O patrão e a babá: sobre a individualização da culpa

O último domingo, 13 de março de 2016, marcou a retomada das manifestações “contra a corrupção” e pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Na rua, a pesquisa do Datafolha mostra, predominavam setores de classe média e média alta (37% ganhando mais de 10 salários mínimos), maioria branca (77%) e do sexo masculino (57%), bastante escolarizada (77% com ensino superior), idade em torno de 45 anos.

O patrão e a babá (1)

Imagem que viralizou na passeata do dia 13 de março de 2016: uma família branca, de classe média alta, da zona sul carioca, e “sua” babá devidamente uniformizada. (Foto: Mídia Ninja)

Em meio a esse público elitizado, não é raro encontrar imagens como aquela que foi fotografada em Ipanema, no Rio de Janeiro, e que circulou intensamente desde ontem – da família branca, de classe média alta, e a babá, negra, empurrando um carrinho de bebê com duas crianças. Trata-se de uma ilustração bastante didática do imaginário das relações sociais no Brasil: a Casa Grande e a Senzala, os “cidadãos de bem” e a subcidadã, a reprodução das hierarquias sociais, as ocupações precárias etc.

Teria sido melhor se a imagem tivesse ficado por aí, na provocação simbólica que ela naturalmente evoca. Mas não… foram além. E aí os equívocos começaram a acontecer.

Passaram a divulgar, com nome, sobrenome e endereço, quem era o pai e a mãe da foto. “Qual é o problema disso?”, alguém poderia se questionar. Há, sim, um problema: o risco de partirmos de uma politização ampla, de uma responsabilização coletiva, de uma problematização de um fato social, para a culpabilização de um indivíduo.

Por mais que esse caso seja particularmente interessante porque o sujeito da foto – o patrão – é um empresário que trabalha em empresas envolvidas em casos de corrupção, ele foi “o escolhido”. Nessas e noutras ocasiões, circula nas redes sociais quem teve a “sorte” de ser fotografado por alguém que, além do clique, conseguiu viralizar seu produto. Fosse outra pessoa – outra família branca, outra babá negra, outros bebês –, quem pagaria a conta das tantas injustiças que estamos habituados a ver seria outro indivíduo.

O patrão e a babá (2)

As manifestações do dia 13 de março de 2016 marcaram, com bastante força, a retomada de protestos “contra a corrupção” e pelo derrubada da presidenta. (Foto: Ricardo Nogueira/Época)

Lembremos: isso já aconteceu outras vezes. Recordam daquela jovem que foi execrada por ter xingado de “macaco” o goleiro do Santos? E da menina da periferia que disse que era “o futuro do Brasil” e não sabia dizer o que esperava pós-impeachment? No fundo, a realidade está gritando para nós: “Vejam os desafios que estão à nossa frente!”. Trabalho precário, racismo, alienação. Contudo, deixaremos essas questões de lado se o ponto for simplesmente apedrejar o “mau-caráter”, a “burra”, a “ingênua”.

Ingênuos somos nós, que nos abdicamos de politizar as experiências individuais e coletivas, procurando capitalizá-las para uma agenda transformadora, em prol de uma responsabilização individual. Como se o problema fosse “aquela” família, branca, da zona sul carioca, e sua babá – como se a hierarquia social estivesse sendo mantida apenas ali e, pior, por mau-caratismo!

Já que é para falar de pessoas, seria interessante ouvir o que a própria babá (de quem nem sabemos o nome) tem a dizer, afinal de contas, a exemplo de seus patrões, sua imagem e rosto também circularam à sua revelia.

Depois, fomos informados de que o pai daquela família tinha quatro empregados em casa. Incitado a se explicar, ele contou que todos seus empregados tinham carteira assinada e aquela babá, em particular, ganhava um adicional pelo domingo. Não cabe a mim, a essa altura, checar a veracidade das informações, como se elas fizessem alguma diferença para o calor que a imagem gerou. Agora, supondo que ele tenha falado a verdade, isso resolve o problema? Quantas pessoas entre nós não temos ou tivemos uma empregada doméstica sem regulamentação? Com efeito, estamos falando de estruturas sociais ou somente de comportamentos individuais? É o nosso caráter que está em jogo?

O patrão e a babá (3)

No lugar das responsabilização individuais, deveríamos nos preocupar mais com a politização dos diversos sujeitos em prol de uma agenda transformadora. (Foto: Ricardo Nogueira/Época) 

Quando tratei exatamente dessas questões noutro texto, fui acusado de estar inocentando um sem-vergonha. Na ocasião, disseram que eu estava “perdoando” ou até mesmo “passando a mão na cabeça” da jovem torcedora do Grêmio pelo racismo contra o goleiro Aranha. Pelo contrário, procurei chamar a atenção para um fenômeno simples de se constatar: se o racismo fosse uma atitude individual, seria fácil combatê-lo; botasse a tal jovem e mais alguns na prisão e, pronto, estaria resolvido. É por estar muito além do alcance de práticas para quais bastaria uma mera conscientização individual que o racismo se torna um fardo, nosso legado secular, em permanente atualização, e limitante de relações sociais harmônicas, respeitosas e democráticas.

