Trem Noturno para Lisboa

Não é toda adaptação que, ao ganhar as telas do cinema, faz jus aos romances dos quais vieram. Neste quesito, o diretor dinamarquês Bille August já possui alguma experiência, quando transformou o clássico A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, em filme homônimo com elenco forte, mas roteiro fraco, em 1993. Com fundo similar, que mistura tensões amorosas com conflitos políticos, o diretor acaba de lançar seu mais novo longa-metragem: Trem Noturno para Lisboa (Night Train to Lisbon, Alemanha/Suíça/Portugal, 2013), romance originalmente escrito por Pascal Mercier.

Protagonizando as duas obras acima mencionadas, Jeremy Irons interpreta, neste, o professor de Letras Raimund Gregorius em Berna, capital da Suíça, cuja vida solitária era gasta entre livros e partidas de xadrez contra ele mesmo. Quando Raimund salva uma jovem moça de seu suicídio, ela desaparece sem dar notícia e deixa com ele seu casaco. No bolso, um livro assinado pelo desconhecido Amadeu de Prado (papel de Jack Huston). Encantado pelas palavras profundas do autor português – as quais muito lembram as reflexões de Fernando Pessoa – Raimund encontra dois bilhetes de trem para Lisboa, partindo em 15 minutos, e resolve iniciar uma jornada um tanto peculiar em sua vida.

O protagonista Raimund Gregorius (Jeremy Irons) indo para Lisboa, local onde sua jornada se inicia.

O protagonista Raimund Gregorius (Jeremy Irons) indo para Lisboa, local onde sua jornada se inicia.

Chegando à capital portuguesa, o professor procura reconstruir a vida de Amadeu de Prado, revelando que o livro encontrado havia tido apenas 200 cópias, publicadas pela sua irmã Adriana (Charlotte Rampling), a partir de seus cadernos de notas. Culto, equilibrado e honesto, Amadeu era um médico por profissão, filho de um juiz (Burghart Klaußner) que apoiava o regime em vigor de António Salazar. No contexto ditatorial do governo salazarista, Amadeu se envolve com dois amigos na clandestinidade da Resistência, onde conhece e se apaixona pela bela e politizada Estefânia (Mélanie Laurent).

Por não ter lido a obra original, não pretendo discorrer sobre aspectos literários da adaptação. Neste texto, o foco estará sobre as questões de gênero que englobam as personagens. De primeira, podemos afirmar que Trem Noturno para Lisboa não é um filme atento para as relações de gênero. Não foi um esforço do diretor, e quiçá do escritor, trazer à tona esse debate. Sem ter a pretensão de julgá-los por isso, cabe a nós, expectadores, extrair o que podemos do filme a fim de desvelar, mesmo em uma obra como essa, onde gênero está presente, produzindo a história e sendo produzida por ela. Detalhes do enredo serão revelados a partir do próximo parágrafo.

Jack Huston interpreta Amadeu de Prado, o "bom moço", de família privilegiado, que se junta à Resistência ao regime salazarista.

Jack Huston interpreta Amadeu de Prado, o “bom moço”, de família privilegiado, que se junta à Resistência ao regime salazarista.

Além de pouco atento a gênero, o filme parece fazer escolhas bastante convencionais – algumas delas funcionam, outras não. Associa, como de praxe (e com razão!), o governo ditatorial a uma masculinidade viril, rígida e autoritária. Está representada, por exemplo, pelos agentes de Estado que se infiltravam entre os civis para capturar os possíveis revolucionários. É o caso de um personagem cujo apelido era “carniceiro de Lisboa”, uma espécie de delegado Fleury dos portugueses. Homens conservadores, de semblante emburrado, e a serviço do que de pior o regime oferecia: a perseguição, as prisões e as torturas.

Já o médico Amadeu encarnava a imagem de “bom moço” em todo seu potencial: o mocinho bonito, branco, hétero, inteligente, atraente e tolerante que nega seus privilégios – ou melhor, que os utiliza – para uma causa nobre. Era uma representação, nos termos da socióloga Raewyn Connell (2005), de uma masculinidade cúmplice, aquele que não reivindica os privilégios de gênero para ocupar um lugar de opressor e que tampouco os refuta com veemência. Em sua clínica particular, Amadeu atendia ao lado de sua irmã Adriana. Ele era médico; ela, sua assistente. Ele saía de casa; ela vivia confinada. Ele queria namorar, tinha planos e pretendia fugir, enquanto ela só alimentava ciúmes. Adriana cumpria o papel da moça oprimida: sem perspectivas, sempre em segundo plano, vivendo à sombra do bem sucedido e admirado irmão. Quando ele morre (por um aneurisma), Adriana apenas veste preto, como em um eterno luto, e falava de seu irmão como se ele ainda estivesse vivo.

Adriana (Charlotte Rampling), irmã de Amadeu de Prado, desempenha o papel da mulher submissa que vive à sombra do admirado irmão.

