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Educação

Já faz alguns anos que se fala da importância de a Educação brasileira incorporar temáticas relativas à História da África e da Cultura Afro-Brasileira nos currículos escolares. Esse foi, justamente, o objetivo da Lei 10.639/03, sancionada pelo ex-presidente Lula no início de seu mandato. Conforme aponta a professora Nilma Lino Gomes (2008), mais do que uma iniciativa do Estado, esse marco legal reflete uma vitória do movimento negro na luta contra o racismo. Mas, afinal, o que a escola tem a ver com isso e por que essa lei existe?

Nilma Lino Gomes, mineira e professora em nível superior, se tornou a primeira mulher negra a assumir o comando de uma universidade federal (no caso, a UNILAB).

Nilma Lino Gomes, mineira e professora em nível superior, se tornou a primeira mulher negra a assumir o comando de uma universidade federal (no caso, a UNILAB).

Reflitamos, por um momento, no que aprendemos sobre a África, a cultura de matriz afro-brasileira e negros/as na escola. Além da escravidão, quase nada – a não ser que o/a leitor/a tenha tido a felicidade de encontrar um ou uma docente com preparo e disposição suficientes para lecionar esses temas. Caso contrário, a implantação curricular de uma parte importante e, diria mais, estruturante, da história e cultura brasileira fica relegada a uma função decorativa. Fala-se da escravidão, do tráfico de escravos, do abolicionismo, e só.

Vivemos em uma nação em que uma sutil maioria da população é composta de pretos e de pardos (que, somados, constituem a categoria “negros”). Entre os demais, a maior parte são brancos miscigenados. Discutir as relações étnico-raciais que construíram esse país, logo, deveria ser uma obrigação de todos os cidadãos, não importando sua origem ou etnia. São esforços que não apenas se somam na luta contra o racismo, como também na consolidação da democracia, da promoção da cidadania e no reforço à igualdade social e racial. Dado que a escola é um local privilegiado para a transmissão de conhecimentos que vieram desde as gerações anteriores, ela também se torna um dos focos do movimento negro. De uma forma ou de outra, o currículo escolar seria trazido à tona.

Essa é a intenção da Lei 10.639/03 – que posteriormente foi complementada pela Lei 11.645/08 para incluir também a questão indígena. O que a sociedade, então, ganharia com a inclusão de um debate profundo sobre história africana e cultura afro-brasileira? Conhecer a história mundial é essencial para entender o que é o Brasil no contexto das relações globais. Porém, da forma como é tratada hoje, o que se convencionou chamar de História Geral é basicamente uma narrativa europeia ou, no máximo, euro-americana (do Norte). Nem a América Latina, nosso próprio continente, é adequadamente discutida. Quanto mais um continente relegado a uma imagem estereotipada, folclorizada e pejorativa como a África.

Compreender em maior profundidade a História da África e da Cultura Afro-Brasileiro é um espelho para se entender melhor o Brasil.

Compreender em maior profundidade a História da África e da Cultura Afro-Brasileiro é um espelho para se entender melhor o Brasil.

Além disso, compreender a África desfaz a noção primária de que, naquele continente (do qual não sabemos sequer os nomes dos países), só existe miséria, fome, doenças endêmicas, guerras “tribais” e atraso. A riqueza cultural, étnica, linguística, artística, intelectual, bem como as nuances de uma história tão complexa quanto o nó que reconhecemos em uma Europa ou Estados Unidos, são deixados de lado. A África, sem sombra de dúvidas, torna-se o bode expiatório de nossa cegueira internacional, a nossa ignorância orgulhosamente ostentada em preconceitos. Nesse sentido, já se passou da hora de olhar a história mundial com outros olhos, até para entender nossa situação presente com maior cuidado e atenção.

“Essa revisão histórica do nosso passado e o estudo da participação da população negra brasileira no presente”, sugere Gomes (2008, p. 72), “poderão contribuir também na superação de preconceitos arraigados em nosso imaginário social e que tendem a tratar a cultura negra e africana como exóticas e/ou fadadas ao sofrimento e à miséria”. Em outras palavras, a sociedade se beneficiaria em muitos sentidos: tanto pedagógicos, no tocante a uma visão mais afirmativa da diversidade étnico-racial, quanto políticos, na problematização das relações de poder que marcam os diferentes segmentos da população.

Justamente, essas relações de poder – que salvaguardam os brancos em um estatuto de neutralidade, acima de qualquer suspeita, e associado a espaços de prestígio – têm um efeito direto na constituição de subjetividades dos/as negros/as. Trocando em miúdos, as desigualdades que herdamos nessa sociedade influenciam no modo pelo qual negros (e brancos) se veem como sujeitos. Têm-se demonstrado que, mesmo em contextos sociais equivalentes, as experiências de brancos e negros em função de sua cor/raça são distintas. Poderia não ser, mas o estrago já foi feito e cabe a nós dedicarmos esforços contínuos e profundos almejando a reparação.

Gravura de Jean-Baptiste Depret: figuras clássicas para se retratar a escravidão. Mas devemos ficar só nesses temas?

Gravura de Jean-Baptiste Depret: figuras clássicas para se retratar a escravidão. Mas devemos ficar só nesses temas?

Voltando aos conteúdos que estudamos sobre questão racial na escola, há de se ressaltar que reduzir a abordagem desta questão ao fenômeno da escravidão é um viés bastante problemático. A impressão que fica é que os negros surgiram de um ambiente sem uma cultura prévia, capturados da escuridão de um algum lugar da “África”, e trazidos ao Brasil na condição naturalizada de “escravos”. Ora, homens e mulheres que foram forçados a trabalhar em condições degradantes até o século XIX não eram apenas escravos, e sim escravizados – seres humanos extraídos à força para alimentar um mercado deplorável.

Ainda, esse período trágico da história brasileira e mundial parece ser apresentado como se não guardasse nenhuma relação com o presente. Dá a impressão de que existiu no passado, sem ligação com o sistema econômico e político, e foi abolido por uns pequenos esforços abolicionistas, dentre os quais a atuação do Zumbi dos Palmares e da Princesa Isabel. Trata-se de um retrato absolutamente despolitizado da escravidão, abordada como uma página virada, uma gravura isolada de Jean-Baptiste Debret, uma fatalidade que foi em seguida corrigida.

