8 de março: outras versões

No início dessa semana, chegamos a mais um 8 de março, Dia Internacional da Mulher. É claro, eu não sei o que você chega a saber e o que você chega a fazer a respeito dessa data, se para você conta essa data, qual a sua versão para ela, se ela começa e termina onde o dia começa e termina mesmo ou se há temporalidades e espacialidades para além do tempo e do espaço em questão. Na maioria dos casos, parece que não se sabe bem o que esse dia significa, a não ser um dia de “celebração”, no qual se devem presentear as mulheres com presentes e flores, um “dever” que termina no terminar do dia mesmo. Presentes e flores devem ter seus significados, mas certamente não são (ou, ainda não chegam a ser) o signo do que, de fato, representa esse dia, do que está em jogo nessa data. Para começar, há outras versões para essa data que são menos ditas e escutadas que deveriam ser mais ditas e escutadas. Essas versões foram marcadamente levantadas e defendidas por todos e todas aquelas que partem do feminismo como campo de teoria crítica e transformação social, como lugar em que o humano é questionado, rasurado e reconstruído. Entre essas outras versões (versões outras, eu diria), é que gostaria de me alinhar nesse texto.

Rosas

Presentes e flores devem ter seus significados no Dia Internacional da Mulher, mas certamente não são (ou, ainda não chegam a ser) o signo do que, de fato, representa esse dia, do que está em jogo nessa data.

Evidentemente, essas outras versões não dizem respeito a como se chega a se transformar num ser altamente responsável (inclusive, honorável) por parabenizar e presentar as mulheres. Aliás, não consigo perceber que tipo de responsabilidade está tratando de se praticar nesses contextos, ainda mais quando não se está recitando nenhuma ansiedade, tensão, movimento. Ao contrário disso, essas outras versões de que estou falando “começam” e “terminam” em lutas, em lutas constantes que se renovam dia após dia. Na verdade, essas outras versões estão sempre no meio, sempre em movimento, implicadas em gestos de ansiedade e tensão, gestos que são o estado, por excelência, da eticidade*.

Elas retomam ao dia de 8 de março, quando nessa mesma data em 1857, em Nova York, mulheres operárias tecelãs de uma fábrica lutavam por melhores condições de trabalho e foram mortas carbonizadas em razão de policiais que atearam fogo no local, querendo obrigá-las a sair. É claro, essas outras versões podem retomar a acontecimentos anteriores e posteriores a 1857 e a contextos diferentes desses. E, de fato, retomam, porque a lutas das mulheres, seja por que objetivo for, começou (não necessariamente num “8 de março”) em algum momento (distante) e ainda não terminou, ainda mais quando se tratam de questões de reconhecimento, principalmente as ligadas ao mundo do trabalho. As lutas das mulheres continuam todos os dias e elas envolvem a todos nós. Ela inclui as mulheres nova-iorquinas, as mulheres brasileiras, as mulheres indianas, as mulheres cabalas, todas as mulheres. Ela inclui transgêneros, transexuais, intersexos, travestis, crossdressers, drags queen/king. Ela inclui os homens. Ela inclui todos e todas que entendem que o “humano” está produzido, reproduzido e desproduzido por normas sociais, entre elas, as normas de gênero.

Cindy Sherman, Untitled #092, 1981

Desde a Grécia, as mulheres são herdeiras do silêncio, de um apagamento e falta de reconhecimento de suas vidas. (Imagem: Cindy Sherman, Untitled #092, 1981)

Seguindo a Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy em O que é feminismo (1985), percebemos que no contexto do processo do que hoje resultou o “Ocidente” (se bem que essa narração pode deixar de contar histórias outras no contexto ocidental mesmo), desde a Grécia, as mulheres são herdeiras do silêncio, de um apagamento e falta de reconhecimento de suas vidas. As autoras nos lembram que as mulheres, juntamente com os escravos, não gozavam do título de “cidadão” e, portanto, não eram entendidos e reconhecidos como pessoas de “maior valor”, livres e capazes. Desde esses tempos, às mulheres couberam atividades reprodutivas, “dentro de casa” e entendidas como de “menor valor”. Faziam (e ainda fazem) uma associação correlata entre mulher e corpo (este compreendido como inferior), homem e mente (esta compreendida como superior). Essa associação foi sustentada por nomes importantes como Platão, Aristóteles, René Descartes, carregada até nossos tempos, sobretudo, como base de conhecimentos.