Adriana (Charlotte Rampling), irmã de Amadeu de Prado, desempenha o papel da mulher submissa que vive à sombra do admirado irmão.

É uma personagem incômoda, sem dúvida. Mas que se justifica no meio social em que ela vivia: tanto ela quanto Amadeu eram filhos de um juiz extremamente conservador, que não aceitava a presença de um filho progressista na família. Logo, a criação que Adriana teve foi a mais tradicional possível, no bojo de uma socialização familiar sexista. Isso se reverbera em sua postura ao longo de todo o filme. Ela ocupa uma lacuna interessante na história. O que soa mais incômodo, porém, é que não há uma personagem feminina que sirva de contraste. Há apenas mais duas mulheres na história que apresentam alguma relevância: além da já citada Estefânia, o enredo conta com a oftalmologista Mariana (Martina Gedeck), por quem o protagonista se apaixona.

Sobre a segunda, não há muito que falar. Sua participação é secundária. No fundo, ela foi apenas uma ponte do professor Raimund Gregorius e a história de Amadeu de Prado, apresentada entre flashbacks. E, no desfecho do filme, ela retorna como uma referência para que Raimund não volte à sua monótona vida na Suíça e aceite o inesperado em Lisboa. Se isso vai se efetivar ou não, não temos como saber. Já a primeira, Estefânia, é um prato cheio para nós discutirmos o que eu havia dito antes: a superficialidade da obra ao abordar gênero. Estefânia, em poucas palavras, foi uma personagem mal aproveitada na história, pois o seu papel no movimento de Resistência não foi acompanhado de uma revisão do estereótipo passivo da mulher.

Estefânia (Mélanie Laurent), uma das peças-chave da Resistência, é apagado no filme por uma construção convencional da feminilidade.

Estefânia (Mélanie Laurent), uma das peças-chave da Resistência, é apagada no filme por uma construção convencional da feminilidade.

Essa constatação não se dá apenas pelo fato dela ter sido interpretada pela insossa Mélanie Laurent. É pior. O filme desliza quando trata da Resistência, a qual é exibida sem nenhuma base política. Fala-se da “Resistência”, dessa forma, sem desenvolver que tipo de resistência seria, com quais ideais políticos, quais táticas e estratégias etc. Ao invés de figurar como um grupo clandestino, parece mais um clube de amigos. Ao esvaziar a Resistência, o filme esvazia também as personagens envolvidas. A principal delas é Estefânia. Sai pelo ralo todo seu potencial de crítica à ordem vigente, revisão de “papeis sexuais” e subversão. Além de bonita, e atraente em todo seu mistério – um pré-requisito machista para toda e qualquer mulher com algum protagonismo na maioria dos filmes – Estefânia não é nada.

Digo que é uma pena o que a produção fez com essa personagem porque Estefânia sabia, de cor e salteado, os nomes, endereços e contatos de mais 200 militares progressistas que poderiam colaborar com um processo revolucionário. Ou seja, ao contrário do apático Amadeu, ela fazia alguma coisa – desperta interesse em quem assiste. Mas ainda assim era convencional, chegando a ponto de declarar a Amadeu que precisava de alguém para “protegê-la”. Aqui, regressa a noção de que as mulheres precisam da custódia de um homem, da proteção de um macho-alfa. Para a oprimida Adriana, isso até seria esperado, mas em Estefânia?! De peça-chave da Resistência ela gradualmente se reduz à mulher desamparada. Surpreenda-me que, no final, ela tenha dado um fora no Amadeu e tenha ido viver sua vida. Embora isso sinalize alguma iniciativa própria, o estrago já havia sido feito, pois ao longo de toda a história ela foi muito mais apagada do que deveria ter sido, contradizendo o que de mais provocativo tinha em sua imagem.

Cartaz oficial do longa-metragem Trem Noturno para Lisboa, dirigido por Bille August.

Cartaz oficial do longa-metragem Trem Noturno para Lisboa, dirigido por Bille August.

Nessa mesma linha, a sensação presente ao longo de todo filme foi de uma tarefa mal cumprida. Ainda que a história seja interessante, ela foi tratada com certa frieza, sem brilho e sem realmente quebrar o gelo de suas personagens, em sua maioria, apáticas. Sem falar no fato, que já é tendência nos filmes que se pretendem internacionais, de transformar o inglês em língua neutra: todo mundo fala inglês fluentemente, sem sotaques locais, mesmo quando estrangeiros conversam entre si. Pessoalmente, isso me incomoda, e tira muito do encanto do filme ver as personagens portuguesas falando apenas inglês.

Mesmo que suscitando poucas questões de gênero, é patente como essas estão presentes. Trem Noturno para Lisboa teria sido um filme melhor – novamente, não posso concluir a respeito do livro – se tivesse sido mais ousado. Pelo contrário, acabou recorrendo a certos clichês da representação de homens e mulheres, reduzindo as tensões pessoais presentes em toda a obra e, consequentemente, as tensões políticas de uma produção que se pretende um retrato de Portugal sob o regime salazarista.

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