Por essas e outras, uma perspectiva mais refinada da história africana e da cultura afro-brasileira, ambas presentes em praticamente tudo que compõe essa nação, é um importante passo na educação para as relações étnico-raciais. E aqui Gomes (2008) enfatiza a faceta das relações, no sentido que envolvem mais de um sujeito, são datadas historicamente, e permitem que se enxergue tanto a produção dos privilégios quanto das opressões.

Há múltiplas formas pela qual a questão étnico-racial pode adentrar o ambiente escolar e, em alguma medida, muitas delas já estão lá e só precisam ser abordadas, como a recorrente prática de capoeira.

Há múltiplas formas pela qual a questão étnico-racial pode adentrar o ambiente escolar e, em alguma medida, muitas delas já estão lá e só precisam ser abordadas, como a recorrente prática de capoeira.

E aí surgem outras perguntas: os docentes estão preparados para essa empreitada? Como trabalhar isso em sala de aula? Essas são questões que fogem do escopo deste texto, até porque eu não me atreveria a fornecer um manual prático. No entanto, adianto que há denúncias de que a formação de professores é precária no que diz respeito às questões étnico-raciais. É fato que essas temáticas são superficialmente abordadas em cursos de Pedagogia e Licenciatura pelo país. Um primeiro esforço, talvez, seja incorporar esses temas no ensino superior para, em médio e longo prazo, gerar um corpo de conhecimentos para quem se aventura na sala de aula.

Em seguida, é valido salientar que muitos temas pertencentes a essa discussão já estão dentro escola. A prática de capoeira, samba ou hip hop, religiões como umbanda ou candomblé, a estética negra, exemplos de negros em posições de sucesso, comentários sobre o 20 de novembro, ofensas de cunho racial, entre outras, são elementos que muito provavelmente surgem com alguma recorrência nas escolas. Eles podem ser utilizados como trampolins para se aprofundar as temáticas, além de partirem da vivência das próprias crianças e jovens. Cultura afro-brasileira, portanto, não se trata de um tema alienígena. Ele já está presente, esperando para ser abordado.

Finalizo, assim, reiterando a importância de se ensinar relações étnico-raciais não apenas visando a atender as demandas de um segmento, por sua vez significativo da população, senão com o objetivo de promover, aos poucos, uma alternativa à forma como a própria sociedade se enxerga. Valorizar a cultura afro-brasileira como um componente nacional, estudar a história mundial com um olhar menos eurocêntrico, compreender as lutas do movimento negro pela igualdade social e racial no país, bem como pela superação do racismo, são etapas dessa transformação. Esses são passos que interessam a todos/as e que vão além da escola, sem dúvida. Mas é nela também que concentramos algumas das alternativas nessa frente de tantos caminhos.

A literatura nacional e internacional sobre gênero e educação, visando à compreensão dos problemas na escolarização dos meninos, é extensa e traz inúmeras contribuições para se pensar as desigualdades educacionais entre garotos e garotas. Em muitas produções, discute-se as tensões entre “ser um menino” – afirmar sua masculinidade – e “ser um aluno”, no sentido de configurar um ofício de aluno adequado às expectativas escolares. Neste texto, vou me ater especificamente a um estudo de caso de um jovem estudante da Austrália.

Entre 1999 e 2003, a pesquisadora australiana Amanda Keddie estudou um garoto chamado Matthew. Nativo da Austrália e com ascendência anglo-saxã, Matthew tinha oito anos de idade quando a pesquisadora entrou em contato com ele pela primeira vez. Escreveu sobre ele em artigo publicado na Oxford Review of Education (KEDDIE, 2006). O caso de Matthew é interessante, embora não necessariamente excepcional, porque joga luz para as ambiguidades em torno das construções de masculinidades. Trocando em miúdos, chama a atenção para o “balaio de gato” que é ser menino e aluno.

Launceston, a segunda maior cidade na Tasmânia (Austrália), local onde foi realizado o estudo.

Launceston, a segunda maior cidade na Tasmânia (Austrália), local onde foi realizado o estudo.

Morador de uma cidade na ilha da Tasmânia, Matthew vivia com sua mãe (motorista de taxi), seu padrasto (mecânico), uma irmã mais velha, um irmão mais novo, e um meio-irmão, em um bairro de camadas populares. Já a sua escola se localizava em uma região de classe média e continha cerca de 300 estudantes. Sob certos aspectos, Matthew era um “típico” garoto: andava de bicicleta, jogava bola, montava casas com blocos de madeira. Por outro lado, era um menino “atípico” na medida em que vertia em lágrimas com relativa facilidade. Era, portanto, um garoto chorão.

Na sala de aula, ele enfrentava frequentes conflitos com seu colega Adam. Brigas eram rotineiras e envolviam agressões físicas e verbais, com o consequente choro de Matthew. Diante da professora, a situação também não era lá muito agradável. Declarando ter ódio da docente, Matthew alegava que ela vivia pegando no seu pé, mesmo sem motivo aparente, e por isso enfrentava-a de vez em quando. Evidentemente, a imagem que a professora tinha do garoto era igualmente ruim, declarando ser ele um menino mimado e orgulhoso, incapaz de reconhecer seus próprios erros, e passível de chorar ou mesmo espernear por tudo.

Para analisar esse caso, a pesquisadora recorre ao pós-estruturalismo para entender como determinados discursos influenciavam Matthew na construção de suas masculinidades. Nesse caso, Keddie (2006) conclui que uma representação bastante tradicional de masculinidade – aquela forma hegemônica pautada pela dominação física – aparecia como uma referência comum a Matthew e seus colegas. Seu ideal de ser homem parecia corresponder à imagem do “machão” que revida as agressões e parte para as “vias de fato” se necessário.

Um jovem garoto da Austrália, de origem anglo-saxã: que construções de masculinidades se escondem por trás de sorrisos, brigas e choros?

Um jovem garoto da Austrália, de origem anglo-saxã: que construções de masculinidades se escondem por trás de sorrisos, brigas e choros?

Porém, iluminando justamente as contradições, Keddie (2006) contrasta tal construção de masculinidade com a tendência de Matthew chorar diante de cada desafio. Afinal, homem que é homem não chora. O resultado dessa ambiguidade é um imenso desgaste emocional em torno do garoto: ele mobilizava um discurso de masculinidade hegemônica, a fim de lhe garantir agência e poder, mas conquistava as migalhas dessa pretensão, o que, em última análise, apenas elevava seu estresse e turbulência emocionais.