A situação das mulheres continua semelhante ou até pior em todos os tempos: Idade Média, Renascimento, Revolução Industrial. Nesse sentido, o feminismo sempre procurou, em sua prática, como afirmam Alves e Pitanguy (1985), “superar as formas de organização tradicionais, permeadas pela assimetria e pelo autoritarismo” (p. 8). É claro, é difícil “estabelecer uma definição precisa do que seja feminismo, pois este termo traduz todo um processo que tem raízes no passado, que se constrói no cotidiano, e que não tem um ponto predeterminado de chegada(p. 7). Pertencem a esse processo de busca de superação de estruturas dominantes (que são tanto materiais quanto simbólicas) conquistas como o direito ao voto (o sufrágio feminino), o direito ao ingresso no mercado do trabalho e certa igualdade de salários e condições de trabalhos (se bem que este ponto é bem questionável). Pertencem a esse processo conquistas como as escritas desmobilizadoras de Betty Friedan, Simone de Beauvoir, Heleieth Saffioti, entre tantas outras. Certamente, o dia “8 de março” como “Dia Internacional da Mulher” também pertence as conquistas desse processo, ainda que tenhamos que pensar melhor sobre o que esse dia significa e o que deveria ser feito. E, certamente, ainda há muito para se batalhar e conquistar: o direito ao aborto, por exemplo.

Feminismo

O feminismo está sempre em movimento e problematiza um ideal dominante de “humano”, nos fazendo sempre e sempre pensar na questão do reconhecimento, de como alguém chega a ser re-conhecido.

O feminismo está sempre em movimento e problematiza um ideal dominante de “humano”, nos fazendo sempre e sempre pensar na questão do reconhecimento, de como alguém chega a ser re-conhecido. Às vezes, pode ser que quando nomeamos o dia “8 de março” ou o “Dia Internacional da Mulher”, ou que seja o dia 8 de março como o “Dia Internacional da Mulher”, nós estamos apenas nomeando um problema que não está resolvido. Seja no contexto da Grécia antiga, em 1857, em 1908, ou nos tempos atuais, as mulheres, como nos diz Judith Butler em Deshacer el género (2006), as mulheres não estão totalmente incluídas no marco do “humano”. Suas vidas, em razão das implicações sociais construídas em torno de ser desse gênero, tornam-se mais precárias do que a vida é em si mesma. As mulheres têm sido construídas e, ao mesmo tempo, exploradas como vidas “menos humanas”, como vidas de “menor valor”. Além do mais, quanto mais estão implicadas num processo de outridade, as mulheres são mais exploradas do que nunca.

Inclusive, dentro dos próprios setores da teoria e do movimento feminista, a categoria das mulheres tem sido feita e desfeita. E tal tarefa, realmente, deve acontecer, principalmente quando em alguns momentos, a categoria das mulheres foi usada para ânimos de exclusão, para excluir parte da clientela que buscava representar mesmo. Essa desconstrução e reconstrução é bastante necessária e proveitosa, uma vez que, como diria Butler em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2008), a crítica feminista “tem de explorar as afirmações totalizantes da economia significante masculinista, mas também deve permanecer autocrítica em relação aos gestos totalizantes do feminismo”. É certo que se o feminismo não empreende uma autocrítica em relação a si mesmo, ele corre o risco se tornar tão opressor quanto às opressões que procura combater, inclusive corre o risco de se tornar um projeto altamente colonial.

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* Como em Avital Ronell. Ver aqui.

 

1 comentário
  1. Gostaria de ter um contato maior com vocês, por um motivo : a Comissão Nacional da Verdade está preparando um dossiê especial sobre discriminações de gênero ( vocês devem saber disso) e eu fui reconhecidapcomo “caso emblemático nacional de discriminação contra a mulher”, porque eu era diplomata de carreira em 1958, mas devido ao meu casamento com um colega, Sergio Paulo Rouanet, fui obrigada pelo Itamaraty a me demitir. Tudo está explicado melhor no meu blog, http://www.calatemulher.blogspot.com.br
    Podem ver e depois escreverem para mim no endereço :amaralprada@uol.com.br

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