A “nova classe média” e o florescimento de escolas particulares

Ao menos na Educação Básica, o mercado educacional para as redes privadas já anda bem saturado. Para se expandir, esse mercado precisa encontrar alternativas. Na maré de ascensão social que tem caracterizado as camadas populares no Brasil desde a última década – o que tem sido insistentemente chamado de “nova classe média” – as escolas particulares têm encontrado um novo nicho para se adentrar.

A melhoria do nível de renda das camadas populares tem sido acompanhado do crescimento de escolas particulares em regiões de periferia.

A melhoria do nível de renda das camadas populares tem sido acompanhado do crescimento de escolas particulares em regiões de periferia.

A rigor, o fenômeno da “nova classe média” nada mais é do que um incremento da renda da população que compõe a base da pirâmide social. Chamá-los dessa forma denota um forte conteúdo ideológico, haja vista que, a despeito de se encontrarem na faixa de renda entre R$ 1.200 e R$ 5.174 (BARTELT, 2013), suas condições de vida ainda são precárias e fatores como moradia inadequada, pouco acesso a crédito e serviços públicos ineficientes se fazem presentes.

Entre eles, é marcante a escolaridade baixa que caracteriza tal setor. De acordo com Celia Kerstenetzky e Cristiane Uchôa (2013), 10,2% dos chefes de domicílio dessas famílias são analfabetos e 51,5% deles interromperam seus estudos ainda no Ensino Fundamental. Mesmo com pouca escolaridade, existe um esforço para que as gerações seguintes alcancem a escolaridade que seus pais e mães não galgaram. É nesse contexto que as escolas particulares têm ganhado importância.

Conforme o gráfico abaixo, a maioria dos/as filhos/as da “nova classe média” estudam em escolas públicas, mas existe uma proporção expressiva, em torno de 18%, que está matriculada em escolas particulares. “Com efeito, no plano da educação”, aponta Maria Alice Nogueira (2013, p. 114), “os estudiosos vêm constatando a tendência desse grupo ao uso de instituições educacionais privadas”.

Extraído de Kerstenetzky e Uchôa (2013).

Dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (IBGE), extraídos de Kerstenetzky e Uchôa (2013).

Em pesquisa realizada em Belo Horizonte, Nogueira (2013) demonstra que parte desses estabelecimentos privados de ensino se localiza em bairros de periferia e possuem mensalidades variando entre R$ 193,00 e R$ 594,00. São, no geral, instituições de pequeno porte e de baixo custo que, em alguma medida, “disputam” alunos com o setor público. Sua maior concorrência é justamente a escola pública, gratuita, e cuja frequência não depende de uma situação economicamente estável em casa para que os/as filhos/as possam acessá-la.

É justamente esse o primeiro ponto a ser desenvolvido. O consumo de escolas privadas é recente e instável. Recente, pois tais crianças/jovens são a primeira geração da família a acessar uma escola privada – seus progenitores, se o fizeram, estudaram na rede pública. Instável, porque eventuais insuficiências no rendimento mensal, ou acidentes na trajetória escolar, tendem a mover essas mesmas crianças/jovens para a rede pública. Não compensa manter um/a filho/a na rede privada se ele/a ficar colecionando reprovações, por exemplo.

O medo de que a escola pública não resguardaria condições mínimas de segurança é o principal fator para que as família de baixa renda optem pela escola particular.

O medo de que a escola pública não resguardaria condições mínimas de segurança é o principal fator para que as família de baixa renda optem pela escola particular.

Instiga-nos a pensar por que tais famílias optariam pela escola privada – e, portanto, uma despesa a mais no orçamento – se elas facilmente têm a rede pública à disposição. Estaríamos enganados se respondêssemos que a prioridade é a qualidade de ensino. No fundo, a qualidade de tais escolas não deve se diferenciar substancialmente daquilo que é oferecido no sistema público de ensino. De fato, na pesquisa de Nogueira (2013), fica claro que o que primordialmente orienta as famílias nessa escolha é a crítica de que a escola pública não oferece garantias mínimas de segurança.

De longe, o medo do envolvimento no consumo e/ou no tráfico de drogas, do risco à integridade física, da ocorrência de indisciplina, do contato com a criminalidade, entre outros, são os fatores que mais vêm aos olhos dessas famílias. Uma visão negativa das escolas públicas passa a entendê-las não como um local do aprendizado, mas como um espaço propiciador da delinquência juvenil. Nesse sentido, as famílias também apontaram a escola pública como um ambiente no qual seus filhos e filhas andariam com más companhias.

Esse conjunto de valores talvez explique, na tendência do gráfico abaixo, por que a rede privada de Ensino Fundamental tem encontrado uma fase de gradual expansão. Em vez de estar recebendo novas crianças e jovens que até então não tiveram a oportunidade de frequentar escolas, essa rede de ensina estaria, na realidade, captando estudantes das escolas públicas na medida em que uma sutil ascensão social permitiria seus familiares a sacrificar parte do orçamento em nome de uma educação melhor para a geração seguinte.

Dados dos Resultados do Censo Escolar (2002-2005) e Sinopse Estatística da Educação Básica (2006-2010), extraídos de Nogueira (2013).

Dados dos Resultados do Censo Escolar (2002-2005) e Sinopse Estatística da Educação Básica (2006-2010), extraídos de Nogueira (2013).