E as tensões não param por aí. Apesar de desaprovar o comportamento do menino, sua professora não lhe dava tantas alternativas. O discurso oficial da escola não é propriamente o discurso da masculinidade hegemônica, uma vez que a violência, a sexualidade, a força física etc, são elementos usualmente penalizados pela instituição escolar. Porém, nos subterfúgios das relações entre Matthew e sua docente, o que reinava era justamente uma interação agressiva, pouco construtiva e certamente um obstáculo para a escolarização do garoto.

O despreparo da docente em questão para lidar com as relações de gênero – cabe adicionar que ela negava a influência das questões de gênero em sua turma e individualizava cada comportamento dos alunos – não contribuía para que ela enxergasse o quanto as tramas de masculinidades estavam marcando o cotidiano escolar, seja nos conflitos rotineiros entre os meninos (como Matthew e Adam), seja nos atritos entre a própria docente e seus pupilos.

Professora Amanda Keddie: realizou sua pesquisa na Tasmânia, dialoga amplamente com a produção australiana e anglófona de modo geral, e hoje leciona em Brisbane (Austrália).

Professora Amanda Keddie: realizou sua pesquisa na Tasmânia, dialoga amplamente com a produção australiana e anglófona de modo geral, e hoje leciona em Brisbane (Austrália).

Para Matthew, o seu choro/esperneio não era meramente uma contradição à masculinidade impositiva e agressiva que ele parecia se empenhar para construir. Era, na realidade, resultante da tentativa de alçar um patamar de poder que era constantemente amputado. Suas lágrimas derivavam de sua falta de poder. A partir disso, Keddie (2006) conclui que as masculinidades não podem ser entendidas como friamente calculadas ou racionalizadas: elas envolvem os sujeitos por inteiro, trazendo para tais construções os custos e riscos emocionais.

Sustentar uma posição de poder, portanto, não vinha de graça. Tampouco vinha… Era muito mais mobilizada no âmbito discursivo do que efetivada em termos de práticas. Esse descompasso talvez fosse o principal motor a fazer de Matthew um menino durão e ao mesmo tempo chorão. Nessa mistura, sua escolarização saía prejudicada. Como transformar-se em um aluno dedicado, esforçado e participativo quando a simples possibilidade de “ser um aluno” já esbarrava nos obstáculos de “ser um menino”?

É possível que as respostas para essa pergunta comecem a ser respondidas quando compreendermos o contexto (o “balaio de gato” a que nos referimos) que condicionam que meninos sejam “meninos”, meninas sejam “meninas”, e todos/as sejam alunos e alunas em uma relação construtiva ou não com a instituição escolar – também entendida como um sujeito na construção de masculinidades e feminilidades entre as crianças. Matthew é um caso particular de um contexto local, o que não significa que não nos permita refletir mais amplamente sobre outros garotos em outros contextos.

Um tema recorrente neste blog é a interface entre gênero e educação. O conhecimento que se tem atualmente sobre a temática é fruto de inúmeras pesquisas e estudos que, desde as últimas décadas, tentam desvendar as relações de gênero nas creches, escolas e universidades pelo país. No levantamento da produção brasileira, realizado por Marília Carvalho (2012), pode-se ter uma noção do que tem sido pensado, escrito e investigado no tocante a gênero e escolarização.

Tomando o período de 1993 a 2007, o primeiro trabalho encontrado foi a tese de doutorado de Gilda Olinto do Vale Silva, intitulada Reprodução de classe e reprodução de gênero através da cultura e defendida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, no ano de 1993. Esse pode ser considerado um dos trabalhos pioneiros sobre gênero e desempenho escolar no Brasil. Além de ter sido um dos primeiros estudos realizados – quiçá o primeiro –, o doutorado de Silva (1993), que tomou como objeto de pesquisa estudantes do Colégio Pedro II (Rio de Janeiro), antecipou várias questões que nos indagam até a atualidade.

Em uma época em que pouco se falava do sucesso escolar de meninas (leia aqui), a autora já denunciava que “no Brasil, pertencer ao gênero feminino aumenta as chances da pessoa ir para a escola e nela permanecer por mais tempo” (SILVA, 1993, p. 75, grifos da autora). Baseada no influente trabalho do sociólogo francês Pierre Bourdieu, Silva toma emprestado o conceito de “capital cultural” para concluir que, a fim de garantir sua posição de classe, as mulheres precisariam, mais que os homens, de capital cultural.

Colégio Pedro II, Rio de Janeiro: foi o palco do estudo de Gilda Olinto do Vale Silva na década de 1990.

Colégio Pedro II, Rio de Janeiro: foi o palco do estudo de Gilda Olinto do Vale Silva na década de 1990.

Trocando em miúdos, a autora já esboçava o descompasso entre as desigualdades educacionais e as disparidades no mercado de trabalho. Ela reconhece que as mulheres precisam se esforçar mais, se dedicar mais e estudar mais, para galgarem os mesmos patamares de sucesso que os homens. Na visão da autora, isso explicaria por que o desempenho escolar das meninas seria superior ao dos seus colegas do sexo masculino: elas teriam que ser melhores na escola para compensar desigualdades que lhes afetam em outras esferas.

Nesse sentido, Silva (1993) nega explicações vitimistas que atribuem o sucesso escolar das meninas a uma suposta submissão, obediência e passividade femininas. Em sua opinião, essa hipótese baseia-se na “síndrome da situação subordinada da mulher” (1993, p. 82), isto é, a mania de que em todos os indicadores sociais as mulheres teriam que estar em posição de inferioridade: mesmo quando vão bem na escola, elas o fariam pela porta dos fundos, digamos, não por serem inteligentes e esforçadas, senão por serem passivas e submissas.

Pelo contrário, a autora enfatiza que o sucesso escolar das meninas derivaria de seu próprio esforço, com vistas à transformação social. Segundo sua tese, as razões para esse sucesso seriam decorrência das atividades extracurriculares escolhidas pelas moças – que privilegiariam a cultura letrada; uma rotina de estudos mais estruturada; e também a sua autonomia e criatividade, percebida pela preferência a redações livres e a rejeição a testes e exercícios dirigidos.

