As armadilhas do “lugar de fala” na política contemporânea

Reconhecer seu “lugar de fala” tornou-se um dogma do ativismo político em contextos pós-modernos. Diz-se que cada um deve saber qual lugar ocupa na teia social e deduzir, a partir disso, quando ficar calado, quando consentir e quando reivindicar. Fruto de uma ênfase sobre as vivências individuais a partir da experiência com determinadas categorias sociais – entre as quais se destacam gênero, cor/raça e sexualidade – o “lugar de fala” tem sido tomado como uma estratégia política de peso nas sociedades contemporâneas. Neste texto, discorro sobre as armadilhas do “lugar de fala” para a politização do debate em torno da superação das desigualdades.

Via de regra, o “lugar de fala” é quase sempre tomado como inscrito no corpo. Nesse sentido, o autor que vos fala é homem, branco, de classe média, para o que bastaria como etiqueta de um lugar de fala privilegiado, justificativa para ser reacionário. No entanto, também sou filho de pai que, no passado, foi bastante crítico ao regime militar e, junto com uma mãe que lecionava na rede pública, forneceu-me uma educação bastante crítica aos abusos de autoridade, ao individualismo consumista e às distinções sociais. Este também é meu “lugar de fala”, aspecto definitivo para moldar minha perspectiva de mundo, embora menos perceptível, menos inteligível e não inscrito no corpo. Experiências como essa não contam para a fórmula do “lugar de fala” atribuído por outrem.

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“Lugar de fala”: estratégia política para reivindicar a autoridade de determinadas experiências sobre o debate público em torno dela.

Para além disso, o “lugar de fala” é usualmente tomado como “autoridade de fala”, como se só quem vivesse uma experiência (no lugar subalterno) pudesse discutir aspectos que a circundam. Vejam só: não é preciso ser negro para falar de racismo, na medida em que debater o racismo, ou as relações étnico-raciais em geral, envolve trazer à tona dimensões que também tocam as pessoas brancas, amarelas e de outras cores e raças. Recusar esse pressuposto é ignorar justamente o aspecto relacional da construção social das diferenças. Nunca é demais reiterar: falar sobre algo ou alguém não significa falar em nome de algo ou alguém. Das experiências individuais, próprias de cada um, devemos saltar para a reflexão coletiva – esta é a base do campo político.

Ademais, é válido se questionar: quais são os não lugares de fala a partir dos quais nos posicionamos mesmo sem saber? Sou homem e não sou cadeirante; isso não muda minha visão de mundo? Sou branco e não sou assexual (uma pauta relativamente nova que há pouco era esquecida). Em outras palavras, o que não estou sendo capaz de perceber, relativo ao meu pertencimento, que também fundamenta minha perspectiva de vida? Quando se enumera os “lugares de fala” em torno de categoriais sociais amplamente reconhecidas pela militância (sexo, gênero, cor, raça, etnia, origem regional, religião, orientação sexual), parte-se do pressuposto de que o sujeito é capaz de circunscrever o espaço social, ou seja, é dotado da capacidade de descrever a totalidade das relações sociais e listar, como num “colar de contas”, seus pertencimentos inteligíveis.

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Os movimentos sociais trabalharam, historicamente, pela desnaturalização das diferenças que se cristalizavam em desigualdade.

Ora, não foram justamente os movimentos sociais que desnaturalizaram as identidades fundadas em distinções supostamente biológicas? “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, já dizia a máxima de Simone de Beauvoir, pioneira em refletir sobre a construção social da feminilidade. Por um momento, parece que os defensores do “lugar de fala” estão retomando uma essencialização das identidades que os próprios movimentos sociais, reforçados pelas tendências pós-modernas, tanto insistiram em desnaturalizar. Hoje, nenhum ativista, em sã consciência, dirá que as diferenças entre mulheres e homens, negros e brancos, são naturais. Dirão que são culturais; porém, irredutíveis. Ou, segundo a provocação de Antônio Flávio Pierucci (1999), saímos da diferença natural entre os sexos para a natural diferença entre as culturas. De uma naturalização de cunho biológico para outra de fundo cultural.

