Epidemia de mortes de jovens negros e pobres no Brasil

Há poucas semanas, no dia 27 de outubro, o jovem Douglas Martins, de 17 anos, negro e morador da periferia na zona norte de São Paulo, foi morto com um tiro no peito disparado por um policial militar de dentro de sua viatura. Não é preciso estar na cena do crime para inferir que há muitas questões envolvidas. E todas elas, direta ou indiretamente, apontam para uma grave tendência que tem caracterizado a discussão criminal no Brasil: estamos diante de um genocídio praticado pela PM e com o aval do Estado.

Já vem sido falado em diversos meios que os homicídios no nosso país – tanto quem mata, quanto quem morre – tem raça/cor. Julio Waiselfisz, em seu Mapa da Violência (2012), não poderia ter sido mais preciso ao afirmar que as estatísticas indicam uma “epidemia” de morte de jovens negros e pobres. Esse é o público-alvo da PM, mas não é só a corporação policial que os executa. Vale ressaltar que quem mais sofre com a violência advinda do contexto de pobreza são os próprios pobres.

Proporção de homicídios, no Brasil, da população jovem por cor/raça. Uma disparidade inicial entre brancos e negros vai sendo acentuada ao longo dos anos.

Proporção de homicídios, no Brasil, da população jovem por cor/raça. Uma disparidade inicial entre brancos e negros vai sendo acentuada ao longo dos anos. Baseado no Mapa da Violência de Waiselfisz (2012).

Nota-se no gráfico acima que a proporção de homicídios de jovens, desde 2002, sempre teve o conjunto de negros como o grupo mais vitimado. O que nos chama a atenção, contudo, é que a discrepância entre brancos e negros tem crescido. Apesar de negros/as comporem pouco mais da metade da população brasileira, eles estão super-representados naquele quesito, sendo aproximadamente 75% dos casos de homicídio. Isso se deu por dois processos concomitantes: de 2002 para cá, caiu em 33% o número de homicídios de jovens brancos, ao passo que cresceu em 23,4% o número de homicídio de jovens negros.

A cada ano, mata-se menos brancos e mais negros. O saldo é o incremento de uma disparidade já acentuada, provando que, apesar dos avanços que a questão racial tem encontrado no Brasil ultimamente – incluo, na lista, a adoção das cotas raciais nas universidades, a criminalização do racismo e a aprovação de leis que procuram difundir conhecimento sobre os/as negros/as e a África na educação e na cultura – ainda estamos longe de efetivar, na prática, a igualdade racial. Para além do preconceito, é necessário refletir sobre as condições materiais da população negra que, mesmo em contextos de pobreza, incide diferentemente em função de sua cor/raça.

Outro fator que também merece destaque é a idade da vítima dos homicídios. Tanto entre brancos quanto entre negros, a violência homicida se avoluma na faixa etária dos 20/21 anos de idade. Enquanto a taxa de homicídio de brancos cresce, no intervalo dos 12 aos 21 anos de idade, 29 vezes, com a população negra o crescimento é de 46 vezes: para cada 100 mil habitantes, morrem 2,0 negros de 12 anos de idade, contra 89,6 negros de 21 anos. O gráfico abaixo ilustra essa concentração de mortes na juventude.

Taxa de homicídio (em 100 mil habitantes) por cor/raça, distribuídas em diferentes idades, no Brasil. Vê-se o pico em torno dos 20/21 anos, em especial para negros.

Taxa de homicídio (em 100 mil habitantes) por cor/raça, distribuídas em diferentes idades, no Brasil. Vê-se o pico em torno dos 20/21 anos, em especial para negros. Extraído do Mapa da Violência de Waiselfisz (2012).

Esse conjunto de dados – só para terminar a enxurrada estatística – nos mostra que, em 2010, morrem proporcionalmente 2,5 jovens negros para cada jovem branco vítima de assassinato. Um retrato absurdo e inaceitável como esse nos demonstra que, além de ostentarmos índices de homicídio análogos a de países em situações de conflito armado, estamos diante de um quadro “epidêmico” no qual a morte de jovens negros alimenta uma tendência crescente que, a não ser que sejam implantadas medidas para revertê-la, não acena para um fim.