Ainda que datadas, as conclusões de Silva (1993) são absolutamente válidas até hoje. “Como será possível perceber”, escreve Carvalho (2012, p. 150), “ainda são extremamente pertinentes as críticas de Silva (1993) à fragilidade teórica das interpretações do sucesso escolar das mulheres baseadas em sua situação de subordinação e numa visão da cultura escolar como feminina e, por isso, valorizadora estritamente da obediência e da submissão”.

Para concluir, ressalta-se que trazer à tona o protagonismo feminino contribui para que possamos compreender porque, apesar da discriminação sexista e do machismo (leia aqui), as mulheres conseguem se destacar no seu percurso de escolarização. É preciso mais do que alguns chavões para responder essa pergunta. E talvez a resposta comece ser respondida quando as motivações, esforços e dificuldades das garotas bem-sucedidas sejam trazidos para o primeiro plano. Em alguma medida, Silva (1993) abriu as portas para isso.

A escola é acusada de discriminação sexista justamente na época em que passa a incorporar, escolarizar e formar as garotas. Esse é o primeiro paradoxo relacionado a gênero e educação, de acordo com o sociólogo francês Bernard Charlot (2009). Continuando o debate iniciado no texto anterior, há um segundo paradoxo, absolutamente complexo e instigante: as meninas, vítimas da discriminação sexista dentro e fora da escola, apresentam os melhores resultados ao longo de sua trajetória escolar.

Se estivéssemos pensando a partir da chave que associa “grupos oprimidos” ao obstáculo que eles enfrentam na sociedade, entraríamos em colapso. Porque, seguindo essa lógica, nossas atenções recairiam sobre os meninos no tocante à escolarização. Isso, de fato, aconteceu em países do Norte global. Recentemente, lançaram um documentário alarmista nos EUA chamado The Mask you Live In sobre uma suposta tragédia que afeta os garotos. E já faz algumas décadas, nos países anglófonos, que a preocupação com o desempenho escolar dos meninos tem alimentando um discurso conservador e antifeminista, grosso modo, ao culpar as lutas feministas pelo “fracasso” dos meninos e homens.

Clássica foto que ilustra os constrangimentos ao espaço público, imputados contra as mulheres (no caso, na Itália).

Clássica foto que ilustra os constrangimentos ao espaço público, imputados contra as mulheres (no caso, uma mulher estadunidense na Itália) (Foto: Ruth Orkin, 1951).

Felizmente, a coisa é mais nuançada que isso. As desigualdades educacionais vêm aos olhos porque, entre outras, invertem a lógica predominante nos diferentes meios sociais: as meninas, apesar de toda discriminação sexista e do machismo (que tem, sim, um peso sobre suas vidas), estão superando os rapazes na escola. Essa observação não pode ser estendida para o mercado de trabalho. Lá, os homens continuam na dianteira, pois há muitos outros condicionantes que afetam a alocação das mulheres no mercado: as profissões escolhidas, as áreas valorizadas, o sexismo institucional, as possibilidades de ascensão etc.

Em todos esses casos, a escola não pode ser culpada pelas desigualdades no mercado de trabalho, conforme defende Adriana Marrero (2008), simplesmente porque não é a escola que controla o mercado! Talvez seja o caso de mudar o raciocínio e pensar que, ao contrário da maioria das esferas sociais, a escola seja um ambiente de menos discriminação. Essa constatação não anula, de forma alguma, as denúncias de sexismo e a reflexão sobre processos implícitos de desvalorização das mulheres presentes na instituição escolar.

Mas, se é verdade que a escola possa ser um ambiente bastante machista, é fato também que há outras possibilidades – positivas – para as garotas. Caso contrário, elas não apresentariam o sucesso escolar que hoje ostentam. Como entender esses processos? O que, em suma, deve estar favorecendo o desempenho escolar das garotas? Essas questões estão motivando a pesquisa educacional há décadas e estaria fora do escopo deste texto abordar a variedade e riqueza de resultados obtidos.

Apesar da discriminação presente dentro e fora da escola, as meninas apresentam os melhores resultados.

Apesar da discriminação presente dentro e fora da escola, as meninas apresentam os melhores resultados.

O que cabe ressaltar, na onda do que conclui Charlot (2009), é que o discurso universalista de que a educação é para todos/as estaria sendo levado a cabo pelas meninas. Primeiro, pois o “machismo nosso de cada dia” pode ter feito com que as mulheres, bem ou mal, se acostumassem com situações de discriminação sexista. Elas sabem que, ao saírem à rua, vão ouvir cantadas e assobios, por exemplo. A igualdade de gênero na mídia, no trabalho, na rua, nas relações afetivas, não é uma realidade e as moças percebem isso em suas experiências diárias. A novidade, talvez, seja a possibilidade de que via escolarização elas podem conquistar mais do que conseguem em um cotidiano marcado pelo sexismo.

E não vale apenas olhar o lado do “ensinar” – o que a escola está fazendo com as meninas – e sim o lado do “aprender”, isto é, o que as meninas estão fazendo na escola. Apesar da discriminação (ou motivadas pela discriminação), as garotas podem estar mobilizando seus esforços para, por meio da escola, buscar a concretização de um projeto de vida o qual se confunde com um projeto de independência e emancipação. Ao olharem ao seu redor e se depararem com a violência de gênero, as profissões menos valorizadas, a objetificação do corpo feminino etc, muitas meninas podem estar, conscientes ou não, investindo na escola como uma forma de superar tais empecilhos.

Em função das desigualdades educacionais que começam desde o início da escolarização, as mulheres são maioria nos cursos de graduação.

Em função das desigualdades educacionais que começam desde o início da escolarização, as mulheres são maioria nos cursos de graduação.

A escola é meritocrática é premia quem apresenta bons resultados. Não basta ser inteligente, ser um gênio, ser “foda”. Idealmente, tem que mostrar, provar, responder, fazer. Se as meninas fazem, elas ganham boas notas. E para fazer, elas mobilizam seus esforços. Ainda, vale mencionar que a escola não é a primeira vez na vida em que as mulheres devem fazer prova de si mesmas. No tecido social, as relações desiguais entre homens e mulheres já demandam delas um esforço sobre-humano: “A mulher aprende a viver com e contra a dominação”, destaca Charlot (2009, p. 171), “a aguentar as lógicas dominantes contornando-as por outras lógicas, ‘subversivas’”.

