Jornadas de Junho ou 15 de Março?

Convocar inúmeras pessoas às ruas tem sido um fenômeno relativamente corriqueiro desde os últimos dois anos. Não obstante, dois eventos são particularmente interessantes para pensar as manifestações desta década: Junho de 2013 e o 15 de Março. Na primeira data, que entrou para a história como as Jornadas de Junho, centenas de milhares de pessoas foram às ruas em todo o país, motivadas pelos protestos em torno da redução da tarifa de ônibus e metrô. Na segunda, outras centenas de milhares compareceram às ruas nos primeiros meses deste ano, para gritar “contra a corrupção” e pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Neste texto, procuro diferenciar as Jornadas de Junho do 15 de Março, com o intuito de ilustrar por que estas recentes passeatas não são mera extensão daquilo que se enunciava em Junho de 2013 e, para além disso, defender por que elas se distinguem no esforço para se pensar o momento pelo qual nosso país tem atravessado nos últimos anos. As Jornadas de Junho e o 15 de Março não são apenas distintos em sua natureza, público e reivindicações, como também sinalizam para Brasis diferentes e quiçá conflitantes.

O cerne das Jornadas de Junho, que aconteceram ao longo de junho de 2013, foi a luta pela revogação do aumento de 20 centavos na tarifa do transporte público de São Paulo.

O cerne das Jornadas de Junho, que aconteceram ao longo de junho de 2013, foi a luta pela revogação do aumento de 20 centavos na tarifa do transporte público de São Paulo.

O cerne das Jornadas de Junho foi a luta pelo transporte público, pautada a partir de uma bandeira, à primeira vista inofensiva, da revogação do aumento de 20 centavos na tarifa dos ônibus e trens em São Paulo. Apenas por isso, já se mostra um equívoco afirmar que tais manifestações foram desprovidas de foco ou ao menos de uma linha condutora. Elas a tiveram, sim, na medida em que nasceram da convocação de um movimento de esquerda – o Movimento Passe Livre (MPL) – com uma agenda bastante clara que, não à toa, seguiu por algumas semanas o roteiro usual dos protestos no Brasil: repressão policial, ataques midiáticos e desmandos governamentais.

Em sintonia com Sílvia Viana, acusar tais Jornadas de ausência de foco é uma crítica que só faz sentido à luz da dispersão de pautas que se sucedeu ao 17 de Junho de 2013, quando as manifestações ganharam dimensões nacionais após a repercussão midiática sobre os protestos duramente reprimidos da semana anterior. Naquele momento, é fato que as vozes se multiplicaram, de modo que os 20 centavos ficassem perdidos ali no meio de tantas palavras de ordem. Foi, à primeira vista, uma maneira de canalizar uma insatisfação popular não só com o transporte público, mas com tudo aquilo que é difícil de engolir e que, com frequência, é externado no anseio de protestar por parte de uma parcela da população até então incapaz de formular suas insatisfações politicamente. Há tempos não se colocava tanta gente na rua – quando a fagulhou acendeu, ir às ruas tornou-se uma questão de honra.

As Jornadas de Junho estiveram desde o início marcadas pelo conflito com a PM, pelos ataques midiáticos e pelos desmandos governamentais.

As Jornadas de Junho estiveram desde o início marcadas pelo conflito com a PM, pelos ataques midiáticos e pelos desmandos governamentais.

Entretanto, ao contrário do 15 de Março, as Jornadas de Junho não tinham começo, meio e fim definidos de antemão e nem sequer eram orientados de cabo a rabo por um único movimento – seus fundadores, o Passe Livre, foram engolidos pela multidão lá pela quarta ou quinta passeata. Elas foram marcadas por certo espontaneísmo, que conduzia o leme dos protestos ao sabor das disputas entre os grupos que ali na rua se encontravam. Exemplo disso é que, em questão de semanas, tivemos de tudo e mais um pouco: movimentos sociais, partidos de esquerda, jovens das redes sociais, viúvos da ditadura, antipetistas de plantão, black blocs. Bandeiras verde-e-amarelas passaram a ser içadas na tentativa de ocultar bandeiras vermelhas, como um prenúncio do acirramento político-ideológico que se desenharia no Brasil pouco tempo depois. Um prenúncio, mas jamais a causa.

Se, por um lado, é verdade que as Jornadas de Junho abriram as portas para as manifestações de rua (inclusive aquelas que nos assombram hoje), é também factível que, se não fossem os protestos de 2013, talvez não tivesse havido tanto fôlego aos levantes contra a Copa das Confederações, à greve dos garis no Rio de Janeiro ou à paralisação de professores que, vez por outra, ocupam os noticiários da TV e dos jornais acompanhados por adjetivos raivosos de um conservadorismo renitente. Agora, com mais legitimidade, ocupar as ruas impôs-se como uma demanda do povo brasileiro. Qual povo? Todo ele. Da elite que bate panela na varanda, até os moradores de rua incomodados com a violência policial. Talvez tenha sido essa riqueza, ambígua por excelência, que tornou Junho de 2013 um marco do Brasil contemporâneo.

As passeatas de 15 de Março, ao contrário das Jornadas de Junho, foram convocadas por movimentos de direita e seu foco tem sido o impeachment da presidenta Dilma.

As passeatas de 15 de Março, ao contrário das Jornadas de Junho, foram convocadas por movimentos de direita e seu foco tem sido o impeachment da presidenta Dilma.

