arquivo

Atualidades

No início dessa semana, chegamos a mais um 8 de março, Dia Internacional da Mulher. É claro, eu não sei o que você chega a saber e o que você chega a fazer a respeito dessa data, se para você conta essa data, qual a sua versão para ela, se ela começa e termina onde o dia começa e termina mesmo ou se há temporalidades e espacialidades para além do tempo e do espaço em questão. Na maioria dos casos, parece que não se sabe bem o que esse dia significa, a não ser um dia de “celebração”, no qual se devem presentear as mulheres com presentes e flores, um “dever” que termina no terminar do dia mesmo. Presentes e flores devem ter seus significados, mas certamente não são (ou, ainda não chegam a ser) o signo do que, de fato, representa esse dia, do que está em jogo nessa data. Para começar, há outras versões para essa data que são menos ditas e escutadas que deveriam ser mais ditas e escutadas. Essas versões foram marcadamente levantadas e defendidas por todos e todas aquelas que partem do feminismo como campo de teoria crítica e transformação social, como lugar em que o humano é questionado, rasurado e reconstruído. Entre essas outras versões (versões outras, eu diria), é que gostaria de me alinhar nesse texto.

Rosas

Presentes e flores devem ter seus significados no Dia Internacional da Mulher, mas certamente não são (ou, ainda não chegam a ser) o signo do que, de fato, representa esse dia, do que está em jogo nessa data.

Evidentemente, essas outras versões não dizem respeito a como se chega a se transformar num ser altamente responsável (inclusive, honorável) por parabenizar e presentar as mulheres. Aliás, não consigo perceber que tipo de responsabilidade está tratando de se praticar nesses contextos, ainda mais quando não se está recitando nenhuma ansiedade, tensão, movimento. Ao contrário disso, essas outras versões de que estou falando “começam” e “terminam” em lutas, em lutas constantes que se renovam dia após dia. Na verdade, essas outras versões estão sempre no meio, sempre em movimento, implicadas em gestos de ansiedade e tensão, gestos que são o estado, por excelência, da eticidade*.

Elas retomam ao dia de 8 de março, quando nessa mesma data em 1857, em Nova York, mulheres operárias tecelãs de uma fábrica lutavam por melhores condições de trabalho e foram mortas carbonizadas em razão de policiais que atearam fogo no local, querendo obrigá-las a sair. É claro, essas outras versões podem retomar a acontecimentos anteriores e posteriores a 1857 e a contextos diferentes desses. E, de fato, retomam, porque a lutas das mulheres, seja por que objetivo for, começou (não necessariamente num “8 de março”) em algum momento (distante) e ainda não terminou, ainda mais quando se tratam de questões de reconhecimento, principalmente as ligadas ao mundo do trabalho. As lutas das mulheres continuam todos os dias e elas envolvem a todos nós. Ela inclui as mulheres nova-iorquinas, as mulheres brasileiras, as mulheres indianas, as mulheres cabalas, todas as mulheres. Ela inclui transgêneros, transexuais, intersexos, travestis, crossdressers, drags queen/king. Ela inclui os homens. Ela inclui todos e todas que entendem que o “humano” está produzido, reproduzido e desproduzido por normas sociais, entre elas, as normas de gênero.

Cindy Sherman, Untitled #092, 1981

Desde a Grécia, as mulheres são herdeiras do silêncio, de um apagamento e falta de reconhecimento de suas vidas. (Imagem: Cindy Sherman, Untitled #092, 1981)

Seguindo a Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy em O que é feminismo (1985), percebemos que no contexto do processo do que hoje resultou o “Ocidente” (se bem que essa narração pode deixar de contar histórias outras no contexto ocidental mesmo), desde a Grécia, as mulheres são herdeiras do silêncio, de um apagamento e falta de reconhecimento de suas vidas. As autoras nos lembram que as mulheres, juntamente com os escravos, não gozavam do título de “cidadão” e, portanto, não eram entendidos e reconhecidos como pessoas de “maior valor”, livres e capazes. Desde esses tempos, às mulheres couberam atividades reprodutivas, “dentro de casa” e entendidas como de “menor valor”. Faziam (e ainda fazem) uma associação correlata entre mulher e corpo (este compreendido como inferior), homem e mente (esta compreendida como superior). Essa associação foi sustentada por nomes importantes como Platão, Aristóteles, René Descartes, carregada até nossos tempos, sobretudo, como base de conhecimentos.

A situação das mulheres continua semelhante ou até pior em todos os tempos: Idade Média, Renascimento, Revolução Industrial. Nesse sentido, o feminismo sempre procurou, em sua prática, como afirmam Alves e Pitanguy (1985), “superar as formas de organização tradicionais, permeadas pela assimetria e pelo autoritarismo” (p. 8). É claro, é difícil “estabelecer uma definição precisa do que seja feminismo, pois este termo traduz todo um processo que tem raízes no passado, que se constrói no cotidiano, e que não tem um ponto predeterminado de chegada(p. 7). Pertencem a esse processo de busca de superação de estruturas dominantes (que são tanto materiais quanto simbólicas) conquistas como o direito ao voto (o sufrágio feminino), o direito ao ingresso no mercado do trabalho e certa igualdade de salários e condições de trabalhos (se bem que este ponto é bem questionável). Pertencem a esse processo conquistas como as escritas desmobilizadoras de Betty Friedan, Simone de Beauvoir, Heleieth Saffioti, entre tantas outras. Certamente, o dia “8 de março” como “Dia Internacional da Mulher” também pertence as conquistas desse processo, ainda que tenhamos que pensar melhor sobre o que esse dia significa e o que deveria ser feito. E, certamente, ainda há muito para se batalhar e conquistar: o direito ao aborto, por exemplo.

Feminismo

O feminismo está sempre em movimento e problematiza um ideal dominante de “humano”, nos fazendo sempre e sempre pensar na questão do reconhecimento, de como alguém chega a ser re-conhecido.

O feminismo está sempre em movimento e problematiza um ideal dominante de “humano”, nos fazendo sempre e sempre pensar na questão do reconhecimento, de como alguém chega a ser re-conhecido. Às vezes, pode ser que quando nomeamos o dia “8 de março” ou o “Dia Internacional da Mulher”, ou que seja o dia 8 de março como o “Dia Internacional da Mulher”, nós estamos apenas nomeando um problema que não está resolvido. Seja no contexto da Grécia antiga, em 1857, em 1908, ou nos tempos atuais, as mulheres, como nos diz Judith Butler em Deshacer el género (2006), as mulheres não estão totalmente incluídas no marco do “humano”. Suas vidas, em razão das implicações sociais construídas em torno de ser desse gênero, tornam-se mais precárias do que a vida é em si mesma. As mulheres têm sido construídas e, ao mesmo tempo, exploradas como vidas “menos humanas”, como vidas de “menor valor”. Além do mais, quanto mais estão implicadas num processo de outridade, as mulheres são mais exploradas do que nunca.

Inclusive, dentro dos próprios setores da teoria e do movimento feminista, a categoria das mulheres tem sido feita e desfeita. E tal tarefa, realmente, deve acontecer, principalmente quando em alguns momentos, a categoria das mulheres foi usada para ânimos de exclusão, para excluir parte da clientela que buscava representar mesmo. Essa desconstrução e reconstrução é bastante necessária e proveitosa, uma vez que, como diria Butler em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2008), a crítica feminista “tem de explorar as afirmações totalizantes da economia significante masculinista, mas também deve permanecer autocrítica em relação aos gestos totalizantes do feminismo”. É certo que se o feminismo não empreende uma autocrítica em relação a si mesmo, ele corre o risco se tornar tão opressor quanto às opressões que procura combater, inclusive corre o risco de se tornar um projeto altamente colonial.

