Que(m) pode um “beijo lésbico” na televisão?

A cena de um beijo protagonizada pelas atrizes Fernanda Montenegro (que interpreta Teresa) e Nathália Timberg (que interpreta Estela) no primeiro dia de exibição e em dias posteriores da nova novela da Rede Globo, chamada Babilônia, despertou uma série de reações dos setores do conservadorismo social e do fundamentalismo religioso, quando não os dois tipos simultaneamente. Até hoje — na distância temporal da cena e, inclusive, na distância temporal dos avanços das questões relacionados aos problemas de gênero (gender trouble) — ainda podemos ler ou ouvir os dizeres daqueles que souberam apenas manifestar uma náusea, quando não um insulto, em relação às vidas das mulheres lésbicas, senão as vidas LGBTs em sua totalidade. Assim, nós vimos mais uma vez serem citados uma gama de enunciados que têm sido repetidos historicamente a fim de tornarem como de menos “valor” (“falso”, “abjeto”, “imoral”) ou mesmo irreais as relações amorosas daqueles que ousam em transgredir as normas de gênero (variando o contexto, se nomeia como as normas da família, as normas de Deus etc.).

Beijo

A cena de um beijo protagonizada pelas atrizes Fernanda Montenegro (que interpreta Teresa) e Nathália Timberg (que interpreta Estela) no primeiro dia de exibição e em dias posteriores da nova novela da Rede Globo, chamada Babilônia, despertou uma série de reações dos setores do conservadorismo social e do fundamentalismo religioso, quando não os dois tipos simultaneamente.

Entre esses repúdios, houve inclusive uma nota* escrita pela Frente Parlamentar Evangélica (FPE), assinada pelo seu presidente, o deputado João Campos (PSDB/GO), o mesmo deputado que propôs o problemático projeto apelidado de “cura gay”. Na referida nota, repudia-se o “beijo lésbico” encenado, assim como outros gestos proporcionados anteriormente pela emissora (que não chegam a ser enumerados claramente), por afrontarem princípios e convicções cristãs e por atacarem a “família natural”. Campos, ou, que seja a bancada evangélica, afirma(m) que essas encenações anticristãs, por assim dizer, fazem parte de um estratagema que só quer disseminar a ideologia de gênero, impor o modismo de “outra forma de amar”.

No texto de hoje (e pode ser que seja necessário outro) para este blog, gostaria de refletir juntos com vocês — principalmente de vocês que se ligam aos estudos e lutas de gênero — o que esses dizeres significam e a que caminhos eles nos levam. Quer dizer, como esses dizeres nos atingem e nos afligem. Também, ao mesmo tempo talvez, gostaria de refletir junto de vocês o que a referida cena significou para nós ou o que ela poderia significar. Em síntese, gostaria de realizar, mesmo que muito breve, uma reflexão desde a linguagem e sobre a linguagem.

Dep. João Campos

Entre esses repúdios, houve inclusive uma nota escrita pela Frente Parlamentar Evangélica (FPE), assinada pelo seu presidente, o deputado João Campos (PSDB/GO), o mesmo deputado que propôs o problemático projeto apelidado de “cura gay”.

Quando o conservadorismo social/religioso tende a referir a cena protagonizada por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg (ou que seja qualquer outra cena de um beijo feita por duas mulheres ou dois homens) como um ato impositivo de “alguém” ou de uma comunidade — nesse caso, a comunidade LGBTs — parece que claramente estão dizendo que esse “alguém” ou que essa comunidade é em si impositiva. Desde esse modo, a imposição é a agência principal ou exclusiva desse sujeito ou desses sujeitos, de maneira que o texto, a imagem, a imagem-movimento, qualquer que seja, são sempre o efeito de uma linguagem que quer impor uma ideologia, uma ideologia dominante. É claro, eu não sei se originalmente a cena em questão está produzida desde alguém ou desde a comunidade LGBTs (parece que não), mas certamente é uma cena que pertence a essa comunidade, a esse contexto. Porque nesse contexto, é muito certo que essas cenas ocorrem, que esses textos se produzem em carne e osso como parte dos amores e vidas das pessoas que nele se encontram, mesmo que a publicidade social diminua e até negue esses afetos.

De uma forma ou outra, a história de duas mulheres que estão juntas há 40 anos, sendo incorporada nos movimentos de uma telenovela de uma “grande” emissora de televisão, exibida em horário “nobre”, representa muito para nossa comunidade, para as verdades das nossas vidas. Entretanto, isso não significa que agora privilegiemos ou que vamos passar a privilegiar um meio dominante de produção de textos sob os lugares alternativos em que construímos e/ou nos apoiamos para escrever e inscrever as realidades das nossas vidas. Pelo contrário, as presenças de nossas histórias nesses meios dominantes devem tentar fazer com que esses propósitos dominantes, que estão aliados ao capitalismo, se descentralizem cada vez mais e que outras realidades humanas sejam contadas, que outros rostos possam vir a aparecer na televisão como parte do que constitui a realidade mesmo. Tenho em mente que quando a Rede Globo faz aparecer uma cena como a cena em questão só está fazendo aparecer em público e como parte do “público” as demandas das multiplicidades das vidas humanas, de vidas que dentro de um marco normativo não são consideradas como “humanas”, mas que podem fazer um ruído político (um burburinho) até ser consideradas como tal.