Por que jovens? Por que negros? Duas incômodas perguntas que nos demandam ir muito além dos gráficos para explicá-las – se é que possível delinear uma simples, direta e clara explanação. Tal como Waiselfisz (2012) argumenta, o motor da vitimização de negros tem sido principalmente a queda dos homicídios brancos, o que pode derivar do acesso diferenciado da população branca a estratégias e políticas de segurança (frequência a locais com segurança privada, vidros blindados, condomínios fechados). Entre as camadas populares, tal efeito é irrisório. Em contrapartida, é justamente nesse conjunto mais vulnerável que se concentra a população parda e preta.

A atuação policial na periferia tem sido um dos mais explícitos retratos do racismo institucional: morrem covardemente mais jovens negros e pobres. (Créditos: Latuff, 2011)

A atuação policial na periferia tem sido um dos mais explícitos retratos do racismo institucional: morrem covardemente mais jovens negros e pobres. (Créditos: Latuff, 2011)

Tem-se, de um lado, a estrutura do crime organizado e do tráfico de drogas que coercivamente atrai jovens de periferia, trazendo em si um recorte de gênero (jovens do sexo masculino) e cor/raça (pretos e pardos). Por outro lado, a ausência de uma profunda conscientização acerca das desigualdades raciais, bem como a quase ausência de referências negras em lugares sociais de maior poder e legitimidade – nas universidades, nos hospitais, na política, nas empresas – termina por reproduzir um estereótipo, presente no imaginário popular, que associa o jovem negro da periferia a uma masculinidade agressiva, violenta e criminosa.

Não é apenas nos escuros becos e vielas, onde a ação da PM é invisível aos olhos da sociedade ao tentar “conter” essa masculinidade, que esse estereótipo se perpetua. Mesmo entre cidadãos passeando num shopping em pleno fim de semana, as expressões de desconfiança perante a eventual presença de um jovem negro e pobre já expressa tal discriminação. Nas escolas também, com seus mecanismos a fim de evitar que alunos negros do sexo masculino se matriculem, crentes de que eles seriam as “pedras no sapato” do corpo docente. O construto do jovem da periferia na condição de “delinquente” está no imaginário popular porque organiza a percepção social acerca desse mesmo jovem. Ele, sem querer, carrega um fardo sobre o seu dorso.

O jovem Douglas Martins, de 17 anos, negro, da periferia de São Paulo, teria perguntado "por que o senhor atirou em mim?" ao policial que efetuou  o disparo.

O jovem Douglas Martins, de 17 anos, negro, da periferia de São Paulo, teria perguntado “por que o senhor atirou em mim?” ao policial que efetuou o disparo.

Evidentemente, eles estão cientes disso melhor do que nós. Conforme ilustra Raquel Souza (2010) em sua pesquisa com rapazes negros de bairros pobres de São Paulo, é patente, nas falas desses jovens, a preocupação em se distanciar tanto da imagem do “marginal”, quanto dos privilégios dos “playboys” que recebem tudo de mão beijada. Afirma Souza (2010, p. 131) que “para esses rapazes, ser negro e/ou preto era sinônimo de experiências comuns de marginalização e de luta contra o racismo, bem como a cor da resistência política”.

Fala-se de resistência política porque é justamente no bojo dessa luta que se constrói iniciativas contra a violência policial que, dentro desse contexto, desempenha um protagonismo na morte racializada dos jovens brasileiros. A campanha Por que o senhor atirou em mim?, referência ao que o garoto vitimado Douglas Martins teria dito ao seu carrasco fardado, é prova disso – nela, vê-se artistas negros, ligados ao movimento hip hop, politizando a morte do garoto a partir de uma perspectiva negra, daqueles que são rotineiramente violados pelo racismo institucional de nossa polícia e, consequentemente, do Estado.