Nesse sentido, a qualidade do ensino também entra no jogo, embora em uma posição nitidamente secundária. Nogueira (2013) relata que o nostálgico retrato de que a escola pública de “antigamente” já teria morrido é uma justificativa presente para que, na atualidade, apenas as escolas particulares sejam vistas como as instituições que realmente possibilitam um aprendizado. As crianças não só aprenderiam os conteúdos curriculares como também “disciplina”, “regras”, “normas”, “valores” etc.

Da mesma forma, nesta lacuna se infiltram também as escolas religiosas, portadoras de tal almejada moralidade, no bojo de um setor da sociedade que crescentemente se identifica com as religiões neopentecostais, conforme discutimos no texto anterior.

Com este artigo, não se pretende jogar no lixo a escola pública e sugerir que a solução, para a escolarização das camadas populares, passa pela escola particular. Pelo contrário, devemos continuar defendendo a escola pública – para que ela seja mais inclusiva, de melhor qualidade, com melhores condições de trabalho – só que tendo em vista que, na medida em que o orçamento permite, as famílias de baixa renda tendem a optar por aquilo que, segundo seu ponto de vista, atende aos seus anseios de modo mais adequado (nada muito diferente do que a elite e a classe média tradicional já fazem…).

Por fim, esse quadro nos reitera o que já vem sido falado há tempos: enquanto não se investir maciçamente nos serviços públicos, estarão sempre se abrindo brechas para que a nossa cidadania se torne cada vez mais equivalente ao nosso papel de consumidores. E mais um direito social vai sendo progressivamente transformado em um direito de consumidor (no caso, de escolas particulares), comprometendo ainda mais o orçamento de uma família que, apesar de pertencer às camadas populares, é agraciada com um qualificativo de “classe média”.

5 comentários
  1. Cicero dos Santos disse:

    Temo que o florescimento das escolas particulares (a maioria na periferia e de pequeno porte), espelha a onda de empreendedorismo com aumento de oferta de serviços que acaba”gerando” a procura. Outro fato que me parece ter influencia no caso para a opção por escolas privadas é a queda progressiva dos preços dos cursos, justamente em razão do aumento da oferta, o que possibilita a entrada de novos consumidores. Quanto a má qualidade, seja a pública ou privada, as escolas se equivalem. Muitas das particulares são verdadeiros golpes contra a credibilidade pública. Contudo, pesa a favor da escola privada a comodidade de achar a vaga, nem sempre disponivel na escola pública, e a conveniencia de proximidade do trabalho ou domicilio, horários mais flexíveis, etc, e com certeza o risco controlado!!! Quanto ao surgimento da chamada “classe média”, diversos autores e estudiosos (Andre Singer, Marilena Chaui por exemplo), dispõe que é mais exato dizer que houve uma expansão das vagas com carteira assinada, mas trata-se de geralmente de empregos precários e mal remunerados (salários médios entre 01 e 02 mínimos é que dominam a base da pirâmide). Com a expansão dessas vagas formais, duas, tres ou mais pessoas de uma mesma familia conseguem se empregar, aumentando a renda familiar. Na verdade, há uma rotatividade maior nos altos salários, e abertura de vagas na faixa de salários mais baixos. O fenômeno é global, Ocorre no EUA – onde salários de US$ 40 mil/ano, é considerado top -, como na Europa assolada pela crise – onde a vaga de mil euros é a média ofertada – , como no Brasil. Todavia, o artigo é meritório. Parabéns pela iniciativa do site! Auguro sucesso a todos!

  2. Parabéns pelo blog, primeiro de tudo! Descobri vocês pesquisando sobre Judith Butler no google, e fiquei extremamente feliz em ler suas análises sobre o trabalho dela.

    Achei muito interessante a análise do crescimento do ensino privado na camada média mais pobre, é um dado desconhecido por muitos, acredito, tanto quanto os níveis de qualidade dessa escola.

    • Olá Rodrigo, obrigado pelo seu comentário!

      De fato, a Judith Butler virou quase um carro-chefe do blog, pois muita gente nos descobre ao navegar pela internet em busca dela. É curioso, porque eu particularmente conheço pouco dela – nada muito longe de uma leitura superficial – e nem tenho trabalhado tanto com seus textos. Mas que ela está em alta, está, e isso leva o Ensaios de Gênero junto! rs

      Sobre as escolas particulares. Sim, isso é um fato bem novo. Repare que as minhas referências bibliográficas são todas de 2013. Ainda se está descobrindo essa tendência, superrecente. Bem observado!

      Abraços e até novas oportunidades!

  3. Murilo Carrazedo disse:

    Olá Adriano, excelente matéria, me interesso muito pelo tema!
    A propósito, você poderia me passar o título, e se possível, o link do estudo da Maria Alice Nogueira (2013)?
    Grato,
    Murilo

    • Oi Murilo, tudo bem?
      Obrigado pelo interesse!
      Sim, todas as referências mencionadas no texto estão na aba “Bibliografia”, localizada sobre a imagem de capa do blog. O estudo que você procura, em particular, é a seguinte referência:

      NOGUEIRA, Maria Alice. No fio da navalha: a (nova) classe média brasileira e sua opção pela escola particular. In: ROMANELLI, G.; NOGUEIRA, M. A.; ZAGO, N. (org.). Família & escola: novas perspectivas de análise. Petrópolis: Vozes, p. 109-130, 2013.

      Trata-se de um capítulo de livro que muito vale a pena ser lido.

      Um abraço!

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