Em meio a tantos paradoxos, o autor encaminha a reflexão tecendo considerações sobre três pontos. Em primeiro lugar, a hipótese de que, em um mundo onde os valores são masculinos, a forma pela qual as mulheres aprendem a lidar com tais situações traz-lhe benefícios nas interações sociais. Para elas, que já aprenderam a suportar tanta coisa, é mais fácil ser tolerante a condições que para os homens soariam extremamente incômodas. Eles, por serem mais paparicados, seriam menos valentes, menos persistentes, menos responsáveis. A postura que se exige das garotas poderia, assim, acarretar um efeito positivo em sua escolarização, a qual exige compromisso, dedicação e seriedade.

Há um descompasso entre ser bem-sucedido na escola e o mercado de trabalho: suas respectivas desigualdades obedecem a lógicas distintas.

Há um descompasso entre ser bem-sucedido na escola e o mercado de trabalho: suas respectivas desigualdades obedecem a lógicas distintas.

O segundo ponto diz respeito a Razão e a inteligência de que tanto os homens quanto as mulheres são dotados/as. A diferença é que, nos meios sociais, exalta-se a tal da “sensibilidade feminina” – a noção biologizante de que as mulheres seriam dominadas por seus hormônios, o que explicaria o seu suposto descontrole, impulsividade e emotividade. Nada mais dominador e masculinista do que encerrar as mulheres na tal onipotência da TPM. Ora, na escola esses “hormônios” são o de menos. O que realmente importa é a dedicação, o estudo, o aprendizado, os quais poderiam aflorar entre as meninas, finalmente, na instituição escolar.

Terceiro ponto: quando se fala em “a mulher” devemos entender que a heterogeneidade de mulheres é bem alta, havendo também alunas que fracassam na escola. É mais do que sabido que as experiências femininas são diversas e se modificam intensamente quando em diálogo com outros “marcadores sociais” como cor/raça e idade. As mudanças sociais pelas quais as sociedades têm passado podem ocasionar formas distintas de relação entre mulheres e homens, meninas e meninos, e entre esses sujeitos e as instituições. Com o tempo poderemos dizer se esse “sucesso” feminino na escola continuará existindo ou, em caso positivo, se continuará contrastante ao “sucesso” dos meninos.

Por fim, é importantíssimo enfatizar que, ao se refletir sobre o sucesso escolar advindo de uma situação de opressão sobre as mulheres, não se está dizendo que é a discriminação de gênero que causa o sucesso escolar. Caso contrário, a fórmula ideal seria: oprime as mulheres e elas serão bem sucedidas na escola – um absurdo! “A discriminação de gênero não é a causa do êxito das moças na escola; a causa é sua atividade intelectual, o fato de que elas estudam e são inteligentes”, resume Charlot (2009, p. 173). O essencial é compreender como a discriminação sexista cria um contexto a partir do qual devemos compreender as desigualdades educacionais pesando a favor das meninas.

Quando se fala em gênero e educação, numerosas questões podem ser debatidas. Desigualdades de gênero percorreram toda a história educacional desde os primórdios e em todos os países do mundo, continuando até os dias de hoje, ainda que apresentando padrões variados ou mesmo contraditórios. Neste texto, vamos retomar um pouco do histórico do debate sobre gênero e educação para entender em que pé estamos.

De início, a escola era um espaço exclusivamente masculino, nos quais as meninas não podiam ingressar. Ou quando o faziam, eram em locais separados, frequentemente em instituições distintas. Segundo o sociólogo francês Bernard Charlot (2009), na França, berço da revolução que forneceu as bases do sistema republicano, os liceus femininos só foram criados em 1880 e sob forte resistência – o medo de que, escapando da influência da Igreja, as meninas poderiam ser mais… subversivas.

Exemplo de uma escola exclusivamente feminina em Portugal, no século passado. Nem sempre a defesa de educação para todos/as significou a mesma educação.

Exemplo de uma escola exclusivamente feminina em Portugal, no século passado. Nem sempre a defesa de educação para todos/as significou a mesma educação.

Não há dúvidas, assim, de que as desigualdades de gênero historicamente pesaram contra as mulheres. Longe de ter perdido sua importância, esse assunto ainda está em voga em dezenas de países, principalmente nas nações islâmicas, nas quais o peso do fundamentalismo religioso impõe obstáculos à escolarização delas e ao seu acesso ao espaço público no geral. Porém, a saída para esse problema não foi simplesmente incluir as garotas na escola. À medida que elas foram se escolarizando, surgiram também denúncias de que a escola as discriminava.

Esse é, de acordo com Charlot (2009), um primeiro paradoxo relativo a gênero e educação: o acesso inédito das garotas à escola ser acompanhado de denúncias de discriminação sexista. Há de se considerar que essas pesquisas sobre sexismo na escola datam de 1970, quando o feminismo se amadurecia como um movimento de massa e ingressava na academia. E com a questão de classe social, o quadro é similar: a noção de que a escola reproduz as desigualdades sociais surge lado a lado com o ingresso da população de baixa renda nas instituições de ensino.

Bernard Charlot, sociólogo francês, aponta para dois paradoxos na questão de gênero e educação.

Bernard Charlot, sociólogo francês, aponta para dois paradoxos na questão de gênero e educação.

Se não há pobres – ou mulheres – na escola, a desigualdade é evidente. O duro é compreender a coexistência aparentemente paradoxal de havê-los/as nas salas de aulas e, mesmo assim, se manter uma discrepância nas oportunidades educacionais para um e para outro. “A desigualdade permanece”, aponta Charlot (2009, p. 163), “já que os graus de sucesso ou fracasso, e as trajetórias escolares decorrendo deles, variam conforme a classe social e o sexo”.

Em todo caso, continuamos a defender o direito a educação para todas/os. Ao mesmo tempo em que afirmamos um discurso universalista, que prevê escolarização para todos os segmentos da população, desconfiamos desse mesmo discurso, pois sabemos que, na prática, ele não se efetiva. Só que, no caso do gênero, a questão é complexa porque as meninas não apresentaram, em função do sexo, um fracasso escolar em massa. Apesar das denúncias de discriminação, sexismo e machismo, elas continuaram caminhando.

