Gênero e educação: um paradoxo atrás do outro

A escola é acusada de discriminação sexista justamente na época em que passa a incorporar, escolarizar e formar as garotas. Esse é o primeiro paradoxo relacionado a gênero e educação, de acordo com o sociólogo francês Bernard Charlot (2009). Continuando o debate iniciado no texto anterior, há um segundo paradoxo, absolutamente complexo e instigante: as meninas, vítimas da discriminação sexista dentro e fora da escola, apresentam os melhores resultados ao longo de sua trajetória escolar.

Se estivéssemos pensando a partir da chave que associa “grupos oprimidos” ao obstáculo que eles enfrentam na sociedade, entraríamos em colapso. Porque, seguindo essa lógica, nossas atenções recairiam sobre os meninos no tocante à escolarização. Isso, de fato, aconteceu em países do Norte global. Recentemente, lançaram um documentário alarmista nos EUA chamado The Mask you Live In sobre uma suposta tragédia que afeta os garotos. E já faz algumas décadas, nos países anglófonos, que a preocupação com o desempenho escolar dos meninos tem alimentando um discurso conservador e antifeminista, grosso modo, ao culpar as lutas feministas pelo “fracasso” dos meninos e homens.

Clássica foto que ilustra os constrangimentos ao espaço público, imputados contra as mulheres (no caso, na Itália).

Clássica foto que ilustra os constrangimentos ao espaço público, imputados contra as mulheres (no caso, uma mulher estadunidense na Itália) (Foto: Ruth Orkin, 1951).

Felizmente, a coisa é mais nuançada que isso. As desigualdades educacionais vêm aos olhos porque, entre outras, invertem a lógica predominante nos diferentes meios sociais: as meninas, apesar de toda discriminação sexista e do machismo (que tem, sim, um peso sobre suas vidas), estão superando os rapazes na escola. Essa observação não pode ser estendida para o mercado de trabalho. Lá, os homens continuam na dianteira, pois há muitos outros condicionantes que afetam a alocação das mulheres no mercado: as profissões escolhidas, as áreas valorizadas, o sexismo institucional, as possibilidades de ascensão etc.

Em todos esses casos, a escola não pode ser culpada pelas desigualdades no mercado de trabalho, conforme defende Adriana Marrero (2008), simplesmente porque não é a escola que controla o mercado! Talvez seja o caso de mudar o raciocínio e pensar que, ao contrário da maioria das esferas sociais, a escola seja um ambiente de menos discriminação. Essa constatação não anula, de forma alguma, as denúncias de sexismo e a reflexão sobre processos implícitos de desvalorização das mulheres presentes na instituição escolar.

Mas, se é verdade que a escola possa ser um ambiente bastante machista, é fato também que há outras possibilidades – positivas – para as garotas. Caso contrário, elas não apresentariam o sucesso escolar que hoje ostentam. Como entender esses processos? O que, em suma, deve estar favorecendo o desempenho escolar das garotas? Essas questões estão motivando a pesquisa educacional há décadas e estaria fora do escopo deste texto abordar a variedade e riqueza de resultados obtidos.

Apesar da discriminação presente dentro e fora da escola, as meninas apresentam os melhores resultados.

Apesar da discriminação presente dentro e fora da escola, as meninas apresentam os melhores resultados.

O que cabe ressaltar, na onda do que conclui Charlot (2009), é que o discurso universalista de que a educação é para todos/as estaria sendo levado a cabo pelas meninas. Primeiro, pois o “machismo nosso de cada dia” pode ter feito com que as mulheres, bem ou mal, se acostumassem com situações de discriminação sexista. Elas sabem que, ao saírem à rua, vão ouvir cantadas e assobios, por exemplo. A igualdade de gênero na mídia, no trabalho, na rua, nas relações afetivas, não é uma realidade e as moças percebem isso em suas experiências diárias. A novidade, talvez, seja a possibilidade de que via escolarização elas podem conquistar mais do que conseguem em um cotidiano marcado pelo sexismo.

