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Arquivo diário: 04/02/2015

Em quase o mundo todo, a violência contra a mulher é um problema sério. Na América Latina, terreno daquilo que conhecemos por machismo, é particularmente grave, haja vista que países como El Salvador, Colômbia e Brasil costumam figurar entre posições preocupantes nos rankings de violências perpetradas por homens contra mulheres (leia aqui). Não à toa, diversas campanhas têm surgido na tentativa de desestimular a violência de gênero e promover ações igualitárias entre homens.

Apesar de aparentemente bem intencionadas, muitas dessas campanhas parecem seguir por um caminho indesejado, ao procurar corrigir um erro com outro. Neste texto, trago exemplos de algumas dessas campanhas e aponto quais são seus equívocos, de acordo com a perspectiva de gênero que adoto. Em seguida, discuto o quanto esses enganos são fruto de uma compreensão pouco profunda ou madura das relações de gênero, o que resulta, por consequência, em uma visão política ingênua, sentimentalista e, por que não, conservadora.

A começar pelo Brasil, salta aos olhos a campanha cujo slogan é: “Homem de verdade não bate em mulher”. No momento, sua página de Facebook alcançou cerca de 9 mil seguidores e sua principal ação é reunir fotos de diversos indivíduos, em sua maioria jovens e adultos do sexo masculino, empunhando um cartaz com os dizeres da campanha. Algumas celebridades, como o ator global Cauã Reymond, aderiram-na. Mas o que mais chama a atenção é a adesão da própria Maria da Penha, cujo nome é referenciado na Lei 11.340/06, um marco na luta contra a violência doméstica.

A ativista Maria da Penha segurando um cartaz da campanha brasileira

A ativista Maria da Penha segurando um cartaz da campanha brasileira “Homem de verdade não bate em mulher”.

Nessa iniciativa, vê-se que, ao associar o “homem de verdade” àquele que não agride uma mulher, a campanha brasileira parte do perigoso pressuposto de que existe um “homem de verdade”. De forma simétrica, existiriam também “homens de mentira” ou, pelo menos, homens de menor escalão, mais femininos, menos homens – adjetivo que aqui se presta a nomear aquilo que é digno, honrado, nobre – um equívoco cujo maior risco é essencializar o conceito de homem e de masculinidade, atiçando até mesmo um possível orgulho de ser um “homem de verdade”. Resta saber se é disso que precisamos para coibir uma violência que é, ela mesmo, um produto das relações de gênero.

Na mesma linha, o Chile foi palco de campanha similar, porém com um tom ainda mais agressivo (e talvez por isso mais polêmico). “Maricón es el que maltrata a una mujer”, ou, no bom português, “Viado é quem bate em mulher”. Com esse mote, a campanha se presta a lançar uma alcunha ofensiva – maricón – sobre os agressores, a fim de inverter a lógica sob a qual se assenta a violência de gênero, isto é, o homem seria mais macho, mais masculino ou mais homem caso fizesse prova de sua masculinidade agredindo uma mulher. Ao lançar o epíteto homofóbico, a campanha intenta em desmoralizar ou diminuir essa masculinidade, associando-a a formas renegadas de “ser homem” na sociedade. No caso, as masculinidades homossexuais.

Fora do nosso continente, há exemplos que caminham para o mesmo buraco. Na Itália, uma campanha recente garantiu elogios nas redes sociais. No vídeo, que pode ser visualizado abaixo, um conjunto de garotos italianos, entre sete e onze anos de idade, apresentam-se ao expectador e, em seguida, são apresentados à Martina, uma mocinha loira, bonita e alta, que se posiciona perto dos ragazzi tímidos e fofinhos. Eles são solicitados a lhe fazer um carinho seguido de uma careta. Fazem-no. Porém, negam-se quando requisitados a darem um tapa na italiana. Vale a pena conferir o vídeo abaixo antes de seguirmos:

Reparem que, quando questionados do porquê não aceitaram esbofetear Martina, suas respostas giraram em torno do lugar comum de que “homem não deve bater em mulher”. Um deles foi até mais explícito: “porque ela é uma menina, e ela é muito bonita”. Outro bambino chegou a dizer, talvez com menos convicção do que se esperaria, “porque sou homem”. E assim o vídeo se encerra, procurando demonstrar que crianças ainda não internalizaram o mau caráter que circundaria os agressores de mulheres. Fica a esperança, assim, de que é possível educar as novas gerações a não serem violentas.