Trata-se de uma contradição da política contemporânea, cuja expressão máxima é a retórica do “lugar de fala”. Se, por um lado, os setores progressistas louvam as diferenças, entendidas como sinônimo de uma diversidade que tanto se busca em prol da democracia, por outro, cai-se nas armadilhas de simplificar as formas de pertencimento, retomando um determinismo que historicamente se buscou combater. Ser lésbica te leva a cultivar certa opinião sobre o corpo e a sexualidade? Ser mulher te conduz a pensar e agir de uma determinada maneira? Ser preto implica vivenciar o racismo de uma mesma e única forma? Ou será que, em realidade, essa pluralidade de experiências deve embasar uma luta que, partindo da politização das experiências individuais, visa construir um denominador comum para a coletividade?

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O vereador Fernando Holiday (DEM-SP) ilustra bem como o “lugar de fala” pode ser mobilizado para fins conservadores.

Há riscos de se sublinhar o “lugar de fala” como modus operandi da política no campo progressista. Em última análise, a premissa de que apenas mulheres podem falar sobre o machismo, ou de que apenas lésbicas e gays podem tratar da homofobia, coloca em xeque a própria democracia enquanto possibilidade. No Brasil, assim como em outras sociedades, é fundante a concepção republicana da universalidade dos direitos, da cidadania comum a todas e todos, da igualdade formal que é inescapavelmente abstrata. Este é nosso ponto de partida. Todas as pessoas são diferentes entre si em, pelo menos, algum aspecto. Daí decorre que a coesão social só pode ser construída a partir daquilo que nos une, nos dizeres de Norberto Bobbio (2001).

Por essas e outras, a noção de auto-representação (somente gays representam a si mesmos, assim como apenas indígenas são capazes de se fazer representados) é inalcançável. Primeiramente, porque ninguém é capaz de representar a todos em suas particularidades. Ainda que um gay represente a comunidade LGBT, ele não será capaz de representar todos os gays. (Sendo branco, poderá representar os gays negros? Sendo homem, poderá representar as lésbicas?) Não há representação sem abstração; se esta não acontece em um nível, certamente acontecerá noutro. Em segundo lugar, porque a maior parte da política não é decidida no campo identitário. Assumindo que apenas mulheres legislarão sobre violência de gênero, ou que apenas negros pautarão o racismo, pergunto: quem discutirá a auditoria da dívida pública? Quem pensará a reforma política? Quais movimentos colocarão em pauta o financiamento da educação? Para quem a construção de hospitais públicos será um problema?

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Fúlvia Rosemberg (1942-2014), pesquisadora e militante feminista, defendia a importância das políticas universalistas para o combate da desigualdade contra grupos específicos.

Já nos alertava a saudosa Fúlvia Rosemberg (2015) de que a maior parte das reivindicações pelas ações afirmativas é acompanhada de uma crítica ferrenha às políticas universalistas. Ora, não podemos esquecer que, ao cortar o investimento público em educação e saúde, estamos afetando diretamente as populações mais carentes, entre quais se concentram pobres e negros. Daí decorre a importância de trazer à tona uma agenda política que diga respeito ao todo, ao conjunto da sociedade, de modo que mesmo o debate sobre as diferenças adquira tonalidades universalizantes. Lutar contra a homofobia não significa beneficiar lésbicas, gays e bissexuais, e sim todas as pessoas. Ao mesmo tempo, não serão apenas as políticas diferencialistas, gestadas no âmbito do movimento LGBT, que favorecerão tais grupos, como também um conjunto de medidas cujo debate transcende, e muito, o reducionismo do “lugar de fala”.

Esse viés deriva da tendência atual de os esforços para superação das desigualdades sociais estarem se concentrando no plano simbólico: valorização da estética das periferias, exibição de personagens gays nas novelas, afirmação da beleza de mulheres gordas. Não nego que essas pautas sejam fundamentais – valorização simbólica e representatividade importam, porém, não bastam. Sendo gay, sinto-me muito mais seguro e confortável cruzando com casais homossexuais nas ruas, praças e universidades do que noutro cenário. Entretanto, como a própria feminista Nancy Fraser (2006) há muito nos recorda: uma noção de justiça social exige não apenas estratégias de reconhecimento (de culturas, nações, identidades), como também de redistribuição (de renda, recursos, oportunidades). Isso implica retomar uma dimensão material, estrutural, macrossociológica e macroeconômica da vida no bojo da ação política. Voltando ao exemplo pessoal: não me basta ser uma bicha feliz no capitalismo.

