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Artes Cênicas / Visuais

Nos últimos dias, tive o prazer de conferir a peça de teatro Viver Sem Tempos Mortos, estrelada por Fernanda Montenegro, sob direção de Felipe Hirsch, em uma das 21 apresentações gratuitas que estão sendo encenadas nos Centros Educacionais Unificados (CEU) do município de São Paulo. No palco, a atriz encarna a escritora Simone de Beauvoir (1908-1986).

Fernanda Montenegro interpreta Simone de Beauvoir em Viver Sem Tempos Mortos. Foto: Divulgação.

Apenas uma cadeira e um facho de luz sobre Fernanda são suficientes para que ela, vestindo calça e sapato pretos e uma camisa branca, relate as experiências de vida, intimidades e sensações da feminista francesa, tendo como base fragmentos de seu pensamento impressos nas suas correspondências e memórias.

A escritora, nascida em Paris no início do século passado, foi, como muito bem sabido, uma mulher de coragem. Desafiou padrões vigentes até para os dias atuais, recusando o casamento, a maternidade (ela apenas adotou uma filha), engajando-se em relacionamentos abertos bissexuais ao longo de toda a sua vida, na companhia de outra figura pública, seu amado Jean-Paul Sartre, importante filósofo existencialista. Em vez de calar-se no silêncio do ambiente doméstico, Beauvoir se encontrava pelas noites.

Bastante influenciada pelo existencialismo, escreveu a obra considerada o marco inicial da “segunda onda” do movimento feminista: O Segundo Sexo, de 1949. Alguns anos depois, publicou um premiado e excelente romance (um dos meus favoritos!) chamado Os Mandarins (1956), marcado pelas suas memórias em um tempo que, de longe não era morto, mas era claramente sombrio: o clima de pós-guerra, com a polarização ideológica e novos tensões surgindo. É neste contexto que, junto com Sartre e outros pensadores como Merleau-Ponty, escreve para a revista progressista Les Temps Modernes.

Ao lado de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir esteve da juventude à morte dele, mesmo com diversos outros relacionamentos com homens e mulheres.

Poderia ficar textos e mais textos falando da rica biografia de Beauvoir. No entanto, indico o blog (brasileiro, apesar do nome) Avec Beauvoir para quem quiser saber mais a respeito de sua vida e obra. Aqui, gostaria de comentar alguns pontos e reflexões que me vieram a partir da sua obra.

Preciso confessar que O Segundo Sexo mudou minha vida. Não sei de onde, mas sempre tive interesse por questões relativas às mulheres (o que não quer dizer que não tenha reproduzido opiniões ou atitudes machistas vez ou outra). Talvez por eu sempre me afastar da masculinidade dos meninos das escolas as quais frequentei, aproximando-me das meninas, fiz-me mais sensível à causa.

Quando ouvi falar em na tal feminista francesa, resolvi me presentear aos 20 anos com essa importante obra. Já prevendo que ela faria algum “estrago” na minha vida, escrevi como dedicatória a mim mesmo: “Duas décadas de um jeito. Como serão as próximas duas depois desse livro?”. Ingênuo, não esperava que a influência fosse tão grande, a ponto de eu me encantar com debates de gênero ainda na graduação e resolver mudar de área na pós, etapa na qual me encontro agora.

Enquanto Simone de Beauvoir, Fernanda Montenegro relata suas memórias de modo bastante informal, mas profundo e sensível.

Por isso, considero-me um quase devoto de Beauvoir. Ela é minha madrinha intelectual. É claro que, atualmente, faço uso das suas ideias com ressalvas, pois o livro é datado e não podemos esperar uma compreensão completa a respeito da subordinação de mulheres a partir de sua perspectiva. O que não invalida, de forma alguma, a sua imensurável contribuição!

Agradeço à Fernanda Montenegro e à sua equipe por ter me proporcionado esta imersão no passado, lembrando-me dos momentos nos quais deliberadamente quis passar por uma “experiência fundamental de liberdade”, tal como a escritora durante sua vida, de tal forma que retracei novos rumos para mim mesmo. Assim como Beauvoir, também quero sempre viver agarrando meu destino com unhas e dentes. E, claro, sem tempos mortos.

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