Cabe retomar dois pontos para se compreender como, apesar dos pesares, as moças foram se escolarizando. Nos termos do sociólogo francês, é importante distinguir “posição social objetiva” (ser mulher na sociedade) de “posição social subjetiva” (o que eu, mulher, penso e faço com isso). Por mais que as mulheres estejam em desvantagem em inúmeros indicadores – tal como a remuneração no mercado de trabalho, representação política e índices de violência doméstica – isso, por si só, não define a experiência de cada mulher. Individualmente, elas vivenciam distintas feminilidades e se posicionam na sociedade de modos diversos: aquelas que vestem blusa roxa e saem à luta, aquelas que se expõem mais ou menos, aquelas que entram no “esquema”, aquelas que são patroas e as que são empregadas etc.

Coeducar meninas e meninos, brancos e negros, ricos e pobres, em um mesmo sistema educacional traz o desafio de compreender por que os desempenhos terminam por ser distintos.

Coeducar meninas e meninos, brancos e negros, ricos e pobres, em um mesmo sistema educacional traz o desafio de compreender por que os desempenhos terminam por ser distintos.

Na escola, não é diferente. Não basta lhes dizer que, por serem mulheres, enfrentarão mais dificuldades. Quer pelo enfrentamento, quer pelo desconhecimento, elas podem muito bem seguir com seu sonho, esforçar-se na escola e obter excelentes resultados acadêmicos, superando, inclusive, seus colegas do sexo masculino – é essa, pois, a realidade do sistema educacional brasileiro e de muitos outros países. Além disso, lembremos que aquilo que chamamos de “indivíduos”, na sociedade, são na realidade “sujeitos”, tendo alguma autonomia para tocar sua própria vida, com sua agência, para além dos tais limites estruturais.

Somado a esse ímpeto subjetivo, Charlot (2009) destaca que a escola forma, transmite conhecimentos, fornece referências, contribui na compreensão do mundo. Não basta olhar para os condicionantes que afetam meninos negros, garotas, crianças pobres, alunos deficientes etc, apenas por fora da escola – via dados e estatísticas – sem saber o que está realmente acontecendo no âmbito da interação professor-aluno. É ali que alguma relação de saber, de formação e de conhecimento pode ser construída. Ainda que existam exemplos puramente discriminatórios, a escola em geral não seleciona os estudantes por critérios explicitamente sociais: aprovados os ricos, reprovados os pobres; você é menino então ganha meio ponto a mais; desculpe, não posso arredondar sua nota porque você é pardo…

É no âmbito da relação professor-aluno e a avaliação escolar que se atribuem as notas para quantificar e qualificar a aquisição de saberes. Algo acontece para que certos grupos saiam prejudicados, para além do preconceito.

É no âmbito da relação professor-aluno e a avaliação escolar que se atribuem as notas para quantificar e qualificar a aquisição de saberes. Algo acontece para que certos grupos saiam prejudicados, para além do preconceito.

A escola, por sua vez, seleciona por critérios pedagógicos e culturais, relacionados à apropriação do saber e aquisição de conhecimento. Quem sabe, vai bem. Quem aprendeu, se dá melhor. É evidente que existe uma correlação, sustentada pelas teorias da reprodução social, entre ir bem na escola e sua origem social. Mas não podemos deixar de lado a seguinte questão: por que os grupos discriminados socialmente, dos meios populares, têm dificuldades para se apropriarem dos saberes que a escola exige? Se existe alguma relação entre ser pobre e ir mal na escola, ela é antes uma consequência dessas dificuldades. Algo está acontecendo para que tal segmento da sociedade não apresente desempenho adequado.

É aqui que complicamos a questão. Conforme deixei sugerido anteriormente, não são as meninas que apresentam o pior desempenho escola; são os meninos. Ou seja, temos uma diferença fundamental entre as desigualdades de gênero e as desigualdades de classe: esta é bastante eficiente e coerente (crianças da classe trabalhadora se escolarizam menos), ao passo que aquela não cumpre sua profecia. As mulheres, que sofrem mais opressões na sociedade em função do sexo que os homens, são o grupo mais bem sucedido na escolarização. Esse é um segundo paradoxo no debate educacional de gênero, a ser explorado em um próximo texto.

Ao contrário do que diz a sociedade sexista e machista em que vivemos, as mulheres não estão fracassando na escola. Pelo contrário, são mais bem-sucedidas que os garotos. Talvez o discurso pretensamente universalista e democrático da escola esteja sendo comprado há décadas pelas moças, as quais o levam a sério e conseguem, de fato, reverter no âmbito da Educação as desigualdades que tanto as prejudicam lá fora. Se é sempre válido suspeitar do potencial de igualdade da nossa democracia, tampouco devemos ignorá-lo por completo. Às vezes podemos nos surpreender…

O recreio é um espaço privilegiado para se estudar as crianças na escola, por estar mais distante das regras escolares e, portanto, dando mais liberdade para que as interações infantis aflorem. Assim, o recreio acaba sendo também uma oportunidade de se observar como as relações de gênero se constroem no espaço escolar.

Nessa rede de relações entre meninas e meninos que se expressa no intervalo das aulas, na qual, de modo geral, se faz menos presente os olhares e normas dos adultos, configurações das mais variadas são possíveis. O recreio torna-se palco para construções de masculinidades e feminilidades que fazem jus ao conceito de gênero: relacionais, múltiplas e associadas ao poder. Seguindo essa linha, o estudo de Tânia Cruz e Marília Carvalho (2006) procurou tecer uma etnografia do recreio escolar, descrevendo padrões de interações entre as crianças e o que eles nos diziam sobre as relações de gênero.

Na escola em que as autoras estudaram, estavam sendo relatados, pela equipe escolar, casos de “violência” no recreio. Instigadas por tal violência, Tânia Cruz foi a campo procurando enxergar que violência é essa e como ela seria praticada. Viu-se que era comum, entre meninos e meninas, interações nas quais se mesclavam agressividade com elementos lúdicos, visando à aproximação. A essa forma de se relacionar, elas cunharam a expressão “sociabilidade do conflito”.

O recreio escolar é um espaço-tempo privilegiado para se compreender interações entre as crianças na escola.

O recreio escolar é um espaço-tempo privilegiado para se compreender interações entre as crianças na escola.