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O colapso das experiências de “socialismo real”, em 1989, parece não ter sido ainda rearticulado em alternativas maciçamente defendidas pela esquerda para a transformação social.

Fato é que a crise das esquerdas na Nova Ordem Mundial parece não ter ainda sido rearticulada em leituras compreensivas da realidade. Com a queda do muro de Berlim, caíram também as metanarrativas e, com elas, as utopias igualitaristas que miravam não somente ganhos incrementais dentro da lógica excludente do capital, mas principalmente a transformação completa e radical desse modo de produção econômico e social. Por ora, boa parte da esquerda – e não apenas aquela que bebe dos movimentos sociais citados neste texto – parece ter se contentado com uma gramática moralmente aceitável, embora politicamente conservadora. Faz-se política pensando na inclusão, na mobilidade, na equidade, na autonomia individual, no consumo. Está fora de moda pensar a sociedade em outros termos, de tal maneira que a igualdade – nossa abstração revolucionária – parece ter sido substituída por uma apropriação progressista da diversidade pensada na ótica do “direito à diferença”.

Nestes tempos, em que as narrativas identitárias têm pautado o debate sobre as desigualdades sociais, precisamos de muito mais que isso para avançar. Ao invés de reforçar barreiras sociais, devemos criar articulações, pontes e saídas. Isso não é um convite ao retorno da lógica vulgar de mobilização ancorada num marxismo ortodoxo que via as diferenças como meio de dissuadir os interesses do povo. Hoje, sabemos que “o povo” é diverso, sendo impossível superar desigualdades sem atentar para as múltiplas dimensões de exercício de poder, as quais, embora também se inscrevam no corpo, vão muito além dele. Não nos faltam projetos alternativos para cada uma das categorias sociais. Falta-nos um projeto alternativo de sociedade.

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4 comentários
  1. Tiago disse:

    O texto é bom. Uma coisa que me incomoda é a tendência que esses grupos identitários tem de dividirem a sociedade de maneira bastante maniqueísta entre oprimidos e opressores. De lado, há as pessoas malignas brancas, cis, heterossexuais e homens; do outro as vítimas unilaterais da sociedade, os negros, LGBTs, mulheres e trans. A despeito das escolhas individuais ideológicas, quem está no primeiro grupo é “do mal”; e quem está no último grupo é vítima. A escolha política das pessoas não conta. A estrutura da sociedade determina a priori de que lado da luta social cada pessoa está. Quando veem uma pessoa que faz parte de uma minoria lutar ao lado de grupos de direita (como esse Fernando Holiday), ao invés de o verem como o adversário que ele realmente é, dizem que ele é uma vítima que apenas adotou o discurso do opressor. Não é tão simples. Não podemos ver esse tipo de gente como resultado de mera ingenuidade política. Eles sabem muito bem o que estão fazendo e estão colhendo louros políticos de suas ações. Na luta política, raramente há vítimas e algozes unilaterais. E os “bons” e os “maus” não são tão facilmente identificáveis.

  2. André Sobral disse:

    Tenho percebido um movimento de reação ao avanço dessa lógica de militância dos movimentos sociais e por isso esse texto me chamou a atenção, por isso gostaria de deixar aqui um pouco da minha leitura.

    Suspeito que o conceito de “lugar de fala” não é uma mera excentricidade pós moderna fundada em valores, mas sim que foi construído pelas ciências sociais como uma reflexão sobre poder e representação que estão ausentes ou mal compreendidas neste texto. Partindo de uma microfísica do poder de Foucault onde os indivíduos exercem a autoridade e constroem o poder através de suas relações interpessoais até chegarmos ao questionamento da antropologia contra a autoridade acadêmica e epistemológica de narrar o mundo (uma crítica ao nosso lugar de fala como estudiosos em contraposição ao nativo).