_____________________________

* Como em Avital Ronell. Ver aqui.

 

Desde os acontecimentos mais distantes até os mais próximos, sobretudo aqueles que se referem a nossa exposição à violência e até nossa cumplicidade com a mesma; desde os diferenciais contornos sociais, históricos, políticos e culturais, em torno do “ser”, do reconhecimento do “ser”; desde aqueles que se encontram mais vulneráveis do que outros, aqueles que não chegam a ser reconhecidos e permanecem desconhecidos; o que é uma vida digna de ser vivida, uma vida que vale a pena? O que é uma vida e um mundo habitável? Quem pode habitar a plenitude do mundo social? E quem não? Que vida (ou, que vidas, se há uma série delas) é considerada como não digna e (consequentemente) que vida pode ser vista entregue fora de si mesma, da sua “autonomia”, a movimentos que vão do sofrimento físico e/ou psicológico a erradicação total do próprio ser? Certamente, essa categoria de questões não nos leva a uma tarefa fácil de reflexão, entretanto, certamente, nos leva a uma tarefa mais necessária nestes tempos.

Cindy Sherman, Untitled #316, 1995

Até que ponto o “humano” está pronto e a questão do “humano” está terminada? Em que medida a categoria do “humano” representa, de uma forma original e final, todas as humanidades que povoam este mundo? A categoria do “humano” é um sítio universal ou uma zona de poder? (Imagem: Cindy Sherman, Untitled #316, 1995)

Nos concentrado especificamente em torno das “vidas humanas”, às vezes, pode parecer que a questão do “humano” está terminada, que o “humano” está pronto e o “humano” é o que é, uma unidade consigo mesmo, um ser autônomo e deliberativo. Às vezes, pode parecer que quando evocamos o “humano”, estamos falando desde um sítio universal e falando, afinal de contas, em nome de todos os “humanos”. Pode-se, de fato, recorrer a uma figura do “humano” que está ocorrendo do início ao fim e com toda autonomia possível? Pode-se fazer uso de uma universalidade do “humano”? Na melhor das hipóteses (ou, que seja, na pior delas), podemos evocar o “Humano” (com um “h” maiúsculo e no singular) que seria o lugar da representação de todas as “vidas humanas”? Não pode ser que tal categoria exclua parte da clientela que procura representar mesmo, de tal forma que existem aqueles que contestam significativamente tal lócus absoluto? E se a categoria do “humano” se mostrar fundada por e com objetivos bem particulares? Quem é e o que quer o “humano”?

A questão do “humano” certamente pertence ao domínio conexo de análises do Ensaios de Gênero, de forma que sempre foi levantada e, eu acredito, que sempre continuará sendo. Desde este blog e junto de vocês, o “humano” vem sido pensado e repensado em contextos dos mais diferentes, sobretudo através de como o “humano”, em continuidade com as normas de gênero em maior grau de discussão, é explorado sexualmente, estigmatizado, como é discriminado, submetido a uma lógica da divisão do trabalho, como chega a viver de forma diferencial as variáveis da pobreza, da infância, da educação, da política, entre tantas outras. Em tais análises, o “humano” claramente diferencia a si mesmo, se mostra como projetado contra um e partir de um Outro de si mesmo, explorando outras “vidas humanas”. Aqueles que estão mais vulneráveis à violência (a qualquer variável dela) e aqueles que, de fato, sofrem violência em razão de seu corpo, seu gênero, sua sexualidade, sua raça, sua etnia e outras variáveis não colocam de maneira muito problemática como nem todos estão incluídos nesse “humano” prometedor? E que, ademais, esse “humano” está desde o início regulado por um ideal normativo de “humano”?

Imagem: Francis Bacon, Auto-retrato, 1972.

Certamente, essa categoria de questões não nos leva a uma tarefa fácil de reflexão, entretanto, certamente, nos leva a uma tarefa mais necessária nestes tempos. Uma tarefa de entender como o “humano” chega a ser reconhecido ou deixa de ser reconhecido pelos contornos históricos, políticos e culturais que restringem e facultam esse “humano. (Imagem: Francis Bacon, Auto-retrato, 1972)

Esse ideal normativo, formado através das varias normas sociais, não produz o “humano”, o “menos humano” e aqueles que não contam como “humanos” de forma alguma? Aliás, desde as várias normas sociais (apoiadas institucionalmente ou não), qual “humano” conta como “humano”, como “menos humano” ou qual “humano” não conta de forma alguma? Que vidas são consideradas como vidas que não contam? Que perdas humanas são lamentadas? Quem chega a chorar e quem pode chorar? Quem fixa uma marca imediatamente, quem merece luto público, duelo político, e quem não? Essas perguntas podem nos levar a um melhor esclarecimento sobre o “humano” em jogo, a desloca-lo das ruínas do humanismo e da ontologia.

Lançada essa série de problemáticas, queria (re)começar com vocês, com Judith Butler (sempre e sempre) e com outras e outros pensadores, refletindo ao largo de ensaios que estão por vir sobre o que significa habitar o mundo, o que constitui um mundo habitável e, portanto, sobre o que constitui uma vida diga de ser vivida, digna de reconhecimento. Gostaria de me debruçar sobre as vidas humanas especificamente, sobre as vidas de certos sujeitos que podem contar mais do que outros, as vidas humanas que podem ser consideradas de menos valor e as que, absolutamente, não chegam a ser contadas como “vidas” propriamente ditas. É claro, trata-se de uma discussão crítica que tenta entender sempre tal valoração em meio e desde as normas constituintes do mundo social, logo, intercambiando as normas que produzem e concebem o “humano” em termos de gênero, raça, etnia, entre outros, embora, no nosso caso, privilegiamos majoritariamente a discussão a partir dos estudos de gênero.

O que constitui uma vida habitável, como atenta Butler principalmente em Deshacer el género (2006) e Vida precaria: el poder del duelo y la violencia (2006), não constitui uma questão fácil — como se pode pensar —, sendo que tal questão pode se direcionar mesmo para dimensão da vida que pode ser indiscutível, que está no limite do “argumentável”, principalmente quando se refere a nossa exposição à violência e nossa cumplicidade com ela. Assim, tal discussão não poderá, nunca poderá, ser encerrada de uma vez por todas, mas sempre estará aberta a novas revisitações e ressignificações, a fim de expor a contingência mesma da representatividade do “humano” e reabrir sempre tal categoria a fim de propósitos críticos e democráticos. Que recomecemos e sigamos nesse processo de desconstrução e reconstrução do “humano”, refletindo sobre as normas sociais, a modificação e expansão das mesmas!

Branco, preto, pardo, amarelo e indígena. Essas são as cinco categorias de pertencimento racial com a qual estamos acostumados a nos identificar em censos, questionários e formulários pelo Brasil afora. Se essas cinco palavras são capazes de resumir as identidades étnico-raciais de cerca de 200 milhões de brasileiros/as, é outra questão. Fato é que convivemos com a necessidade de pensar nossa sociedade em termos de relações raciais e, para tanto, certas categorias mostram-se indispensáveis. Pensando nisso, neste texto discuto alguns aspectos históricos e culturais relativos à classificação racial nos censos demográficos brasileiros.