Conforme vimos falando neste blog, está dada uma separação entre os sexos – diria mais: uma segregação de cunho sexista – que imputa aos meninos e meninas diferentes lugares, atividades e objetos na escola (assim como fora dela). Ora, já é consensual entre feministas e interessados/as em estudos de gênero que o binarismo está dado. Mulheres de um lado, homens do outro. Nomes, cores, brinquedos, profissões, roupas, expectativas etc, distintos. Tudo tem que ser diferente porque, afinal, eles vieram de Marte; elas, de Vênus.

A segregação sexual, na escola, se expressa por modos peculiares pelos quais meninos e meninas se aproximam. Simplesmente sentar junto com colegas do sexo oposto pode ser problemático, sobretudo entre crianças de menor idade – pois, na chamada “adolescência”, outros elementos entram em jogo na constituição do “ficar” e do namoro. Mas, entre crianças do Ensino Fundamental I, prepondera a noção da homossociabilidade, isto é, interações restritas ou preferidas entre colegas do mesmo sexo.

Assim, o que Cruz e Carvalho (2006) notaram foi que havia um distanciamento entre os sexos nos momentos amistosos (nos quais relações positivas eram construídas entre os pares) e uma aproximação proposital por meio de ações conflituosas, “que pareciam, muitas vezes, ser a única forma possível de estar juntos” (p. 121). Essa aproximação conflituosa, segundo as autoras, se constitui por três principais formas: (1) atividades turbulentas (correias, pega-pegas, perseguições) que polarizam meninos e meninas; (2) episódios de invasão (quando crianças de um sexo invadiam os espaços e brincadeiras das crianças do sexo oposto); (3) provocações verbais ou físicas, incluindo os xingamentos proferidos pelos meninos e, em resposta, os tapas das garotas contra eles.

Certas brincadeiras são preferidas por um sexo, como pular corda, e estabelecem fronteiras, as quais determinam limites e possibilidades para as interações entre os sexos.

Certas brincadeiras são preferidas por um sexo, como pular corda, e estabelecem fronteiras, as quais determinam limites e possibilidades para as interações entre os sexos.

Quem nunca foi numa escola primária e viu meninas correndo para bater em meninos? Ou o grupo dos meninos interferindo negativamente na brincadeira de pular corda praticada por elas? Ou algumas meninas atravessando o campo de futebol para atrapalhar o jogo deles? Em suma, são situações rotineiras que apontam para os limites de interações entre os sexos. Denotam, por um lado, as tais separações e como se constituem dois universos distintamente caracterizados e até mesmo polarizados. Por outro lado, apontam para as possibilidades de intersecção. Eles e elas, afinal, interagem. Mas não de qualquer forma. O conflito – e alguma dose de agressividade – torna-se constitutivo.

Vale ressaltar que o caráter agressivo que a interação conflituosa possa apresentar não é necessariamente violento. Violência, pois, depende de pelo menos três referenciais: o agente, a vítima e o observador. Naquilo que parece violento aos nossos olhos (adultos) pode se descortinar outras possibilidades, nas quais o lúdico predomina. Não que não apontem para problemas amplos da sociedade – caso contrário, o dito bullying não seria objeto de preocupação. Só que, em defesa das crianças, os sentidos que preenchem tais atividades talvez sejam outros, seja para quem agride, seja para quem é agredido.

Violenta ou não, cabe ainda refletir sobre a configuração dualista que coloca meninas e meninos em lados opostos. Bem, esse é um dos temas mais complexos dos estudos de gênero. Barrie Thorne (1993), de quem já falamos outras vezes neste blog, em sua célebre obra defende que tais conflitos, ainda que lúdicos, reforçam antagonismo entre os gêneros. E, aqui, a autora se refere tanto às oposições entre os sexos (meninas e meninos), quanto aos sentidos de gênero (masculinidades e feminilidades). Portanto, não basta juntar meninas e meninos em um mesmo espaço ou brincadeira – a chamada coeducação – porque as oposições podem persistir. A título de exemplo, mesmo juntos, pacificamente, brincando de casinha, ainda vai existir o papel do pai e da mãe, bem delimitados.

A instituição de Educação Infantil Egalia, na Suécia: uma tentativa de desgenerificar as interações entre as crianças.

A instituição de Educação Infantil Egalia, na Suécia: uma tentativa de desgenerificar as interações entre as crianças.

Diluir essas fronteiras é um esforço constante e a meta última da conhecida teoria queer. Começa nos modelos, exemplos, padrões. Passa pela escola, mídia, trabalho, família. Depende de pais, mães, educadores, da sociedade como um todo. É um processo pelo qual lutamos tanto, um sonho que é tributário do feminismo, e que enfrenta inúmeras dificuldades. Há, sem dúvida, exemplos para nos espelharmos. O mais famoso deles é a instituição de Educação Infantil, na Suécia, chamada Egalia. Lá, as distinções de gênero tendem a ser mínimas: um pronome neutro se refere às crianças (similar ao “menines”), elas vestem roupas idênticas, brincam das mesmas brincadeiras. Um paraíso queer, diríamos. Mas, saiu dali…

Vê-se, para concluir, que as fronteiras tidas como certas têm efeitos reais nas interações entre meninas e meninos, discutidas neste texto no âmbito do recreio. Longe de ser um dado fixo, natural ou essencial, baseia-se numa referência sexista que se retroalimenta na sociedade. É um lugar comum. Enfrentar tais constrições é um passo essencial para relações menos conflituosas e mais igualitárias. Entre crianças ou entre adultos. Na escola ou fora dela.

Ao menos na Educação Básica, o mercado educacional para as redes privadas já anda bem saturado. Para se expandir, esse mercado precisa encontrar alternativas. Na maré de ascensão social que tem caracterizado as camadas populares no Brasil desde a última década – o que tem sido insistentemente chamado de “nova classe média” – as escolas particulares têm encontrado um novo nicho para se adentrar.

A melhoria do nível de renda das camadas populares tem sido acompanhado do crescimento de escolas particulares em regiões de periferia.

A melhoria do nível de renda das camadas populares tem sido acompanhado do crescimento de escolas particulares em regiões de periferia.