Monique Wittig

Tomando emprestado um termo conceito da feminista Monique Wittig (2006), os argumentos do conservadorismo social/religioso negam um pensamento hétero (straight mind) que oprimem principalmente as mulheres, as lésbicas e os gays, sobretudo quando fundam e tomam como primários uma série de sítios que são altamente opressores: “homem”, “mulher”, “sexo”, “diferença sexual”.

Sabemos que dentro do marco das normas de gênero, que facultam e regulam o ideal das “vidas humanas”, as lésbicas, assim como as vidas LGBTs e queer, não se consideram como tal. Sabemos que, desde esse marco normativo, esses sujeitos não deveriam existir, que se consideram suas vidas como de “menor valor”, como “menos humanas”. Ademais, sabemos que, consequentemente, seus afetos e amores são renegados, considerados como “abjetos” e “imorais”, de forma diante da construção hegemônica do espaço público em continuidade com aquilo que Judith Butler (2008) chama de heterossexualidade compulsória, seus movimentos não devem aparecer. Nesse sentido, que sejam Fernanda Montenegro e Nathália Timberg ou que sejam quaisquer outras mulheres ou quaisquer homens encenando publicamente uma cena de afeto, principalmente a de um beijo, eles estão realizando um movimento a que eles não têm direito de realizar. Em termos políticos, eles estão exercendo a um direito sem ter direito a esse direito, reclamando o direito mesmo.

Nessas linhas, parece muito problemático dizer que as vidas LGBTs se constroem e efetuam sua agência política por uma linguagem impositiva, por um modismo que quer se impor sem limites, quando antes mesmo suas vidas e suas agências só são possíveis graças primeiramente a uma contradição performativa da linguagem. Tal contradição revela que no fundo as normas de gênero, construídas sempre em continuidades com a heterossexualidade compulsória e o falogocentrismo, são em si mesmas impositivas, muito mais do que a linguagem que se pretende atacar. Tomando emprestado um termo conceito da feminista Monique Wittig (2006), os argumentos do conservadorismo social/religioso negam um pensamento hétero (straight mind) que oprimem principalmente as mulheres, as lésbicas e os gays, sobretudo quando fundam e tomam como primários uma série de sítios que são altamente opressores: “homem”, “mulher”, “sexo”, “diferença sexual”. Tais categorias, como afirmamos em outros lugares ao lado de pensadoras e pensadoras, longe de serem naturais e primárias, são sítios de violências materiais aplicados aos corpos.

Poderiam as escritas conservadoras que responderam com náusea e/ou insulto a cena de beijos protagonizadas pelas atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg nos dizerem se, por acaso, é responsabilidade de uma “homossexualidade compulsória” a violência que sofrem as mulheres em suas encenações diárias? Onde está a responsabilidade da opressão que sofrem as personagens femininas de carne e osso, as personagens femininas na literatura, na televisão e no cinema?   É resultado de uma mesma “homossexualidade compulsória” a violência que sofrem os LGBTs? Ademais, que faz o argumento de que um a encenação de um beijo entre duas mulheres faz o sujeito devir homossexual, se a mesma encenação homossexual é uma ruptura com o contexto heteronormativo? E, em sua totalidade, o que fazem esses argumentos diante das narrativas de famílias, principalmente contemporâneas, que se fundam com filhos que vieram de sêmen doado ou implantado, de relações que não foram exclusivas e duradouras? O parentesco, em razão de propósitos sociais dominantes e religiosos, é o mesmo por toda parte?

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* A referida nota foi tomada por vários jornais e blog.

2 comentários
  1. Importante texto, Lucas.

    Obrigado por ter comentado esse episódio com tanta propriedade. Sinto que para um habitante de Goiás, como você, deve ser mesmo uma lástima ter João Campos como representante no Legislativo. Bem, nós, de São Paulo, também temos as nossas amarguras (Maluf), assim como os cariocas (Bolsonaro) e, na real, o povo brasileiro de modo geral.

    Cumprimento-lhe também por manter o blog atualizado, pois realmente estou com dificuldades para manter o ritmo das publicações. Quem sabe em breve, após a ressaca pós-mestrado (risos!).

    Do mais, apenas um adendo: o conceito de “heterossexualidade compulsória”, com o qual Judith Butler dialoga (tal como você mencionou no texto), é na verdade da autora norte-americana Adrienne Rich. Talvez valha a pena fazer essa pequena alteração no texto.

    Um grande abraço e parabéns!

  2. Claudiran Jr. disse:

    Ótimo texto, Lucas Passos!
    Pelo modo que expressou sua opinião, compreendi muito bem o assunto aqui abordado. Assim posso me sentir mais informado sobre essa temática! Afinal, ela é muito discutida.
    Claudiran Jr.

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