    A simplicidade com a qual a militância se apropria deste conceito acadêmico, como “vivências individuais”, é um reflexo do senso comum que tanto criticamos na academia mas que é inevitável. Da mesma forma, “comunidade” foi um conceito saído da academia que foi amplamente adotado no discurso social sobre as favelas e suas populações.

    O lugar de fala é tudo menos circunscrito no corpo, ele pode sim ser diretamente relacionado com características fenotípicas, mas não é definido por elas. Ser branco não é uma “característica inata”, mas uma experiência, assim como ser rico, ser hétero ou cristão, lugar de fala é justamente o reconhecimento do quanto o que nós pensamos e falamos traz consigo a bagagem de nossas experiências, pois não é possível um olhar ou fala a partir do vazio, não há “neutralidade ou imparcialidade” quando há um locutor, ou seja, sempre há parcialidade.

    O autor me parece ressentido, o uso do itálico no “lugar de fala privilegiado” que sugere um tom irônico de destaque, a percepção e que se recusa suas outras experiências familiares (que provavelmente devem ser descartadas por militantes que discutem com ele, mas que não são descartáveis como noção de lugar de fala). No entanto, concordo que “lugar de fala” precisa ser compreendido como um conceito inclusivo e não excludente, no sentido de que quem fala da sua experiência precisa ser reconhecido e ouvido, mas não ter o “lugar de fala” não é um convite ao silêncio ou omissão. A experiência é um dado não generalizável, a importância do relato individual se dá justamente nesse coletivo de falas similares e não em uma pretensa autoridade do interlocutor sobre a verdade.

    Não acredito que seja possível mapear os lugares de fala à priori, eles só são relevantes de forma contextualizada, apesar de haver sobreposições de experiências, ser cadeirante não é tão relevante em uma discussão sobre bissexualidade. Portanto, não é uma questão de manter um “colar de contas” de tudo que nos influenciou em nossa vida para se ter consciência sempre do nosso lugar de fala.

    O autor faz um pulo dessa coletânea de identidades, que considera como algo naturalizado, e faz uma falsa simetria ao conceito biológico de identidade, como se um tivesse substituído o outro mas ambos fossem determinísticos. Qual seria a diferença entre ser e ter vivido, seriam as identidades essenciais? Realmente esta é uma reflexão importante, se a militância transforma o lugar de fala em essência, a conclusão será que o “ser” é determinante, o “homem branco” não poderá “ser” outra coisa. A questão é justamente a má compreensão do conceito, o “lugar de fala” não aborda sua identidade, não fala sobre o que você pensa ou é, mas sim fala de como os outros te tratam, algo que está fora do seu controle.

    Apenas mulheres podem falar sobre o machismo? Apenas lésbicas e gays podem falar sobre homofobia? Só no senso comum de parte da militância, como falei antes, o “lugar de fala” é por definição inclusivo e não exclusivo, é a necessidade de dar voz a quem vive mas não é escutado, “lugar de fala” não pode ser silenciamento. Aqui há um choque com outras idéias como “espaço seguro”, “protagonismo” e outros mecanismos de proteção dos militantes.

    O texto fica extremamente problemático quando transforma isso em uma discussão sobre democracia. Primeiramente, democracia não é sinônimo de república, assim como a universalidade de direitos e a igualdade formal não são uma exclusividade republicana. A noção de representação é tomada como garantida pelo autor, que a naturaliza em uma crítica a auto-representação, que para ele é impossível pois a parte não pode representar o todo. Parece uma incoerência, pois é nisso que o republicanismo se assenta, na ilusão de que alguém pode representar um coletivo.

    Então em um agravamento do problema ele afirma que “a maior parte da política não é decidida no campo identitário”, o que não vem acompanhado de qualquer fonte ou argumentação, quando a votação é claramente enviesada pelo campo identitário, assim como as políticas públicas e as instituições como a polícia e o judiciário. “Quem discutirá a auditoria da dívida pública? Quem pensará a reforma política? Quais movimentos colocarão em pauta o financiamento da educação? Para quem a construção de hospitais públicos será um problema?” Aqui fica clara a posição de esquerda tradicional do autor, a preocupação marxista com a estrutura econômica se mostra. É um raciocínio falacioso, pois estes problemas que serão abordados por “sabe-se lá quem” são comuns a todos nós e tópico de estudo de inúmeros especialistas que não deixarão de atacar o problema por também serem mulheres, gays ou negros. Políticas afirmativas não cortam ou desviam investimentos da saúde ou da educação, e não existe uma universalidade genérica que deve ser sempre beneficiada à despeito dos problemas específicos enfrentadas por grupos da sociedade, em um mundo radicalizado de políticas apenas universalistas não há espaço para pautas de uma parcela da população como a construção de equipamentos para a obstetrícia.