Disfarçada de acidente (“cada caso é um caso”, disse um dos coronéis da corporação), tal homicídio é uma pequena amostra do genocídio desses jovens. A cada “baixa” praticada pela PM, a qual parece selecionar a dedo as suas vítimas (não me parece que o coronel diria o mesmo se o tiro tivesse atingido um morador do Morumbi ou Leblon), damos um passo atrás, seja na construção de uma sociedade menos violenta, seja na superação das inequidades raciais. Curar a tal “epidemia” significa a sociedade e o Estado olharem para quais lugares sociais brancos e negros ocupam, não só nas estatísticas nacionais, mas no dia-a-dia duro daquele que, vitimado pela polícia, pergunta em vão o porquê de um disparo.

9 comentários
  1. Eu moro em São Luís, no Maranhão e vejo no dia a dia esse racismo cada vez mais impregnado na mentalidade popular. O Maranhão é um dos Estados com maior número de negros que compõem a população, no entanto, consigo contar nos dedos a quantidade de negros que vejo na UFMA, por exemplo. É muito triste ver que o caminho que lhes resta seguir é o do tráfico, visto aqui ter uns dos piores índices de IDH, que por sua vez, tem como consequência a falta de oportunidades para essas pessoas. Preocupa-me bastante as condições em que o Maranhão se encontra. Os índices de violência andam nas alturas e nada é feito. Muito interessante o artigo, com certeza é algo que anda estampado, mas os dados ajudam a problematizar mais ainda essa situação.

    • Obrigado por compartilhar conosco essa sua experiência do Maranhão, Steff! Valioso ponto de vista (e apreensivo também). Abraços!

    • Sergio disse:

      A pouca quantidade de negros na UFMA se deve a uma norma da UFMA que não permite negros de serem aprovados ou se deve aos negros não se inscreverem para fazerem as provas?

      Se você não faz a prova você não entra.

      A opção de seguir o tráfico é uma opção possível, comum ao ambiente, ou é imposta a todos de forma irretratável?

      Se não existe uma CULTURA de que se deva estudar e prestar, após algum tempo de preparação, provas para a UFMA, mas entrar para o tráfico como opção de ter acesso rápido à sociedade de consumo, a ponto de ostentar ser “um self-made rico e levar vida de rico”, Optar por isso faz de alguém qualquer coisa menos UMA VÍTIMA da sociedade. Ou faz?

      É uma escolha pessoal ou 100% das pessoas em questão optam todas pelo mesmo caminho que lhes resta seguir?

    • Com certeza, falta escolas de qualidade os pais que podem, ou até mesmo os que não podem fazem um esforço para colocar seus filhos em uma boa escol particular, para que depois consigam entrar em uma boa faculdade é uma vergonha, a conjuntura que o nosso pais sempre enfrentou. era para nossas crianças e até nos adultos estar-mos numa faculdade publica só que não, quem esta la são os ricos e os pobres talvez nunca vai chegar la. porque não é preparado para isso. O estado aliena a todos nos. o que fazer?
      quando será que vamos sair dessa posição de alienados?

  2. Tenho procurado me inteirar no assunto de forma independente e os questionamentos que me vem a tona quanto a fidelidade dos dados são: se o número de homicídios contra negros tem aumentado vertiginosamente desde 2002, conforme conclui o Mapa da Violência de 2012, tal tendência não poderia estar relacionada também a um aumento das auto-declarações de raça e cor como negro ou pardo? Ou também, o incremento da violência contra negros significa que mais brancos estão matando negros? Entre 2000 e 2010 a “cor” da população brasileira sofreu alterações bem visíveis nas estatísticas. Neste período, o percentual de pardos auto-declarados (que nas estatísticas sobre violência são considerados negros) teve um aumento de 4,6%: de 38,5% da população total para 43,1%. O percentual de auto-declarados negros também subiu: de 6,2% da população total para 7,6%, um incremento de 1,4%. Consequentemente, o número de auto-declarados brancos caiu 6%, o que representa uma grande quantidade de habitantes já que, pela estatística, até então representavam 53,7% da população total, caíndo para 47,7%. Ou seja, para efeito de pesquisa sobre violência, o número da variável “negros” aumentou em 6%, um total de aproximadamente 12 milhões de pessoas considerando uma população aproximada de 200 milhões.