Longe de ser um procedimento meramente técnico, a realização dos censos demográficos refletem projetos políticos que se transparecem nas questões elaboradas, na metodologia empregada e, evidentemente, nas opções de respostas que são fornecidas. Assim, para se aproximar de alguma classificação racial da população brasileira, é necessário fazer escolhas de quais categorias sociais se pretende visibilizar em detrimento de outras e, em decorrência disso, forjar as lentes que poderão ser adotadas pela própria população para se enxergar como tal. É por isso que aquelas cinco palavrinhas não são fruto de uma percepção objetiva da demografia brasileira, senão reflexo de uma determinada ideologia racial que, em dadas circunstâncias, foi legitimada como um bom indicador da realidade social.

O último recenseamento brasileiro foi em 2010. O primeiro, em 1872. De lá para cá, uma série de mudanças, às vezes na forma de idas e vindas, aconteceram nos métodos de classificação racial dos respondentes.

O último recenseamento brasileiro foi em 2010. O primeiro, em 1872. De lá para cá, uma série de mudanças, às vezes na forma de idas e vindas, aconteceram nos métodos de classificação racial dos respondentes.

Na América Latina como um todo, pontuam Luis Angosto Ferrández e Sabine Kradolfer (2012), os censos demográficos nacionais passaram a ser criados a partir ou em torno da década de 1870, como uma decorrência de projetos de modernização das nações cujo mote era a ordem e o desenvolvimento. Dessa forma, os levantamentos de dados em caráter censitário se mostraram essenciais para a consolidação institucional do Estado, assim como para permitir uma governabilidade maior sobre a população. Nesse contexto, países como Argentina, Guatemala e Venezuela inauguraram seus censos, respectivamente, em 1869, 1870 e 1873. O Brasil seguiu na mesma linha e teve seu primeiro levantamento demográfico no ano de 1872.

Em tal recenseamento, o Estado dispôs de quatro categorias para a classificação racial: branco, preto, pardo e caboclo, entendendo pardos como a união de brancos e pretos, e caboclos como os indígenas e seus descendentes. Edith Piza e Fúlvia Rosemberg (2012) ressaltam que o Censo de 1872 já utilizava um critério misto de fenótipo e descendência para a classificação racial, uma vez que as três primeiras categorias correspondem à cor, ao passo que a última tem uma origem racial. Esse nó, que vemos até hoje nos levantamentos atuais, acompanha nossa história desde os primeiros recenseamentos, tendo sido adotado também no segundo censo demográfico, de 1890, com a diferença de que este substituiu o termo pardo por mestiço.

Quantidade de indivíduos segundo a cor/raça, ao longo dos diferentes censos demográficos - Brasil - 1872-2010. (Fonte: PETRUCCELLI, 2012; IBGE, 2010)

Quantidade de indivíduos segundo a cor/raça, ao longo dos diferentes censos demográficos – Brasil – 1872-2010. (Fonte: PETRUCCELLI, 2012; IBGE, 2010)

Infelizmente, a cor/raça não foi apreendida nos dois recenseamentos subsequentes, quais sejam, em 1900 e 1920. José Luis Petruccelli (2012) nos recorda que imperavam, nessa época, correntes de racismo científico que associavam à negritude da população a traços de inferioridade sociocultural. Talvez por isso tenha parecido melhor, à elite vigente, evitar o levantamento de dados raciais enquanto operava, noutro plano, um projeto de embranquecimento da população brasileira. Foi nesse meio-termo – na passagem do século XIX para o XX – que se intensificou um processo de imigração europeia e, pouco depois, da chegada de asiáticos às terras tupiniquins.

A classificação racial retornou apenas em 1940, quando o Brasil entrou para o rol das nações que passaram a realizar censos modernos decenais, sob a responsabilidade de um órgão competente – o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na ocasião, o termo caboclo foi abolido e a cor parda foi retirada dos questionários (mas retornou nas análises posteriores). Ademais, surgiu o conceito de amarelo para contemplar os imigrantes de origem asiática e seus descendentes. Sem menção à categoria indígena, no Censo de 1950 justificou-se que esses poderiam se declarar pardos, uma categoria guarda-chuva que incluiria mulatos, caboclos, cafuzos etc. E assim permaneceu pelas décadas seguintes até a redemocratização, com exceção do ano de 1970, em plena ditadura militar, que, curiosamente, retirou dos questionários a classificação racial.

Distribuição percentual dos indivíduos segundo a cor/raça, ao longo dos diferentes censos demográficos - Brasil - 1872-2010. (Fonte: PETRUCCELLI, 2012; IBGE, 2010)

Distribuição percentual dos indivíduos segundo a cor/raça, ao longo dos diferentes censos demográficos – Brasil – 1872-2010. (Fonte: PETRUCCELLI, 2012; IBGE, 2010)

Em resumo, o Censo de 1940 iluminou um Brasil um tanto quanto diferente do que se via anteriormente. Em primeiro lugar, demonstrou que o projeto de embranquecimento foi bem sucedido, visto que os/as brancos/as passaram de 44% da população em 1890 para mais de 63% em 1940. Ao mesmo tempo, esboçava um “novo” segmento populacional – os amarelos. Já os indígenas ficaram invisíveis dentro da categoria pardos. E, para piorar, demorou meio século para eles retornaram aos nossos censos.

Em 1991, enfim, o censo demográfico consolidou-se no modelo que adotamos até hoje: branco, preto, pardo, amarelo e indígena. Finalmente houve menção aos indígenas enquanto tais. Esse sistema de classificação foi reproduzido para as edições de 2000 e de 2010 dos censos demográficos. No último, aliás, vemos que, pela primeira vez desde o século XX, a população branca deixou de compor a maioria do povo brasileiro. Hoje, conforme o gráfico abaixo, temos 47,7% que se autodeclaram da cor branca, 43,1% parda e 7,6% preta, além de 1,1% amarela e 0,4% indígena. Com as técnicas de pesquisa atuais, reduziu-se o percentual de “não declarados” a praticamente zero.

Distribuição percentual da população branca, preta e parda na série histórica dos censos modernos decenais - Brasil - 1940-2010. (Fonte: PETRUCCELLI, 2012; IBGE, 2010)

Distribuição percentual da população branca, preta e parda na série histórica dos censos modernos decenais – Brasil – 1940-2010. (Fonte: PETRUCCELLI, 2012; IBGE, 2010)

Desse histórico, importantes questões devem ser observadas. Nota-se que, desde sempre, a cor parda foi a mais permeável das classificações raciais (PIZA & ROSEMBERG, 2012): ora por agrupar um amplo e complexo gradiente que vai do branco ao preto, ora por supostamente incluir também os grupos indígenas e todas as misturas possíveis no caldo das “três raças”, os pardos atuaram como um coringa em uma nação multicolor cujo pertencimento racial, tão atravessado de outras variáveis imbrincadas a relações de poder, é inevitavelmente um desafio.

Outro importante movimento são algumas tendências na composição étnico-racial da população que apontam para o caráter fluído e ambíguo da classificação racial. A título de ilustração, o salto de menos de 300 mil indígenas em 1991 para pouco mais de 700 mil em 2000 não indica meramente um crescimento populacional, e sim uma revalorização de identidades, processo esse que encontra eco na história recente do Brasil, quando as mobilizações indígenas passaram a retomar fôlego após sucessivas ameaças e violências perpetradas pelo regime militar.