A grande contradição traduz-se na seguinte indagação: que caminhos estamos buscando se procuramos educar as crianças para não serem violentas sem questioná-las do sexismo que essas abordagens carregam. Pois a premissa do argumento de que “homem não bate em mulher” tem um fundo absolutamente machista. Preconiza, por exemplo, que homens são fisicamente superiores e que cabe ao nosso julgo dizer em quem devemos bater ou não; pior, sugere que poderíamos nos autorizar a agredirmos outros sujeitos que não sejam, em nosso entendimento, “mulheres”. Aqui incluo outros homens (dentre os quais os gays), as travestis, as transexuais, os/as andróginos/as e outras mulheres cuja feminilidade nos desafia a atribuirmo-las um gênero definido.

Slogan da campanha chilena

Slogan da campanha chilena “Maricón es el que maltrata a una mujer”.

Seria melhor esperar que um menino de oito ou nove anos dissesse que se recusa a agredir a Martina – ou a Joana, a Maria, a Laura etc. – não porque ela é uma mulher, mas porque a agressão, em si, é um problema. Qualquer ato de violência deve ser repudiado, quer seja aquele praticado contra uma mulher, homem ou o quem mais existir nesse espectro, quer sejam as formas mais sutis e menos escandalosas de praticar a violência. A agressão física é uma delas e talvez a mais barulhenta, socialmente falando. Porém, será que não somos algozes de outras práticas igualmente violentas, muitas das quais sem nos darmos conta?

Para retomar a saudosa Heleieth Saffioti em Gênero, patriarcado e violência (2004), se há algo de poderoso na violência é justamente sua rotinização, isto é, a naturalização de sua prática em rotinas imperceptíveis. Ao lado disso, a autora ressalta que a violência está encoberta por relações afetivas e até amorosas. Não basta, assim, transformar em exótica a imagem de um agressor como se ele fosse um outro a ser eliminado ou reconvertido. Ele somos nós, no sentido de que essas hierarquias que se prestam a justificar as violências e agressões são um problema social que diz respeito às próprias construções de gênero que nos circundam. Por isso, é inútil tentar combater uma violência de gênero sem se apropriar do próprio gênero enquanto conceito.

Nesse contexto, há de se considerar que as campanhas supracitadas não são capazes de romper com formas de violência. Ou, pior, as legitimam como maneira de coibir outras violências. Pois é inescapavelmente violento prescrever que um “homem de verdade” é isso ou aquilo, que um agressor é na verdade um “maricón” ou que é “por ser homem” que não se deve agredir uma moça. Essa louvação à própria masculinidade, entendida por um viés reformista de gênero, representa um perigo em potencial. São campanhas covardes, rasas e ainda tímidas para romper com os grilhões sexistas da sociedade. Em suma, são campanhas machistas.

Para finalizar o texto, e não ficar apenas nas críticas, retomo uma campanha realizada pelo Equador intitulada “Reacciona Ecuador, el machismo es violencia”. Essa política é composta por uma série de vídeos amplamente divulgados nas redes sociais faz alguns anos. Um dos meus favoritos ilustra o processo de construção de masculinidades e feminilidades desde a infância e, o que faz de mais ousado, sugere que as próprias maneiras dicotômicas e sexistas de produção do gênero são as principais responsáveis pela manutenção de uma relação desigual entre os sexos, a qual, por sua vez, culmina na reprodução da violência de gênero. Assista ao vídeo abaixo:

O que esse curto filme tem de mais sensacional é não se referir ao homem agressor como um troglodita, um “homem de mentira”, um ser abjeto e atrasado, e sim como um menino, um jovem ou um adulto como qualquer outro, que cresce brincando de luta, de tiro, aprendendo a ser agressivo e pouco compreensivo. Melhor ainda, o vídeo não explicita nenhuma forma de violência física, pois se atenta às construções de gênero em si e como elas se reproduzem mantendo desigualdades e hierarquias entre os sexos (basta reparar na maneira pela qual a moça aceita as algemas – um retrato tragicômico da internalização das opressões).

É essa abordagem que se esperaria de uma campanha de combate à violência contra a mulher que se aventure a discutir gênero com mais coragem e profundidade. Em outras palavras, é necessário apropriar-se de um conceito de gênero para ir além dos lugares comuns, pois, sem questionar as próprias noções dicotômicas e excludentes de homens/mulheres, masculino/feminino etc., não se consegue avançar. E os riscos embutidos das campanhas do Brasil, Chile e Itália estão aí para provar: não se corrige um erro com outro.