O vácuo político deixado pela esquerda governista (falecida, para nossa infelicidade) não tem dado lugar a uma politização necessária para a reconstrução da esquerda. Nesse vazio, valores que tantos nos prejudicam enquanto seres pensantes – a cultura do escracho, a individualização da análise social (que paradoxo!), o esvaziamento de um horizonte emancipatório, a não inclusão de sujeitos diversos nas lutas – têm sido reproduzidos também por aqueles que se propõem a transformar alguma coisa.

Não vamos deixar o tom policialesco e a judicialização da vida social tomarem conta de nossas práticas e perspectivas. É preciso abdicar das categorias, análises e vieses que enfraquecem nossa capacidade de compreender as complexidades de uma sociedade desigual e injusta como a nossa. De culpas individuais e responsabilizações pretensiosas, já bastam as lideranças da manifestação de ontem.

4 comentários
  1. LÍGIA FREITAS disse:

    Quando vi a imagem, duas perguntas pululalam minha cabeça: Será que a empregada recebe o extra pelo domingo? Como ela estava se sentindo naquele contexto? Para além daquele momento precisamos pensar sobre o que aprendemos com a imagem, sobre nos ensina das relações de poder em contextos privados e públicos, profissionais e/ou trabalhistas. Talvez, devêssemos todos nós, inclusive a família e a empregada, assistir novamente “Que Horas Ela Volta?”

  2. A sociedade é feita de indivíduos ou não? Lula da Silva é um indivíduo que, lutando contra todas as adversidades, conseguiu tornar-se uma referência mundial. Foi no governo petista que o patrão branco, com a família branca, ostentando o desagrado com a política nacional, teve que aprender a dividir com a empregada negra a fração de bens que a ela pertence.Não precisamos averiguar se ele paga ou não o extra do domingo a essa babá, agora, o emprego doméstico está regularizado em lei. Ou seja, o Brasil deu salto qualitativo nos últimos anos e essa parcela branca, da classe média e alta, estudada e vaidosa não poderia deixar “barato” mesmo! No anonimato, sem fotografia, estiveram engrossando essas manifestações do domingo, milhares de brasileiros que foram seduzidos pela mídia golpista e sem ética.Outros, por acreditarem que é preciso fazer uma varredura na política brasileira Não podemos conviver com dilapidação dos bens públicos, mas também, em nome das individualidades, não dá para jogar a água com a criança fora!

  3. Maria Ribeiro de Lima disse:

    Disse tudo. Poucos têm capacidade de análise “além das paixões”. Esta realidade antagônica, baseada nas relações de classe, existe desde que elas (as classes) se formaram. O ideal seria que, ao se insurgir contra injustiças, o indivíduo verificasse se não a está praticando, em menor ou maior grau. Senão, tudo não passa de hipocrisia.Se sou de uma classe que têm privilégios (alcançados às custas de usurpações das outras) eu QUERO mesmo que esses privilégios se tornem DIREITOS de todos? Fica a pergunta…

  4. Ivo Cocco disse:

    Cada um tem sua razão, claro. Respeito. Do meu lado, no entanto, sinto que há um vazio abismal entre a nossa realidade e os pontos que nos levaram a ela.
    Já não ouço falar em globalização e em neoliberalismo, como se falava.
    Durante muito tempo as bandeiras agitadas por aqueles que sinalizaram com as mudanças que precisariam ser feitas para resgatar os direitos trabalhistas e a dignidade dos cidadãos e cidadãs deste país, combatiam a globalização, o neoliberalismo e o FMI.
    Conseguiram fazer-nos acreditar neles e nós ajudamos a agitar suas bandeiras e assim elegemos aqueles que deveriam concretizar as mudanças, mas eles não as fizeram, enganando-nos e traindo-nos.
    O que deveria estar em pauta, ainda hoje – e especialmente hoje – são aqueles mesmos direitos e dignidade atualmente esquecidos e colocados à margem das discussões, cujo foco é sistematicamente dirigido para assuntos como impeachment, roubalheira, denúncias e demais interesses dos detentores do poder.
    Uma das questões centrais é justamente o emprego, caracterizado nessa babá: ou ela se submete a esta função, ou fica desempregada. Não é a cor da pele que determina a situação existente, porque outros milhões de trabalhadores, de várias etnias, estão subempregados… ou desempregados…
    O mesmo se deu em relação às sementes transgênicas, também combatidas por essas bandeiras.
    Então, a globalização e o neoliberalismo, assim como os transgênicos estão aí, com novas roupagens, mas com os velhos e rebuscados argumentos de sempre: é o preço a pagar pelo progresso e necessidade de sobrevivência.
    A esquerda, o comunismo e a ideologia, infelizmente para alguns e felizmente para outros, estão soterrados, à espera de algum milagre ou máquina que os revolvam.
    A grande esperança, simbolizada pela educação de qualidade e por um sistema político decente, jamais serão postos em vigência, perdidos que estão nesse emaranhado todo… Acredito que existem saídas para o Brasil, mas elas não acontecerão enquanto estivermos nesse nível de discussão.

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