    Essa inspiração marxista revolucionária ressurge no final do texto no qual o autor reconhece a importância de tais lutas identitárias mas que essas seriam de menor importância que a luta por uma sociedade diferente que teria sido enfraquecia após o fim da união soviética. Acho terrível esse tipo de valoração das lutas, como se uma enfraquecesse a outra, pior ainda essa romantização do legado comunista. Não houve paraíso na Russia, não houve igualdade, não houve poder popular.

    • Caro André,

      Fico bastante grato pelo seu comentário, tão rico nas argumentações. Em razão do número de ideias que você apresenta, destacarei algumas para continuar o debate.

      Creio que seu texto já exprime, em boa parte, a essência da minha crítica ao “lugar de fala”. Em poucas palavras, sua argumentação ilustra bem que a experiência não explica, e sim que deve ser explicada. É fato que há uma essencialização das identidades em certas tendências ativistas contemporâneas, fenômeno que tem culminado na guetização de determinadas pautas. Por isso, insisto: não basta enunciar os diferentes em suas diferenças se não se tensionar a própria noção de universal.

      Daí decorre que a universalidade de direitos e a igualdade formal não são exclusividade do republicanismo liberal, como você bem colocou. Concordo contigo que a representação é importante, mas que ela só existe mediante abstração, coisa que o conceito de “auto-representação” ignora. Como disse, este é nosso ponto de partida. Mas a crítica à falência da igualdade formal nas democracias burguesas deve servir como pontapé para outro projeto de democracia, calcado em uma igualdade substantiva. Nesse ponto, não vejo discordância entre nós quanto à agenda que você chamou de “esquerda tradicional”. Discutir a auditoria da dívida pública – que é, a meu ver, o maior engodo orçamentário brasileiro e que, sim, limita profundamente a ação política sobre as ações que beneficiem as minorias ou que expandam direitos sociais – não se relacionam, diretamente, com uma “identidade para chamar de minha”. São comuns a todos nós, evidentemente, e que podem ser muito bem discutidos por mulheres, negros, gays etc. É disso que estou tratando. Não entendi qual foi sua discordância quanto a isso.

      Da minha parte, não há ressentimento nenhum. Aliás, nunca mencionei minha história de vida em nenhum debate, até porque, como você pode conferir neste blog, faço pouquíssimas referências a qualquer experiência pessoal ou aos meus pertencimentos. Neste texto, por sua vez, fiz questão de trazer à tona algumas experiências que me ajudariam a problematizar, justamente, a soberania das experiências individuais e das narrativas identitárias.

      O argumento sobre o esvaziamento da esquerda não se prestou a valorar lutas, até porque insisti que isso não atingiu apenas a esquerda que bebe dos movimentos sociais ditos “identitários”. Meu ponto é: da maneira como se coloca hoje, o liberalismo – que no Brasil não se apresenta senão como ideologia – tem dado a tônica inclusive do debate no campo progressista. É a tal gramática moralmente aceitável, embora politicamente conservadora. Sim, estou afirmando que, em essência, operar com categorias como inclusão, mobilidade, autonomia individual e igualdade de oportunidades é, no limite, uma capitulação a qualquer subversão da ordem social. Boa parte da esquerda não tem apresentado capacidade de se articular politicamente sem se acomodar às estruturas vigentes. Efeitos do lulismo? Consequências do fim das utopias socialistas (e, por favor, não tomei União Soviética como exemplo de nada)? Talvez, mas não pretendo enveredar por tais pontos por ora. Fiz só uma provocação.

      Vou ficando por aqui. Agradeço novamente pela oportunidade de discutirmos tais questões.

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