E não vale apenas olhar o lado do “ensinar” – o que a escola está fazendo com as meninas – e sim o lado do “aprender”, isto é, o que as meninas estão fazendo na escola. Apesar da discriminação (ou motivadas pela discriminação), as garotas podem estar mobilizando seus esforços para, por meio da escola, buscar a concretização de um projeto de vida o qual se confunde com um projeto de independência e emancipação. Ao olharem ao seu redor e se depararem com a violência de gênero, as profissões menos valorizadas, a objetificação do corpo feminino etc, muitas meninas podem estar, conscientes ou não, investindo na escola como uma forma de superar tais empecilhos.

Em função das desigualdades educacionais que começam desde o início da escolarização, as mulheres são maioria nos cursos de graduação.

Em função das desigualdades educacionais que começam desde o início da escolarização, as mulheres são maioria nos cursos de graduação.

A escola é meritocrática é premia quem apresenta bons resultados. Não basta ser inteligente, ser um gênio, ser “foda”. Idealmente, tem que mostrar, provar, responder, fazer. Se as meninas fazem, elas ganham boas notas. E para fazer, elas mobilizam seus esforços. Ainda, vale mencionar que a escola não é a primeira vez na vida em que as mulheres devem fazer prova de si mesmas. No tecido social, as relações desiguais entre homens e mulheres já demandam delas um esforço sobre-humano: “A mulher aprende a viver com e contra a dominação”, destaca Charlot (2009, p. 171), “a aguentar as lógicas dominantes contornando-as por outras lógicas, ‘subversivas’”.

Em meio a tantos paradoxos, o autor encaminha a reflexão tecendo considerações sobre três pontos. Em primeiro lugar, a hipótese de que, em um mundo onde os valores são masculinos, a forma pela qual as mulheres aprendem a lidar com tais situações traz-lhe benefícios nas interações sociais. Para elas, que já aprenderam a suportar tanta coisa, é mais fácil ser tolerante a condições que para os homens soariam extremamente incômodas. Eles, por serem mais paparicados, seriam menos valentes, menos persistentes, menos responsáveis. A postura que se exige das garotas poderia, assim, acarretar um efeito positivo em sua escolarização, a qual exige compromisso, dedicação e seriedade.

Há um descompasso entre ser bem-sucedido na escola e o mercado de trabalho: suas respectivas desigualdades obedecem a lógicas distintas.

Há um descompasso entre ser bem-sucedido na escola e o mercado de trabalho: suas respectivas desigualdades obedecem a lógicas distintas.

O segundo ponto diz respeito a Razão e a inteligência de que tanto os homens quanto as mulheres são dotados/as. A diferença é que, nos meios sociais, exalta-se a tal da “sensibilidade feminina” – a noção biologizante de que as mulheres seriam dominadas por seus hormônios, o que explicaria o seu suposto descontrole, impulsividade e emotividade. Nada mais dominador e masculinista do que encerrar as mulheres na tal onipotência da TPM. Ora, na escola esses “hormônios” são o de menos. O que realmente importa é a dedicação, o estudo, o aprendizado, os quais poderiam aflorar entre as meninas, finalmente, na instituição escolar.

Terceiro ponto: quando se fala em “a mulher” devemos entender que a heterogeneidade de mulheres é bem alta, havendo também alunas que fracassam na escola. É mais do que sabido que as experiências femininas são diversas e se modificam intensamente quando em diálogo com outros “marcadores sociais” como cor/raça e idade. As mudanças sociais pelas quais as sociedades têm passado podem ocasionar formas distintas de relação entre mulheres e homens, meninas e meninos, e entre esses sujeitos e as instituições. Com o tempo poderemos dizer se esse “sucesso” feminino na escola continuará existindo ou, em caso positivo, se continuará contrastante ao “sucesso” dos meninos.

