Grêmio, racismo e a parcialidade da crítica

Não é de hoje que se discute racismo no futebol. Pauta antiga, ela esteve presente, por exemplo, na Copa do Mundo da FIFA no Brasil, quando alguns capitães das equipes liam mensagens antirracistas minutos antes do início das partidas. Recentemente, essa discussão entrou novamente na ordem do dia. Por causa da partida entre Grêmio e Santos pela Copa do Brasil, no último dia 28, ofensas raciais contra o goleira Aranha, do segundo time, culminaram na decisão do Supremo Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) pela eliminação do Grêmio desse campeonato, fora o pagamento de uma multa no valor de 50 mil reais.

Por mais que deva ser elogiada a ação judicial de excluir o Grêmio em razão do racismo de sua torcida – atitude essa que prova que o racismo não deve ser tolerado – é digno de nota discutir a maneira despolitizada pela qual a discriminação racial tem sido abordada pela imprensa e por amplo setor da sociedade. A torcedora Patrícia Moreira da Silva, 23 anos, se tornou o bode expiatório do racismo gremista, tendo sido publicamente humilhada pelo seu comportamento, tendo sua casa apedrejada por um vizinho, recebendo xingamentos e ameaças de toda ordem e até mesmo correndo o risco de ser linchada. Em suma, ela ficou conhecida após imagens suas, xingando o goleiro Aranha, terem circulado em rede nacional e pela internet.

A jovem Patrícia Moreira da Silva, 23 anos, foi flagrada xingando o goleiro Aranha, do Santos, de

A jovem Patrícia Moreira da Silva, 23 anos, foi flagrada xingando o goleiro Aranha, do Santos, de “macaco”. Seu time, o Grêmio, foi expulso da Copa do Brasil. Onde estão os demais que também ofendiam o goleiro?

É impossível negar a importância de se combater o racismo em suas variadas expressões, mesmo aquelas que parecem pontuais, esporádicas ou inocentes. Caso contrário, a causa antirracista tornar-se-ia inespecífica; abordaria um racismo teórico, genérico, incapaz de denunciar formas cotidianas de reproduzi-lo. Nesse sentido, um xingamento de “macaco” a um indivíduo negro – que vem no calor do momento e no embalo da multidão – não pode passar despercebido. Deve, sim, ser motivo de rechaço público, de ação penal e – o que está faltando no caso do Grêmio – uma profunda crítica e autocrítica sobre a convivência diária com a discriminação racial.

Apesar de outras pessoas terem prestado depoimento pelas ofensas raciais, em nenhum caso a repercussão foi tão grande quanto o de Patrícia. Ela teve o azar de ter sido captada em alta resolução pelas câmeras da rede Globo. Uma torcedora que se pescou no meio de uma multidão, a bola sorteada, aquela que pagou a conta. E, como de praxe na imprensa brasileira, o que começou ruim, terminou pior. Em vez de ampliar o debate, buscar uma retratação coletiva, uma responsabilização conjunta pelo lamentável episódio, tem-se adotado uma abordagem individualizante, que transformou Patrícia no “rosto do preconceito”, tal como afirmado pelo jornal Zero Hora.

Aranha, goleiro do Santos, exigiu que fossem apuradas as ofensas racistas. Certo ele. Mas a que custo estão sendo encaminhadas essa investigação?

Aranha, goleiro do Santos, exigiu que fossem apuradas as ofensas racistas. Certo ele. Mas a que custo estão sendo encaminhadas essa investigação?

Assim, por mais de uma semana, temos lido matérias ilustrando Patrícia de humilhação a humilhação. Perdeu o emprego, sumiu das redes sociais, escondeu-se em casa, chorou em rede nacional e recebeu xingamentos de cunho machista – como se um erro justificasse outro. E, coerente com a má qualidade do debate, o advogado de Patrícia, procurando livrar sua barra a todo custo, argumentou que “macaco”, no contexto do futebol, não é uma alcunha racista. Está tudo errado!

“Macaco” é, sim, um termo ofensivo. Usado contra negros, ele carrega a intenção de desumanizá-los, animalizando-os em uma condição de primata considerada social e intelectualmente inferior à espécie humana. O epíteto não teria o mesmo efeito se endereçado a um branco. Em razão disso, devemos descartar a ingenuidade de nos considerarmos todos macacos como forma de neutralizar essa ofensa. Proponho, aos defensores do “somos todos macacos”, a experimentarem dizer “somos todos viados”. Bem, um homem branco e heterossexual facilmente se sentiria ofendido com essa expressão, tão preenchida por homofobia. Ela os atinge diretamente. “Macaco”, não. Esse termo não diz nada a uma pessoa branca, não a ofende, não a atinge, não a animaliza, não a diminui.

A humilhação sofrida única e exclusivamente por Patrícia tem individualizado o debate sobre o racismo, tirando-lhe uma devida contextualização política.

A humilhação sofrida única e exclusivamente por Patrícia tem individualizado o debate sobre o racismo, tirando-lhe uma devida contextualização política.

Nesse contexto, é essencial desmascarar a aparente face de neutralidade desses xingamentos. E a lei 7.716/89 está aí para isso. Conhecida como “Lei Antirracismo”, seu propósito e definir os crimes resultantes de preconceito de raça, cor ou etnia, entre outros. Iniciativas como essa visam coibir ofensas raciais e outras formas de comprometer o exercício da cidadania pela população negra. Trata-se, evidentemente, de uma questão ampla, que diz respeito à sociedade como um todo. Afinal, o racismo é um artifício poderoso justamente porque é social.