É aí que surge outro paradoxo: se prestarmos atenção, veremos que tanto a imprensa, quanto os organizadores dos protestos pelo impeachment da presidenta, não reivindicam as manifestações de Junho como uma referência de ação coletiva. E os motivos chegam a ser óbvios: por que o Movimento Brasil Livre ou os Revoltados On-Line evocariam passeatas outrora convocadas por movimentos de esquerda? Qual seria o interesse dos fardados integralistas em rememorar protestos tão marcados pelo conflito com a PM? Por qual razão um conjunto de manifestações que colocou em pauta a questão do transporte público, além de ter aquecido o debate sobre o direito à cidade, seria elogiado por um grupelho de ultraliberais e simpatizantes do fascismo? Não à toa, setores da imprensa têm se referido ao 15 de Março como “o maior movimento de rua desde a redemocratização”, ignorando aquelas que foram, de fato, as maiores e mais importantes manifestações populares dos últimos vinte anos. Ou pelo menos era isso que a própria mídia contava na ocasião! À época, elas tentaram cooptar esses protestos. Falharam. E a prova disso é ler o que se fala (ou o que não se fala) sobre as Jornadas de Junho nos dias de hoje.

Não resta dúvidas de que, apesar das controvérsias em torno dos inúmeros momentos pelos quais passaram as Jornadas de Junho, elas entrarão para a história como movimentos eminentemente de esquerda e assim serão evocados por aqueles que investiram em seus ideais. Foram, inclusive, objetos de valiosas reflexões, tais como Cidades Rebeldes e Junho: potência das ruas e das redes, e colocaram em cena tanto o MPL quanto a utopia da “tarifa zero”. Basta notarmos o envolvimento de movimentos sociais, de intelectuais progressistas, da mídia alternativa e de políticos simpáticos a causas sociais na construção de Junho de 2013 para perceber do que estamos falando. Seja lá o que for, não é de intervenção militar, Fora Dilma ou varandas gourmets.

O panelaço das elites, em suas

O panelaço das elites, em suas “varandas gourmets”, é uma prova de que é a direita que tem tirado as asas de fora, procurando criar outra tradição de movimento de rua que não perpassa pelas Jornadas de Junho.

Ataques às Jornadas de Junho, na atualidade, derivam de duas principais frentes: da direita golpista, que pretende cravar o 15 de Março como o suprassumo da representação popular do novo milênio, e de um governismo pouco hábil para escutar e decifrar as ruas, e que não tem encontrado alternativa que não imputar sobre Junho de 2013 a culpa pelo surgimento de uma oposição ferrenha ao governo Dilma. Quando o último pleito mostrou-se o mais tenso da era recente, numerosos petistas apontaram imediatamente para 2013. Não percebiam que, dessa maneira, estariam apenas dando mais um passo para longe dos movimentos de rua. E agora cobram da ala progressista dessas ruas rebeldes maior participação para defender um projeto de esquerda há muito tempo subvertido e cada vez mais ameaçado.

As ruas de Junho estiveram lá para isso. Afinal, desde 2013 se fala que Dilma deu uma resposta pífia a uma manifestação que merecia bem mais, como ainda merece. Hoje, as ruas continuam aí. Só que agora elas pretendem virar a mesa (não só do petismo, como também da democracia). São outras ruas, outras bandeiras, outros ventos – não nasceram da esquerda e não caminham para a esquerda. São projetos distintos em sua completude. São referências contrastantes em matéria de se apropriar da rua para fazer protesto. Cabe a nós, que nos encontramos no olho do furacão, escolher sobre qual dessas ruas queremos pisar e por meio de qual delas caminharemos em prol do Brasil que defendemos.

2 comentários
  1. Que é isso , direita/esquerda? Na complexidade do mundo moderno, com tantos assuntos absolutamente NOVOS pipocando em todos os lugares, por que persistir no vocabulário, e na restrição mental absolutamente defasada dessa genérica denominação dualista. maniqueísta, rançosa ? Classificar as pessoas, os vários segmentos populacionais em dois rudimentares grupos , como na Guerra dos Cem Anos?
    Faço parte da “inteligência” nacional há mais de meio século, participei ativamente de movimentos, publiquei 13 livros, ganhei prêmios importantes em literatura e em jornalismo, e hoje resumo minha vida assim : na simplificação política rudimentar que abafou tantas vozes e causou e causa tantas vítimas, representei apenas (como outros tantos). O PAPEL DA MORTADELA no sanduíche esquerda/direita.
    CECÍLIA PRADA

  2. ivo cocco disse:

    Adriano, parabéns pelo esforço de colocar em discussão e manter em foco esses movimentos de junho de 2013 e março de 2015.
    Entre os seus pontos de vista, gostaria de acrescentar mais um: nossa sociedade, como um todo, não tem qualquer projeto – ou mesmo não tem intenção – de encarar a realidade brasileira e modificá-la segundo o que deveria ser o melhor para todos.
    Eu digo sociedade como um todo, porque tais movimentos e as tentativas de explicá-los, estão longe de representar as preocupações que afetam a todos nós, mas que não possuem um denominador-comum.
    Esse denominador-comum somente será atingido quando existir uma conscientização geral sobre os direitos de cada um, porque as reivindicações levadas a público por grupos ou categorias específicas geralmente são criticadas e não aceitas, sob o argumento-mor de que impedem o direito de ir-e-vir dos demais…
    Assim, por enquanto, não sairemos do lugar, porque são muito poucos os que se manifestam à procura da solução.
    E aí é que você se sobressai como um dos que tentam manter viva a chama da cidadania, que saiu de moda nos últimos anos…

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