Por fim, é importantíssimo enfatizar que, ao se refletir sobre o sucesso escolar advindo de uma situação de opressão sobre as mulheres, não se está dizendo que é a discriminação de gênero que causa o sucesso escolar. Caso contrário, a fórmula ideal seria: oprime as mulheres e elas serão bem sucedidas na escola – um absurdo! “A discriminação de gênero não é a causa do êxito das moças na escola; a causa é sua atividade intelectual, o fato de que elas estudam e são inteligentes”, resume Charlot (2009, p. 173). O essencial é compreender como a discriminação sexista cria um contexto a partir do qual devemos compreender as desigualdades educacionais pesando a favor das meninas.

7 comentários
  1. João Likas disse:

    Meu caro, tenho certa dificuldade em vislumbrar os paradoxos apontados por Charlot. Embora num universo reduzido de amostragens não tenho notado evidências e tais fenônemos no Brasil. Minhas dúvidas já têm início com o que se entende por estudantes pobres supostamente marginalizados. Aqueles que estão no limite da pobreza e frequentam a escola em razão da merenda? … estes coitados nem se dão conta dos efeitos cruéis provocados pela estrutura podre que os rodeiam. Penso que em nosso caso, nem mesmo constam de estatísticas oficiais que apontem números desfavoráveis ao regime político atual. Trata-se de um contingente considerável, futuros destinatários do assistencialismo vigorante. E o poder público, independentemente da sigla partidária estão se “ralando” por isso. Em relação aos demais, homens e mulheres que conseguiram frequentar escolas, não notei os paradoxos denunciados … Tenho observado a mobilidade social desde a segunda metade da década de 50. Vivenciei o fenômeno político/econômico provocado pelas vindas das indústrias automobilísticas que, provocaram uma ascenção social lenta e sustentada . … (efeitos colaterais deste fato não serão aqui discutidos) Não tenho trabalho cientificamente organizado. O universo de minhas observação se restringe aos acessos às informações em razão das atividades exercidas nas áreas discentes/docentes e da profissão liberal que ainda exerço e que deixo de decliná-la para me furtar de possíveis entendimentos que minha participação tem escopo comercial. Como se vê, minhas amostragens têm origens num universo muito pobre e sem grandes suportes científico/metodológico. Pragmatismo de chão de fábrica, digo de aula de aula e dos resultados das ações e reações das pessoas do meu relacionamento. Neste exato momento, “cavocando” a memória lembrei-me de dezenas de pessoas de ambos os sexos, de origem extremamente humilde que desfrutam de grandes prilégios nos meios a que pertencem. Muitas vezes chego a imaginar que dentre elas fui o único a permancer “favelado”… rsrss… Senti comichão nas pontas dos dedos e não resiti à tentação de digitar este texto. Se servir a alguma coisa, senir-me-ei gratificado, caso contrário, o “delete” será melhor destino e mais ainda: sem nenhum constrangimento de minha parte.abs. prolixos

  2. João Likas disse:

    A educação não é uma panacéia, mas sem dúvida é o principal fator de mudanças. Aliás, não é a educação que muda a sociedade, a educação muda as pessoas e as pessoas mudam a sociedade. Com o embate de idéias e não das armas. A educação de qualidade contempla a todos indistintamente. Processo moroso, mas robusto… Quando a educação de qualidade encontra parceria na alimentação sadia e numa assistência médica também de qualidade e democratizada, o “boom” é inevitável. … Por isso imaginei que o tema despertaria mais interesse … Parece que o BBB motiva mais nossa população … Lamentável … É o”panem et circenses”

  3. Prezado Adriano.

    Há tempos tenho acompanhando suas postagens e já lhe considero o melhor blogueiro feminista da web brasileira. Tenho notado também que tens se dado conta de certas contradições onde, numa visão de mundo de opressão sobre a mulher, pode-se notar diversas vantagens que estas usufruem, da mesma forma que os supostos privilégios masculinos ficam seriamente comprometidos quando confrontados com os evidentes números onde constata-se que homens tem menor expectativa de vida, cometem mais suicídio, são a maioria dos mendigos e são mais vítimas de violência. E acho que você é inteligente demais para se sair com aquela de “mas os maiores autores de violência também são homens” como se isso eliminasse a diferença entre o perpetrador e a vítima.