A partir dessas constatações, percebe-se que a humilhação sofrida por Patrícia – que deve, sim, sofrer algum tipo de punição pelo que fez – representa o lado fraco da corda que estourou. Chega a ser cômodo criminalizar uma garota de 23 anos que, no meio de uma multidão ampla e uniformizada, bradava coletivamente uma alcunha racista, reproduzindo um comportamento que usualmente não recebe a devida atenção. O racismo, traço cultural do Brasil, se expressava ali nos xingamentos de “macaco” como se expressou, mais sutilmente, no amontoado de gente branca que ocupava os estádios durante a Copa do Mundo.

Thiago Silva, capitão da equipe brasileira na Copa do Mundo da FIFA 2014, leu mensagem antirracista durante o campeonato no Brasil. Assim posto, parece que o racismo é um ato meramente individual, baseados em xingamentos raciais e nada mais.

Thiago Silva, capitão da equipe brasileira na Copa do Mundo da FIFA 2014, leu mensagem antirracista durante o campeonato no Brasil. Assim posto, parece que o racismo é um ato meramente individual, baseados em xingamentos raciais e nada mais.

Joseph Blatter, da FIFA, apoiou a punição do Grêmio, assim como deve ter apoiado a leitura de mensagens antirracistas no campeonato que aconteceu há três meses em nossas terras. Não parece, por outro lado, ter mobilizado a FIFA ou o poder público brasileiro que a Copa estava demasiadamente branca para um país como o nosso. Nem as emissoras, que tanto expuseram Patrícia sem uma devida contextualização política da ocorrência, parecem refletir sobre o seu papel na manutenção de um padrão de beleza esteticamente branco em suas programações, na ausência de figuras negras na frente das câmeras, na publicidade cheia de racialidade de seus intervalos comerciais, no pouco compromisso com o racismo que se adentra nos subterfúgios da cultura brasileira.

Não. Ao eleger Patrícia o bode expiatório do racismo nacional, escolheu-se canalizar nela toda a discriminação racial que nos desumaniza por todos os lados. Assim posto, a jovem se transformou no símbolo da intolerância racial – um fenômeno, vejam só!, individual, singular, superlativo. Esse é um bom exemplo daquilo que a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) chamou de “banalidade do mal”. Arendt, diga-se de passagem, referia-se ao julgamento do nazista Adolf Eichmann, ocorrido em Jerusalém uma década e meia após o fim da 2ª Guerra Mundial. Longe de defendê-lo de suas acusações de genocídio e crimes contra a humanidade, o que a filósofa fez foi questionar como Eichmann havia encarnado todo o ódio contra o nazismo. Ele, que não possuía um histórico antissemita, era um burocrata fazendo aquilo que achava certo e “apenas” obedecendo a ordens.

Com a jovem Patrícia Moreira da Silva, banalizamos o mal duplamente. Uma, na linha do que temos defendido até então, por termos despejado sobre ela uma responsabilidade maior e coletiva, fruto de uma crítica parcial, oportunista, imbecil. Outra, por termos feito uso da violência para conter um ato violento: apedrejamento, humilhação e xingamentos machistas contra ela, que representam outro crime social, dessa vez endereçado a mulheres e não a negros/as. É por essa via, distorcida que só, que pretendemos encaminhar o debate sobre o racismo no Brasil?

3 comentários
  1. ivo cocco disse:

    Adriano, parabéns pelo texto.
    Quero externar meu comentário, apenas para acrescentar que uma grande parte da população se entusiasma com alguma manifestação e faz coro, sem pensar no que de fato está fazendo.
    As torcidas, principalmente.
    Então, independentemente da punição ao time do Grêmio, e à responsabilização à torcedora, resta o fato de que infelizmente em nosso país, existem tantos pesos e medidas quantos forem os casos já acontecidos e ainda por acontecer.
    Um mau exemplo, só para refrescar a ideia, foi quando os dois últimos ex-presidentes, um chamando os aposentados de vagabundos e o outro negando que soubesse dos roubos de seus nomeados, sem que nenhum deles tivesse tido qualquer punição. Pelo contrário, foram reeleitos…
    Outro mau exemplo, bem recente, foi do novo presidente do STF, ao propor aumento aos próprios salários, enquanto, no seu mister de juiz, nega aos trabalhadores seus direitos, não só ao salário digno, mas também, ipso facto, à igualdade constitucional.
    No seu linguajar rebuscado, data venia etc., utilizam a verborragia da língua para dificultar o entendimento da lei, clara para eles, e obscura para a maioria inculta.
    Talvez ainda esteja para nascer a liderança que nos livre de toda essa podridão, porque, a julgar pelo andar da carruagem, vai demorar demais…

  2. Aline disse:

    Adriano, bom texto, entretanto usaste o espaço apenas para engrandecer a Patrícia. Cuidado, o opressor não é a vítima. Não te conheço, mas provavelmente sejas um homem cis branco, portanto não tem autoridade para ditar o que é e o que não é racismo. Espero que não tenha parecido grossa com você, pode ter certeza que não foi essa a intenção.

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