dimensão da ganância corporativa.

De modo sagaz, Costa-Gavras retoma diversas referências culturais e políticas para justificar as ações do mundo corporativo, distorcendo-as como é de praxe no ambiente empreendedor. As demissões em massa, por exemplo, são justificadas tendo como base a obra do líder Mao Tsé-Tung, enquanto a globalização é tratada como um sinônimo de “internacionalização” – aquela que os comunistas buscaram na virada dos séculos XIX-XX. Afirma Marc que a verdadeira internacionalização já aconteceu e foi empreendida pelo capitalismo. Exemplo? Um celular desenhado no Japão, produzido na Indonésia e vendido na França…

A frieza das relações empresariais, o jogo de interesses e o conflito com os sindicatos, estão todos retratados neste filme, às vezes de forma sutil e noutras caricatural. E, ao que nos interessa particularmente, o filme tem como pano de fundo um intenso caráter de gênero. O que vemos na tela, quase o tempo todo, são homens brancos, heterossexuais, de países centrais, detendo o poder econômico e reconstruindo – ou tentando reconstruir – a sociedade ao seu bel prazer. Se não existe uma cultura consumista na França tal como existe nos Estados Unidos, isso não é problema. “Os costumes mudam…”, sugere o personagem do acionista norte-americano.

Conversa sigilosa entre o empresário Marc e seu detetive particular: em um terreno de intensa competitividade, surge a necessidade de espionar parceiros e adversários.

Conversa sigilosa entre o empresário Marc e seu detetive particular: em um terreno de intensa competitividade, surge a necessidade de espionar parceiros e adversários.

Para além de um conflito de classe, gritante quando falamos da atual fase do capitalismo, tem-se uma implícita ordem de gênero, caracterizada por aquilo que Raewyn Connell e Julian Wood (2005) chamaram de “masculinidades de negócios transnacionais”, isto é, uma forma hegemônica de masculinidade caracterizada por um recorte de classe, cor/raça e nacionalidade, no qual são cultuadas práticas como competitividade, ambição, acúmulo de riqueza, concretizadas em uma vida de viagens internacionais e poucos vínculos afetivos. Ao contrário da clássica imagem de um homem cavernoso, agressivo e machista, o mundo corporativo traz à tona a imagem de um “novo homem”. No caso de Marc, o Robin Hood moderno, aquele que tira dos pobres para dar aos ricos.

Têm-se, assim, hierarquizações bastante evidentes entre essa masculinidade e demais expressões de homens e mulheres. A objetificação das mulheres (em Miami, foram referidas como “fauna local”, ao passo que a esposa de Marc nada mais era do que um objeto a ser ostentado), a subordinação de outros homens (os sindicalistas, os marginalizados, os não europeus ou estadunidenses) e a dominação das crianças e jovens (fissurados em smartphones, um retrato mais do que preciso da realidade atual) são alguns exemplos. Em suma, a maioria da humanidade posta de joelhos diante desse homem globalizado, à frente da economia, da política e da mídia.

Cartaz original do longa-metragem O Capital, dirigido por Costa-Gravas.

Cartaz original do longa-metragem O Capital, dirigido por Costa-Gravas.

Em sua face sistêmica e estrutural, Hollande estava certo ao afirmar que, sendo eleito, seu maior inimigo não teria nem nome, nem rosto. Porém, como nos recorda Raewyn Connell (2007), a globalização capitalista detém uma materialidade. Em vez de eliminar fronteiras e espaços – tal como celebrado pelos neoliberais do século XXI – o capitalismo os reconfigura. O capital gerado pelo mercado financeiro não flutua como se não tivesse origem nem destino. Pelo contrário, essa riqueza chega aos bolsos de determinados paletós, que vestem determinados corpos, que sentam e deitam sobre determinados metros quadrados de terra. O poder que deriva desse processo tem uma dimensão espacial, ainda que não seja localmente restrito.

Em O Capital, o que vemos é exatamente isso: quem são os homens – e as relações de gênero a eles associados – que estão à frente do tal inimigo sem nome. O mercado financeiro nasceu de uma ordem de gênero, que derivou da realocação de quais grupos detêm o poder em âmbito global, e obedece a um regime de gênero assim como, e não poderia ser diferente, produz efeitos de gênero. Sem estar desassociados de outras variáveis, dentre classe e raça, o que está em jogo é uma intensa disputa de quais segmentos da sociedade terão voz para guiar as mudanças. Hollande deu um palpite e Costa-Gavras projetou-o na película; o restante fica por nossa conta.

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