    Mas penso que este tema, da educação, talvez seja o melhor para se explorar esse paradoxo. Se não o tiver feito, recomendo o livro “The Richer Sex” de Liza Mundy, onde ela examina longamente essa questão no sistema educacional norte-americano e europeu, e elenca várias explicações que, a meu ver, elucidam o assunto. Como o fato de que muitos meninos tem, desde cedo, o foco mais no trabalho do que no estudo, vítimas de uma mentalidade que ainda não despertou para o cada vez maior enlaçamento de ambos. Bem como a maior disposição de pais e maridos de financiar os estudos das filhas e esposas do que o reverso. Assim como algumas peculiaridades da mente sonhadora masculina, que muitas vezes tem uma ingenuidade maior em acreditar que serão astros de rock ou campeões de MMA.

    Bem, a questão que coloco é: Isso não depõe contra a simples idéia de uma opressão generalizante contra a mulheres em nossa sociedade atual? Quero dizer, essa evidência, e outras, já não deveriam ter deixado claro ao menos para os feministas mais perspicazes de que este patriarcado opressor de mulheres que nos lega privilégios masculinos já parece ao menos um tanto quanto anacrônico?

    Jamais diria que não haja questões relevantes para o feminismo. Claro que há. Existem desigualdades persistentes que merecem ser investigadas. Mas penso que há muito já deveria estar claro que não vivemos numa sociedade onde um gênero vive às custas de outro, se é que um dia o fizemos. Sempre foi uma parceria de maior ou menos grau de vantagem para um lado ou para o outro. Compara-se muito a relação ‘homem / mulher’ com a de ‘senhor / escravo’, o que me parece um absoluto contra senso, visto que, dentre senhores e escravos: Quem vivia menos, estava mais sujeito a violência, fazia o trabalho mais pesado e insalubre? E quem tinha mais conforto, era tratado com maior delicadeza e gastava mais com suas indumentárias pessoais e adereços?

    Ora, as desvantagens históricas femininas são de uma outra ordem, não desta, razão porque a desigualdade entre ricos e pobres, e brancos e negros é consistente em qualquer situação, ao passo que as entre homens e mulheres frequentemente se inverte.

    O sistema educacional é um caso interessantíssimo de como uma instituição burocrática, hierárquica e que privilegia a obediência parece ter sido criada muito mais visando a inserção feminina que a masculina, as meninas se saem melhor na escola porque esse universo é muito mais compatível com o comportamento feminino que ao masculino, não sendo também, por outro motivo, que a maioria das profissionais do ramo são mulheres.

    Penso que já passou da hora do feminismo sair dessa condição vitimista para uma condição realmente construtiva, onde veja seus problemas mais como um desafio de construir uma nova e mais fértil relação entre o masculino e o feminino do que um simples maniqueísmo entre opressores e oprimidas.

    Amigavelmente

    Marcus Valerio XR
    xr.pro.br
    evo.bio.br

    Ps: Também escrevo para o A Voice For Men – Brasil.

    • Caro Guilherme,

      Todos os textos que nós citamos no blog estão devidamente mencionados na aba “Bibliografia”, no topo da página do blog. Caso queira dar uma fuçada no que mais temos lido, basta abrir o link. A respeito do texto do Charlot (2009) que você tem procurado, a referência completa é a seguinte:

      CHARLOT, Bernard. A relação com o saber e a discriminação de gênero na escola. In: MARRERO, Adriana & MALLADA, Natalia. La universidad transformadora: elementos para una teoría sobre Educación y Género. Montevideo: FCS-UR-CSIC, p. 161-174, 2009.

      Um grande abraço!

      Adriano

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