A rigor, o fenômeno da “nova classe média” nada mais é do que um incremento da renda da população que compõe a base da pirâmide social. Chamá-los dessa forma denota um forte conteúdo ideológico, haja vista que, a despeito de se encontrarem na faixa de renda entre R$ 1.200 e R$ 5.174 (BARTELT, 2013), suas condições de vida ainda são precárias e fatores como moradia inadequada, pouco acesso a crédito e serviços públicos ineficientes se fazem presentes.

Entre eles, é marcante a escolaridade baixa que caracteriza tal setor. De acordo com Celia Kerstenetzky e Cristiane Uchôa (2013), 10,2% dos chefes de domicílio dessas famílias são analfabetos e 51,5% deles interromperam seus estudos ainda no Ensino Fundamental. Mesmo com pouca escolaridade, existe um esforço para que as gerações seguintes alcancem a escolaridade que seus pais e mães não galgaram. É nesse contexto que as escolas particulares têm ganhado importância.

Conforme o gráfico abaixo, a maioria dos/as filhos/as da “nova classe média” estudam em escolas públicas, mas existe uma proporção expressiva, em torno de 18%, que está matriculada em escolas particulares. “Com efeito, no plano da educação”, aponta Maria Alice Nogueira (2013, p. 114), “os estudiosos vêm constatando a tendência desse grupo ao uso de instituições educacionais privadas”.

Extraído de Kerstenetzky e Uchôa (2013).

Dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (IBGE), extraídos de Kerstenetzky e Uchôa (2013).

Em pesquisa realizada em Belo Horizonte, Nogueira (2013) demonstra que parte desses estabelecimentos privados de ensino se localiza em bairros de periferia e possuem mensalidades variando entre R$ 193,00 e R$ 594,00. São, no geral, instituições de pequeno porte e de baixo custo que, em alguma medida, “disputam” alunos com o setor público. Sua maior concorrência é justamente a escola pública, gratuita, e cuja frequência não depende de uma situação economicamente estável em casa para que os/as filhos/as possam acessá-la.

É justamente esse o primeiro ponto a ser desenvolvido. O consumo de escolas privadas é recente e instável. Recente, pois tais crianças/jovens são a primeira geração da família a acessar uma escola privada – seus progenitores, se o fizeram, estudaram na rede pública. Instável, porque eventuais insuficiências no rendimento mensal, ou acidentes na trajetória escolar, tendem a mover essas mesmas crianças/jovens para a rede pública. Não compensa manter um/a filho/a na rede privada se ele/a ficar colecionando reprovações, por exemplo.

O medo de que a escola pública não resguardaria condições mínimas de segurança é o principal fator para que as família de baixa renda optem pela escola particular.

O medo de que a escola pública não resguardaria condições mínimas de segurança é o principal fator para que as família de baixa renda optem pela escola particular.

Instiga-nos a pensar por que tais famílias optariam pela escola privada – e, portanto, uma despesa a mais no orçamento – se elas facilmente têm a rede pública à disposição. Estaríamos enganados se respondêssemos que a prioridade é a qualidade de ensino. No fundo, a qualidade de tais escolas não deve se diferenciar substancialmente daquilo que é oferecido no sistema público de ensino. De fato, na pesquisa de Nogueira (2013), fica claro que o que primordialmente orienta as famílias nessa escolha é a crítica de que a escola pública não oferece garantias mínimas de segurança.

De longe, o medo do envolvimento no consumo e/ou no tráfico de drogas, do risco à integridade física, da ocorrência de indisciplina, do contato com a criminalidade, entre outros, são os fatores que mais vêm aos olhos dessas famílias. Uma visão negativa das escolas públicas passa a entendê-las não como um local do aprendizado, mas como um espaço propiciador da delinquência juvenil. Nesse sentido, as famílias também apontaram a escola pública como um ambiente no qual seus filhos e filhas andariam com más companhias.

Esse conjunto de valores talvez explique, na tendência do gráfico abaixo, por que a rede privada de Ensino Fundamental tem encontrado uma fase de gradual expansão. Em vez de estar recebendo novas crianças e jovens que até então não tiveram a oportunidade de frequentar escolas, essa rede de ensina estaria, na realidade, captando estudantes das escolas públicas na medida em que uma sutil ascensão social permitiria seus familiares a sacrificar parte do orçamento em nome de uma educação melhor para a geração seguinte.

Dados dos Resultados do Censo Escolar (2002-2005) e Sinopse Estatística da Educação Básica (2006-2010), extraídos de Nogueira (2013).

Dados dos Resultados do Censo Escolar (2002-2005) e Sinopse Estatística da Educação Básica (2006-2010), extraídos de Nogueira (2013).

Nesse sentido, a qualidade do ensino também entra no jogo, embora em uma posição nitidamente secundária. Nogueira (2013) relata que o nostálgico retrato de que a escola pública de “antigamente” já teria morrido é uma justificativa presente para que, na atualidade, apenas as escolas particulares sejam vistas como as instituições que realmente possibilitam um aprendizado. As crianças não só aprenderiam os conteúdos curriculares como também “disciplina”, “regras”, “normas”, “valores” etc.

Da mesma forma, nesta lacuna se infiltram também as escolas religiosas, portadoras de tal almejada moralidade, no bojo de um setor da sociedade que crescentemente se identifica com as religiões neopentecostais, conforme discutimos no texto anterior.

Com este artigo, não se pretende jogar no lixo a escola pública e sugerir que a solução, para a escolarização das camadas populares, passa pela escola particular. Pelo contrário, devemos continuar defendendo a escola pública – para que ela seja mais inclusiva, de melhor qualidade, com melhores condições de trabalho – só que tendo em vista que, na medida em que o orçamento permite, as famílias de baixa renda tendem a optar por aquilo que, segundo seu ponto de vista, atende aos seus anseios de modo mais adequado (nada muito diferente do que a elite e a classe média tradicional já fazem…).

Por fim, esse quadro nos reitera o que já vem sido falado há tempos: enquanto não se investir maciçamente nos serviços públicos, estarão sempre se abrindo brechas para que a nossa cidadania se torne cada vez mais equivalente ao nosso papel de consumidores. E mais um direito social vai sendo progressivamente transformado em um direito de consumidor (no caso, de escolas particulares), comprometendo ainda mais o orçamento de uma família que, apesar de pertencer às camadas populares, é agraciada com um qualificativo de “classe média”.

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