Campanha de afirmação racial desenvolvida por segmentos do movimento negro durante o recenseamento de 1991.

Campanha de afirmação racial desenvolvida por segmentos do movimento negro durante o recenseamento de 1991.

O mesmo pode estar acontecendo com as categorias preta e pardo, para as quais o fortalecimento do movimento negro tende a tornar mais recorrente, aceitável ou até mesmo desejável a autodeclaração em uma dessas duas opções, como uma maneira de reafirmar identidades coletivas em contexto de lutas e reivindicações. Não à toa, setores do movimento negro lançaram a campanha, durante o recenseamento de 1991, cujo slogan era: “Não deixe sua cor passar em branco”, fazendo uma alusão crítica à tendência de branquear-se como tática de reconhecimento ou ascensão social.

Agora, não se pode ignorar que as categorias de pertencimento racial no Brasil continuam tendo imprecisões que não resumem, com fidelidade, a ampla gama de cores, raças e etnias que caracterizam a sociedade brasileira. Afinal de contas, Petruccelli (2012) pontua que o nosso país privilegia a manutenção da série histórica em detrimento de um esforço concentrado sobre a produção de estatísticas mais fiéis e condizentes à nossa realidade. Em outras palavras, é preferível manter uma classificação racial imperfeita, mas que foi bastante assimilada, a ousar a reformulação desta, muito embora haja esforços por parte das autoridades competentes para se aprimorar esse levantamento de dados num futuro próximo.

De toda forma, temos em mãos um sistema de classificação racial com informações suficientes para se descrever registros históricos, apontar tendências futuras e refletir sobre a diversidade, as diferenças e as desigualdades sobre as quais se edificou a sociedade brasileira. Ainda que imperfeita, as categorias branca, preta, parda, amarela e indígena devem fornecer subsídios para a reflexão, a crítica e principalmente a superação das hierarquias que se reproduzem em sociedades racializadas e, pior que isso, racistas.

Em quase o mundo todo, a violência contra a mulher é um problema sério. Na América Latina, terreno daquilo que conhecemos por machismo, é particularmente grave, haja vista que países como El Salvador, Colômbia e Brasil costumam figurar entre posições preocupantes nos rankings de violências perpetradas por homens contra mulheres (leia aqui). Não à toa, diversas campanhas têm surgido na tentativa de desestimular a violência de gênero e promover ações igualitárias entre homens.

Apesar de aparentemente bem intencionadas, muitas dessas campanhas parecem seguir por um caminho indesejado, ao procurar corrigir um erro com outro. Neste texto, trago exemplos de algumas dessas campanhas e aponto quais são seus equívocos, de acordo com a perspectiva de gênero que adoto. Em seguida, discuto o quanto esses enganos são fruto de uma compreensão pouco profunda ou madura das relações de gênero, o que resulta, por consequência, em uma visão política ingênua, sentimentalista e, por que não, conservadora.

A começar pelo Brasil, salta aos olhos a campanha cujo slogan é: “Homem de verdade não bate em mulher”. No momento, sua página de Facebook alcançou cerca de 9 mil seguidores e sua principal ação é reunir fotos de diversos indivíduos, em sua maioria jovens e adultos do sexo masculino, empunhando um cartaz com os dizeres da campanha. Algumas celebridades, como o ator global Cauã Reymond, aderiram-na. Mas o que mais chama a atenção é a adesão da própria Maria da Penha, cujo nome é referenciado na Lei 11.340/06, um marco na luta contra a violência doméstica.

A ativista Maria da Penha segurando um cartaz da campanha brasileira "Homem de verdade não bate em mulher".

A ativista Maria da Penha segurando um cartaz da campanha brasileira “Homem de verdade não bate em mulher”.

Nessa iniciativa, vê-se que, ao associar o “homem de verdade” àquele que não agride uma mulher, a campanha brasileira parte do perigoso pressuposto de que existe um “homem de verdade”. De forma simétrica, existiriam também “homens de mentira” ou, pelo menos, homens de menor escalão, mais femininos, menos homens – adjetivo que aqui se presta a nomear aquilo que é digno, honrado, nobre – um equívoco cujo maior risco é essencializar o conceito de homem e de masculinidade, atiçando até mesmo um possível orgulho de ser um “homem de verdade”. Resta saber se é disso que precisamos para coibir uma violência que é, ela mesmo, um produto das relações de gênero.

Na mesma linha, o Chile foi palco de campanha similar, porém com um tom ainda mais agressivo (e talvez por isso mais polêmico). “Maricón es el que maltrata a una mujer”, ou, no bom português, “Viado é quem bate em mulher”. Com esse mote, a campanha se presta a lançar uma alcunha ofensiva – maricón – sobre os agressores, a fim de inverter a lógica sob a qual se assenta a violência de gênero, isto é, o homem seria mais macho, mais masculino ou mais homem caso fizesse prova de sua masculinidade agredindo uma mulher. Ao lançar o epíteto homofóbico, a campanha intenta em desmoralizar ou diminuir essa masculinidade, associando-a a formas renegadas de “ser homem” na sociedade. No caso, as masculinidades homossexuais.

Fora do nosso continente, há exemplos que caminham para o mesmo buraco. Na Itália, uma campanha recente garantiu elogios nas redes sociais. No vídeo, que pode ser visualizado abaixo, um conjunto de garotos italianos, entre sete e onze anos de idade, apresentam-se ao expectador e, em seguida, são apresentados à Martina, uma mocinha loira, bonita e alta, que se posiciona perto dos ragazzi tímidos e fofinhos. Eles são solicitados a lhe fazer um carinho seguido de uma careta. Fazem-no. Porém, negam-se quando requisitados a darem uma tapa na italiana. Vale a pena conferir o vídeo abaixo antes de seguirmos:

Reparem que, quando questionados do porquê não aceitarem esbofetear Martina, suas respostas giraram em torno do lugar comum de que “homem não deve bater em mulher”. Um deles foi até mais explícito: “porque ela é uma menina, e ela é muito bonita”. Outro ragazzo chegou a dizer, talvez com menos convicção do que se esperaria, “porque sou homem”. E assim o vídeo se encerra, procurando demonstrar que crianças ainda não internalizaram o mau caráter que circundaria os agressores de mulheres. Fica a esperança, assim, de que é possível educar as novas gerações a não serem violentas.

A grande contradição traduz-se na seguinte indagação: que caminhos estamos buscando se procuramos educar as crianças para não serem violentas sem questioná-las do sexismo que essas abordagem carregam. Pois a premissa do argumento de que “homem não bate em mulher” tem um fundo absolutamente machista. Preconiza, por exemplo, que homens são fisicamente superiores e que cabe ao nosso julgo dizer em quem devemos bater ou não; pior, sugere que poderíamos nos autorizar a agredirmos outros sujeitos que não sejam, em nosso entendimento, “mulheres”. Aqui incluo outros homens (dentre os quais os gays), as travestis, as transexuais, os/as andróginos/as e outras mulheres cuja feminilidade nos desafia a atribuirmo-las um gênero definido.

Slogan da campanha chilena "Maricón es el que maltrata a una mujer".

Slogan da campanha chilena “Maricón es el que maltrata a una mujer”.

Seria melhor esperar que um menino de oito ou nove anos dissesse que se recusa a agredir a Martina – ou a Joana, a Maria, a Laura etc. – não porque ela é uma mulher, mas porque a agressão, em si, é um problema. Qualquer ato de violência deve ser repudiado, quer seja aquele praticado contra uma mulher, homem ou o quem mais existir nesse espectro, quer sejam as formas mais sutis e menos escandalosas de praticar a violência. A agressão física é uma delas e talvez a mais barulhenta, socialmente falando. Porém, será que não somos algozes de outras práticas igualmente violentas, muitas das quais sem nos darmos conta?

Para retomar a saudosa Heleieth Saffioti em Gênero, patriarcado e violência (2004), se há algo de poderoso na violência é justamente sua rotinização, isto é, a naturalização de sua prática em rotinas imperceptíveis. Ao lado disso, a autora ressalta que a violência está encoberta por relações afetivas e até amorosas. Não basta, assim, transformar em exótica a imagem de um agressor como se ele fosse um outro a ser eliminado ou reconvertido. Ele somos nós, no sentido de que essas hierarquias que se prestam a justificar as violências e agressões são um problema social que diz respeito às próprias construções de gênero que nos circundam. Por isso, é inútil tentar combater uma violência de gênero sem se apropriar do próprio gênero enquanto conceito.

Nesse contexto, há de se considerar que as campanhas supracitadas não são capazes de romper com formas de violência. Ou, pior, as legitimam como maneira de coibir outras violências. Pois é inescapavelmente violento prescrever que um “homem de verdade” é isso ou aquilo, que um agressor é na verdade um “maricón” ou que é “por ser homem” que não se deve agredir uma moça. Essa louvação à própria masculinidade, entendida por um viés reformista de gênero, representa um perigo em potencial. São campanhas covardes, rasas e ainda tímidas para romper com os grilhões sexistas da sociedade. Em suma, são campanhas machistas.

Para finalizar o texto, e não ficar apenas nas críticas, retomo uma campanha realizada pelo Equador intitulada “Reacciona Ecuador, el machismo es violencia”. Essa política é composta por uma série de vídeos amplamente divulgados nas redes sociais faz alguns anos. Um dos meus favoritos ilustra o processo de construção de masculinidades e feminilidades desde a infância e, o que faz de mais ousado, sugere que as próprias maneiras dicotômicas e sexistas de produção do gênero são as principais responsáveis pela manutenção de uma relação desigual entre os sexos, a qual, por sua vez, culmina na reprodução da violência de gênero. Assista ao vídeo abaixo:

O que esse curto filme tem de mais sensacional é não se referir ao homem agressor como um troglodita, um “homem de mentira”, um ser abjeto e atrasado, e sim como um menino, um jovem ou um adulto como qualquer outro, que cresce brincando de luta, de tiro, aprendendo a ser agressivo e pouco compreensivo. Melhor ainda, o vídeo não explicita nenhuma forma de violência física, pois se atenta às construções de gênero em si e como elas se reproduzem mantendo desigualdades e hierarquias entre os sexos (basta reparar na maneira pela qual a moça aceita as algemas – um retrato tragicômico da internalização das opressões).

É essa abordagem que se esperaria de uma campanha de combate à violência contra a mulher que se aventure a discutir gênero com mais coragem e profundidade. Em outras palavras, é necessário apropriar-se de um conceito de gênero para ir além dos lugares comuns, pois, sem questionar as próprias noções dicotômicas e excludentes de homens/mulheres, masculino/feminino etc., não se consegue avançar. E os riscos embutidos das campanhas do Brasil, Chile e Itália estão aí para provar: não se corrige um erro com outro.

Dilma Rousseff, reeleita à Presidência da República em 2014. (Foto: Ichino Guerra)

Dilma Rousseff, reeleita à Presidência da República em 2014. (Foto: Ichino Guerra)

Passadas as eleições, é hora de dar prosseguimento às discussões políticas, econômicas e sociais de suma importância para a promoção da cidadania e o desenvolvimento do país. Estas, que foram o pleito mais acirrado dos últimos anos, deixam que legados além da reeleição de Dilma Rousseff e da composição de um Congresso Nacional mais conservador? Neste texto, faremos uma reflexão sobre gênero e a representação política das mulheres, com base em dados fornecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Iniciamos com uma breve contextualização sobre o quantitativo de eleitores aptos à votação. Deveríamos, aliás, dizer eleitoras, pois, a exemplo da maioria feminina na população brasileira, o eleitorado também é majoritariamente feminino. De um total de mais de 142 milhões de eleitores, 52,13% pertencem ao sexo feminino, ante 47,79% do sexo masculino. Isso significa que, no Brasil e no exterior, mais de 74 milhões de mulheres estiveram aptas a votar. Entre os homens, 68 milhões. A despeito desse elevado contingente de eleitoras, as mulheres continuam sendo minoria entre os candidatos aos cargos representativos, como podemos observar na tabela abaixo.

Tabela I - Quantidade e porcentagem de homens e mulheres candidatos aos cargos representativos das eleições 2014 - Brasil. (Fonte: Tribunal Superior Eleitoral)

Tabela I – Quantidade e porcentagem de homens e mulheres candidatos aos cargos representativos das eleições 2014 – Brasil. (Fonte: Tribunal Superior Eleitoral) – clique na imagem para ampliar

Nas eleições de 2014, nota-se que a maior proporção de mulheres foi encontrada entre os candidatos a deputados estaduais – elas corresponderam a 29,11% dos mais de 15 mil aspirantes ao cargo. Lembremos que é obrigatório que os partidos apresentem pelo menos 30% de candidatas do sexo feminino ao Legislativo. Já entre governadores, no qual não há essa obrigatoriedade, a proporção de candidatas despencou para míseros 12,05%. Em outras palavras, é mais provável encontrar mulheres no âmbito Legislativo do que Executivo em nível estadual. Se olharmos para o total de candidatas no Brasil, veremos que 6.470, ou 28,9%, entraram na corrida eleitoral. Quantas, então, saíram vitoriosas?

Para não nos afogarmos em números, discutiremos os resultados em nível federal. E, aqui, embora as notícias não sejam lá muito animadoras, elas apontam para uma tendência positiva. Conforme podemos observar na figura abaixo, o Brasil tem assistido a um crescimento na representação política das mulheres desde meados do século passado. Embora tenha sido aprovado no início da década de 30 – e elegido a primeira deputada federal do Brasil, Carlota Pereira de Queirós, em 1934 – o voto feminino só passou a valer, em caráter obrigatório, após a ditadura do Estado Novo. Mesmo assim, entre 1945 e o fim do regime militar (em 1985), a quantidade de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal oscilou entre números bastante pífios: nunca mais do que uma dezena de mulheres ocupando cadeiras na Câmara dos Deputados – as porcentagens variaram porque o número total de deputados também variou.

Figura 1 - Quantidade e porcentagem de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal - Brasil, 1945-2014. (Fonte: Tribunal Superior Eleitoral)

Figura 1 – Quantidade e porcentagem de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal – Brasil, 1945-2014. (Fonte: Tribunal Superior Eleitoral. Baseado em Oliveira, 2011) – clique na imagem para ampliar

Na redemocratização que se iniciou após a metade da década de 80, testemunhamos um salto no contingente de deputadas federais. De apenas oito em 1986, passamos para 26 em 1990 – o que, em termos proporcionais, significou quase nada, porque o número total de deputados também aumentou com a recém-promulgada Constituição Federal. Há de se lembrar que, durante a Assembleia Constituinte, 559 deputados foram eleitos, dos quais 26 mulheres (5,3%) fizeram parte (leia aqui). Com a aprovação da Lei Complementar n. 78 em 1993, a quantidade de deputados federais não pôde exceder 513 – o quantitativo que encontramos na atualidade.

Isto significa que, de 1994 em diante, o número total de deputados federais se manteve fixado nesse valor. Com a eleição de um número cada vez maior de mulheres para esse cargo (com exceção do pleito de 2002), temos visto a representação feminina crescer na política nacional. Em 2006, chegamos ao recorde de 45 deputadas federais (8,77%), resultado que se repetiu em 2010, e, finalmente, quebramos a marca dos últimos oito anos e emplacamos, somente nessa eleição, 51 mulheres na Câmara dos Deputados, o equivalente a 9,94%. Essa representação, como podemos ver na figura abaixo, não se distribui igualmente entre as unidades da Federação.

Figura 2 - Quantidade de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal, por Unidade da Federação, nas eleições de 2014 - Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres)

Figura 3 – Quantidade de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal, por Unidade da Federação, nas eleições de 2014 – Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres) – clique na imagem para ampliar

Depois do Rio de Janeiro, que elegeu seis deputadas federais, Minas Gerais e São Paulo estão empatados com cinco deputadas eleitas em cada. Outros estados, como Acre, Maranhão e Rio Grande do Sul, além do Distrito Federal, elegeram apenas uma mulher para o cargo; sem mencionar estados como Espírito Santo e Sergipe que não elegeram nenhuma, para a infelicidade de sua população.  Da mesma forma, a composição feminina na Câmara dos Deputados varia em função de seus respectivos partidos políticos. Na figura abaixo, vemos que o PT lidera a lista, com nove mulheres eleitas para o cargo, seguido por PMDB e PSDB com, respectivamente, sete e cinco deputadas federais.

Figura 3 - Quantidade de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal, por partido político, nas eleições de 2014 - Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres)

Figura 2 – Quantidade de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal, por partido político, nas eleições de 2014 – Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres) – clique na imagem para ampliar

A respeito do Senado Federal, verificamos que a cúpula voltada para baixo também contará com uma presença um pouco mais expressiva de mulheres a partir do ano que vem. Nessas eleições, concorreram ao cargo 34 mulheres e 138 homens; saíram vitoriosos 5 delas e 22 deles. Na figura abaixo, nota-se que isso corresponde a 18,5% de mulheres eleitas. Dado que apenas um terço dos cargos de senador foi disputado, essas cinco novas felizardas se somarão às outras sete senadoras previamente eleitas. Teremos, portanto, 12 mulheres, ante 69 homens: 14,8% de mulheres, também um recorde, e… 85,2% de homens no Senado.

Figura 4 - Proporção de mulheres e homens eleitos/as para o cargo de senador/a nas eleições de 2014 - Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres)

Figura 4 – Proporção de mulheres e homens eleitos/as para o cargo de senador/a nas eleições de 2014 – Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres) – clique na imagem para ampliar

Na Presidência da República, bem, nem é preciso se alongar. Dilma Rousseff (PT) saiu vitoriosa, galgando o título de primeira mulher reeleita ao cargo de Presidência. Talvez seja interessante pontuar que essas foram as eleições mais “femininas” que tivemos até então, no sentido de que esse pleito foi intensamente disputado por mulheres. Em primeiro lugar, pois a situação – o governo – esteve nas mãos de uma presidenta. Depois, porque nos últimos meses antes do primeiro turno, a principal candidata de oposição era Marina Silva (PSB), que chegou a decolar nas pesquisas eleitorais ao ponto de nos dar a impressão de que teríamos, de forma inédita, um segundo turno composto apenas por candidatas mulheres.

Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB em 2014.

Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB em 2014.

Infelizmente, não foi esse o rumo a que as eleições nos conduziram quando Aécio Neves (PSDB), que passou despercebido por boa parte da primeira etapa, apresentou uma virada que lançou o pleito novamente à polarização PT-PSDB. Ademais, não é exagero relembrar da força de Luciana Genro (PSOL) que, apesar de “nanica” nas pesquisas eleitorais (e eleitoreiras…), foi a candidata que mais tencionou a disputa política, criticando a situação, a oposição e ao que tentava se esboçar como uma “terceira via”. Quanto aos demais presidenciáveis, ora ficaram a reboque dessas candidatas, ora foram ignorados pela imprensa.

Luciana Genro, candidata à Presidência pelo PSOL em 2014.

Luciana Genro, candidata à Presidência pelo PSOL em 2014.

Por fim, é sempre importante ressaltar que uma maior representação feminina não implica necessariamente o avanço de pautas feministas (leia aqui). Uma coisa são lideranças femininas; outra, lideranças feministas – aliás, a história é pródiga em nos mostrar exemplos de mulheres que, no poder, agiram verdadeiramente como homens, no sentido de um exercício político patriarcal, machista, conservador. Progressistas ou não, a presença expressiva de mulheres nos espaços de poder é crucial para fazer justiça à maioria feminina no Brasil. Aumentar a representatividade política de mulheres, pois, é o primeiro passo para que possamos cobrar ainda mais de nossos/as políticos/as eleitos/as. Também, é uma maneira de espelhar com mais rigor, precisão e fidedignidade, a luta cotidiana de cada mulher neste país. Nesse tocante, as eleições de 2014 deram um tímido passo que, pelo menos, foi para frente.

Não é de hoje que se discute racismo no futebol. Pauta antiga, ela esteve presente, por exemplo, na Copa do Mundo da FIFA no Brasil, quando alguns capitães das equipes liam mensagens antirracistas minutos antes do início das partidas. Recentemente, essa discussão entrou novamente na ordem do dia. Por causa da partida entre Grêmio e Santos pela Copa do Brasil, no último dia 28, ofensas raciais contra o goleira Aranha, do segundo time, culminaram na decisão do Supremo Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) pela eliminação do Grêmio desse campeonato, fora o pagamento de uma multa no valor de 50 mil reais.

Por mais que deva ser elogiada a ação judicial de excluir o Grêmio em razão do racismo de sua torcida – atitude essa que prova que o racismo não deve ser tolerado – é digno de nota discutir a maneira despolitizada pela qual a discriminação racial tem sido abordada pela imprensa e por amplo setor da sociedade. A torcedora Patrícia Moreira da Silva, 23 anos, se tornou o bode expiatório do racismo gremista, tendo sido publicamente humilhada pelo seu comportamento, tendo sua casa apedrejada por um vizinho, recebendo xingamentos e ameaças de toda ordem e até mesmo correndo o risco de ser linchada. Em suma, ela ficou conhecida após imagens suas, xingando o goleiro Aranha, terem circulado em rede nacional e pela internet.

A jovem Patrícia Moreira da Silva, 23 anos, foi flagrada xingando o goleiro Aranha, do Santos, de "macaco". Seu time, o Grêmio, foi expulso da Copa do Brasil. Onde estão os demais que também ofendiam o goleiro?

A jovem Patrícia Moreira da Silva, 23 anos, foi flagrada xingando o goleiro Aranha, do Santos, de “macaco”. Seu time, o Grêmio, foi expulso da Copa do Brasil. Onde estão os demais que também ofendiam o goleiro?

É impossível negar a importância de se combater o racismo em suas variadas expressões, mesmo aquelas que parecem pontuais, esporádicas ou inocentes. Caso contrário, a causa antirracista tornar-se-ia inespecífica; abordaria um racismo teórico, genérico, incapaz de denunciar formas cotidianas de reproduzi-lo. Nesse sentido, um xingamento de “macaco” a um indivíduo negro – que vem no calor do momento e no embalo da multidão – não pode passar despercebido. Deve, sim, ser motivo de rechaço público, de ação penal e – o que está faltando no caso do Grêmio – uma profunda crítica e autocrítica sobre a convivência diária com a discriminação racial.

Apesar de outras pessoas terem prestado depoimento pelas ofensas raciais, em nenhum caso a repercussão foi tão grande quanto o de Patrícia. Ela teve o azar de ter sido captada em alta resolução pelas câmeras da rede Globo. Uma torcedora que se pescou no meio de uma multidão, a bola sorteada, aquela que pagou a conta. E, como de praxe na imprensa brasileira, o que começara ruim, terminou pior. Em vez de ampliar o debate, buscar uma retratação coletiva, uma responsabilização conjunta pelo lamentável episódio, tem-se adotado uma abordagem individualizante, que transformou Patrícia no “rosto do preconceito”, tal como afirmado pelo jornal Zero Hora.

Aranha, goleiro do Santos, exigiu que fossem apuradas as ofensas racistas. Certo ele. Mas a que custo estão sendo encaminhadas essa investigação?

Aranha, goleiro do Santos, exigiu que fossem apuradas as ofensas racistas. Certo ele. Mas a que custo estão sendo encaminhadas essa investigação?

Assim, por mais de uma semana, temos lido matérias ilustrando Patrícia de humilhação a humilhação. Perdeu o emprego, sumiu das redes sociais, escondeu-se em casa, chorou em rede nacional e recebeu xingamentos de cunho machista – como se um erro justificasse outro. E, coerente com a má qualidade do debate, o advogado de Patrícia, procurando livrar sua barra a todo custo, argumentou que “macaco”, no contexto do futebol, não é uma alcunha racista. Está tudo errado!

“Macaco” é, sim, um termo ofensivo. Usado contra negros, ele carrega a intenção de desumanizá-los, animalizando-os em uma condição de primata considerada social e intelectualmente inferior à espécie humana. O epíteto não teria o mesmo efeito se endereçado a um branco. Em razão disso, devemos descartar a ingenuidade de nos considerarmos todos macacos como forma de neutralizar essa ofensa. Proponho, aos defensores do “somos todos macacos”, a experimentarem dizer “somos todos viados”. Bem, um homem branco e heterossexual facilmente se sentiria ofendido com essa expressão, tão preenchida por homofobia. Ela os atinge diretamente. “Macaco”, não. Esse termo não diz nada a uma pessoa branca, não a ofende, não a atinge, não a animaliza, não a diminui.

A humilhação sofrida única e exclusivamente por Patrícia tem individualizado o debate sobre o racismo, tirando-lhe uma devida contextualização política.

A humilhação sofrida única e exclusivamente por Patrícia tem individualizado o debate sobre o racismo, tirando-lhe uma devida contextualização política.

Nesse contexto, é essencial desmascarar a aparente face de neutralidade desses xingamentos. E a lei 7.716/89 está aí para isso. Conhecida como “Lei Antirracismo”, seu propósito e definir os crimes resultantes de preconceito de raça, cor ou etnia, entre outros. Iniciativas como essa visam coibir ofensas raciais e outras formas de comprometer o exercício da cidadania pela população negra. Trata-se, evidentemente, de uma questão ampla, que diz respeito à sociedade como um todo. Afinal, o racismo é um artifício poderoso justamente porque é social.

A partir dessas constatações, percebe-se que a humilhação sofrida por Patrícia – que deve, sim, sofrer algum tipo de punição pelo que fez – representa o lado fraco da corda que estourou. Chega a ser cômodo criminalizar uma garota de 23 anos que, no meio de uma multidão ampla e uniformizada, bradava coletivamente uma alcunha racista, reproduzindo um comportamento que usualmente não recebe a devida atenção. O racismo, traço cultural do Brasil, se expressava ali nos xingamentos de “macaco” como se expressou, mais sutilmente, no amontoado de gente branca que ocupava os estádios durante a Copa do Mundo.

Thiago Silva, capitão da equipe brasileira na Copa do Mundo da FIFA 2014, leu mensagem antirracista durante o campeonato no Brasil. Assim posto, parece que o racismo é um ato meramente individual, baseados em xingamentos raciais e nada mais.

Thiago Silva, capitão da equipe brasileira na Copa do Mundo da FIFA 2014, leu mensagem antirracista durante o campeonato no Brasil. Assim posto, parece que o racismo é um ato meramente individual, baseados em xingamentos raciais e nada mais.

Joseph Blatter, da FIFA, apoiou a punição do Grêmio, assim como deve ter apoiado a leitura de mensagens antirracistas no campeonato que aconteceu há três meses em nossas terras. Não parece, por outro lado, ter mobilizado a FIFA ou o poder público brasileiro que a Copa estava demasiadamente branca para um país como o nosso. Nem as emissoras, que tanto expuseram Patrícia sem uma devida contextualização política da ocorrência, parecem refletir sobre o seu papel na manutenção de um padrão de beleza esteticamente branco em suas programações, na ausência de figuras negras na frente das câmeras, na publicidade cheia de racialidade de seus intervalos comerciais, no pouco compromisso com o racismo que se adentra nos subterfúgios da cultura brasileira.

Não. Ao eleger Patrícia o bode expiatório do racismo nacional, escolheu-se canalizar nela toda a discriminação racial que nos desumaniza por todos os lados. Assim posto, a jovem se transformou no símbolo da intolerância racial – um fenômeno, vejam só!, individual, singular, superlativo. Esse é um bom exemplo daquilo que a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) chamou de “banalidade do mal”. Arendt, diga-se de passagem, referia-se ao julgamento do nazista Adolf Eichmann, ocorrido em Jerusalém uma década e meia após o fim da 2ª Guerra Mundial. Longe de defendê-lo de suas acusações de genocídio e crimes contra a humanidade, o que a filósofa fez foi questionar como Eichmann havia encarnado todo o ódio contra o nazismo. Ele, que não possuía um histórico antissemita, era um burocrata fazendo aquilo que achava certo e “apenas” obedecendo a ordens.

Com a jovem Patrícia Moreira da Silva, banalizamos o mal duplamente. Uma, na linha do que temos defendido até então, por termos despejado sobre ela uma responsabilidade maior e coletiva, fruto de uma crítica parcial, oportunista, imbecil. Outra, por termos feito uso da violência para conter um ato violento: apedrejamento, humilhação e xingamentos machistas contra ela, que representam outro crime social, dessa vez endereçado a mulheres e não a negros/as. É por essa via, distorcida que só, que pretendemos encaminhar o debate sobre o racismo no Brasil?

Vândalos? Revolucionários? Mimados? Não são caracterizações positivas que usualmente rodeiam as conversas sobre os black blocs. Concordemos com a tática adotada ou não, um olhar sobre o fenômeno black bloc é crucial para se pintar um retrato da dita “nova ordem mundial”. Em um só movimento, os mascarados são um produto da globalização hegemônica, das democracias falidas e da repressão policial. Serão também um produto das masculinidades? Neste texto, contextualizo os black blocs para, em seguida, discutir questões de gênero acerca desse grupo de jovens mascarados.

Soam desinformados aqueles que bravejam contra a suposta “violência inerente” aos black blocs. Primeiramente porque os mascarados, de orientação deliberadamente anarquista, não agem sempre por meio da depredação e vandalismo. Ademais, quando os atos de destruição são evocados, eles se dirigem a símbolos do capitalismo, a corporações ou à propriedade privada, nunca às pessoas. Sua crítica, por mais que se tente esvaziá-la de conteúdo político, é uma resposta agressiva a um sistema agressivo. Isso não implica em inocentá-los, por completo, de qualquer análise que pondere a efetiva contribuição desses grupos à construção do pensamento e da ação de esquerda.

A Batalha de Seattle, em 1999, foi um marco na luta de alterglobalização. Também foram um palco para a atuação dos black blocs.

A Batalha de Seattle, em 1999, foi um marco na luta de alterglobalização. Também foram um palco para a atuação dos black blocs.

Apesar de sua origem remeter aos anos 80 – a partir do movimento Autonomen na Alemanha – os black blocs se tornaram mundialmente conhecidos após a chamada Batalha de Seattle, ocorrida em 30 de novembro de 1999 no noroeste dos Estados Unidos, e que foi motivada por protestos contra uma reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC). De acordo com Francis Dupuis-Déri em sua obra Black Blocs (2014), de onde extraio esses dados, a dura resposta da polícia estadunidense aos protestos, que englobaram manifestantes de variadas causas, não conseguira deter a “batalha” que, bem sucedida, derrubou a chamada “Rodada do Milênio” da tal reunião. Um marco, pois, do movimento de alterglobalização.

No Brasil, os black blocs “ganharam” a mídia no ano passado, quando as chamadas Jornadas de Junho colocaram sistematicamente multidões de jovens nas ruas. Tensionamentos nas avenidas que serviam de palco para as passeatas atravessaram os conflitos com a polícia, o grito dos fascistas de plantão, os coxinhas de verde-e-amarelo, os vermelhinhos partidarizados e, finalmente, os mascarados de roupas escuras que logo foram apontados como black blocs. Desde então, o conceito de black bloc tem se tornado uma categoria coringa à serviço do oportunismo da imprensa brasileira que, atacando Sininhos e Fábios, vê nos mascarados o pretexto para a recrudescência jurídico-policial.

No Brasil, os black blocs ganharam visibilidade com as manifestações de junho de 2013.

No Brasil, os black blocs ganharam visibilidade com as manifestações de junho de 2013.

Mas essa história que estou contando é bastante masculina. Os manifestantes, os policiais, os fascistas, os vermelhos etc. E onde as mulheres entram nessa história? A rigor, se fôssemos contabilizar a participação das jovens nesses protestos, nos depararíamos com obstáculos metodológicos. O autor supracitado baseia-se em suas próprias observações para anotar que, dependendo do black bloc, a participação das mulheres pode se limitar a apenas 5% dos manifestantes (DUPUIS-DÉRI, 2014). É coisa de macho, então? Veremos.

Essas estimativas, todavia, são puramente especulativas. É difícil calcular a composição sexual de quem está por trás das máscaras, por dois motivos principais (sendo o primeiro deles bastante óbvio): eles ou elas são anônimos! Em segundo lugar, os black bloc são, acima de tudo, uma tática. Sua composição é efêmera e pode aglutinar desde velhos militantes a alguns novatos. O bloco não se constitui, em suma, como um grupo fechado em si, com um programa político bem delimitado e esclarecido (apesar de o anarquismo ser o denominador comum). Assim, se uma determinada manifestação é voltada, por exemplo, para questões ligadas ao feminismo, é esperado encontrar uma concentração de black blockers mulheres. Em outra ocasião – e.g. na hora do quebra-pau com a polícia – a balança poderá pender para o outro sexo.

Marchas de black blocs, os quais incluíram mulheres, em 2001 em Washington DC: sua pauta era a defesa dos direitos reprodutivos das mulheres.

Marchas de black blocs, os quais incluíram mulheres, em 2001 em Washington DC: sua pauta era a defesa dos direitos reprodutivos das mulheres.

Para avançar neste debate, devemos ir além do sexo dos participantes. Voltando um pouco no tempo, cabe ressaltar que as feministas (sobretudo as ditas “feministas radicais”) foram peça-chave para a constituição do já mencionado grupo “autonomista” alemão. O Autonomen teve raízes variadas, que iam do marxismo ao anarquismo, passando pelo ambientalismo e também pelo feminismo radical. Essas feministas defendiam plataformas de autonomia que alimentavam o ideal anarquista: rejeição à representação verticalizada, tomada de decisões consensual, distanciamento de órgãos institucionais e, evidentemente, a capacidade de fundar coletivos compostos unicamente por mulheres – marca, até hoje, de muitas vertentes feministas (incluindo as assim apelidadas radfems).

A despeito disso, não deixam de ser válidas as críticas de que os black blocs criariam uma esfera de atuação política demasiadamente masculina – ou melhor, forçosamente masculinizada. Há quem afirme que, em um protesto violento, gênero não mais existe, uma vez que não se poderia distinguir quem é o/a mascarado/a que arremessa a pedra. Ora, essa afirmação esquece que, por trás de cada manifestação, há a construção social do próprio manifestante: quem se interessa por essa forma de reivindicação? Quem se alinha com o anarquismo? Quem se sente integrado a um black bloc? E mais, quem está disposto a enfrentar a polícia?

Manifestação em Montreal: quem está por trás das máscaras? O que isso nos diz sobre as questões de gênero?

Manifestação em Montreal: quem está por trás das máscaras? O que isso nos diz sobre as questões de gênero?

É certo que, em grande medida, os confrontos entre mascarados e polícia militar são uma verdadeira encenação de masculinidades. Machos fardados versus machos encapuzados, ambos sem identificação. Esse quadro dialoga diretamente com as representações mais convencionais de masculinidades, daquelas que incentiva os meninos, desde pequenos, a brincarem com armas, exércitos e carrinhos. Nesse sentido, é natural esperar, tal como relata Dupuis-Déri (2014), que há queixas por parte das mulheres de que os homens monopolizaram essa forma de ativismo. Sem falar nas situações em que a própria militância é palco de assédios e agressões sexuais.

Essa tese alerta para um panorama mais amplo da esquerda. Uma perspectiva de gênero faz falta. Assim, volta à cena aquela antiga denúncia de que a esquerda prima pelas questões de classe, deixando em posições marginais um aprofundamento sobre cor/raça, gênero, deficiência etc. Em consequência, cabe à insistência das próprias “minorias” (que não são minorias) em pautar o debate dentro de organizações de outras minorias. Uma loucura, sem dúvida. E necessária, pelo visto.

Por fim, fica o questionamento de como seria uma forma “radical” de ativismo que pudesse escapar de algumas dessas armadilhas. Aliás, será que a palavra “radical” implica necessariamente no uso da força para fins de depredação material? E, se sim, essa atuação é necessariamente masculinizada? Longe de essencializar as mulheres em torno de uma atmosfera pacifista, nossa intenção é chamar a atenção para o quanto determinados valores, por sua vez generificados, pautam modos de organização, eles mesmos, dispostos à subversão de formas tradicionais de dominação. Haverá, por trás dos capuzes negros, alguma perspectiva capaz de enfrentar também o sexismo e machismo das sociedades contemporâneas?

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 679 outros seguidores