    Tais dados não poderiam, então, nos trazer a tendência de que o aumento da violência contra negros está ligado ao aumento da quantidade de negros na estatística? O que não muda é o fato de alguém ter sido morto, mas se essa vítima antes se declarava branca e agora se declara parda, consequentemente forçou a estatística para o lado oposto.

    Não quero, claro, negar que os negros sejam vítimas de violência com mais frequência do que brancos no Brasil. Existe todo um contexto social que historicamente fez do negro mais vulnerável à violência. Mas há um dado interessante. Os estados do Sul, onde morrem mais brancos do que negros devido à proporcionalidade demográfica, apresentam um aumento da violência contra brancos quase que na mesma proporção da violência contra negros. Há duas possibilidades para tal fato: ou, sim, o comportamento da violência entre raça/cor no Sul é mais estável ou no Sul as auto-declarações de raça/cor não mudaram tanto quanto em outras regiões do país.

    Onde quero chegar é que, para se ter uma fidelidade maior na pesquisa é preciso levar em conta, antes de tudo, a variação da auto-denominação de raça/cor e como ela aconteceu. Tem que se considerar esses dados para evitar que tais pesquisas se transformem em mera munição para discursos sensacionalistas, demagógicos e oportunistas já que ela tende claramente a reforçar o negro como vítima e o branco como privilegiado (o velho clichê que não deixa de ser verdade) o que, em uma pesquisa oficial, portanto supostamente imparcial, não pode ser tolerado.

    • Bom dia, Guilherme

      Ótima colocação. Para responder a sua indagação com maior precisão, teríamos que tomar os dados brutos desses estudos e analisar o quanto do suposto aumento de homicídios de negros se deve à violência policial ou à homoclassificação racial. Infelizmente, eu não teria como fazer isso e, para efeitos do texto, baseei-me nas conclusões do Mapa da Violência 2012.

      Ainda que essa avaliação mais acurada seja de extremo valor para se averiguar numericamente os assassinatos, penso que as linhas gerais do argumento se mantêm. O aumento da população negra no país, a ponto de superar os brancos, se deve também, como você apontou, ao aumento do pertencimento racial tal como a população se identifica. Isso mostra que, no fundo, negros acabam morrendo mais mesmo.

      Agora, chama a atenção que a tal epidemia de morte de negros já esteja sendo denunciada faz alguns anos – embora já seja bem conhecida entre a população de baixa renda. Pode ser que o gráfico, em si, seja distorcido pelo que você apontou, mas me parece que o fenômeno em questão continua bem delineado.

      Obrigado pelo seu comentário!

      Abraços.

  3. Paulo disse:

    Estou no extremo oposto da situação destes jovens, vivendo a mesma experiência. Sou branco e muito rico, porém sou homossexual, apesar de não aparentar. Sempre me identifiquei com esta situação de marginalização, já que sou forçado a fingir o tempo todo, e a me esconder e proteger o tempo todo da sociedade para não me tornar vítima, como já aconteceu várias vezes, colocando minha vida em risco.

    Meu autor preferido é Martin Luther King, e entendo exatamente tudo o que ele expõe em seu livro, como a marginalização ocorre de todas as formas, em todos os lugares. Para nós é ainda pior, pois ocorre dentro de casa, e somos muitas vezes jogados na rua e obrigados a sobreviver, além de correr risco de pegar um monte de doenças. Inclusive já tive um namorado que era negro e da periferia, e isto foi um grande choque cultural, mas até hoje sinto muita falta de ter a liberdade para namorar com uma pessoa como ele.

  4. Muito interessante e informativo o blog. Vou indicar aos meus alunos e também trabalhar com a parte escrita em sala.

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: