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Literatura

Existe uma escrita peculiar que jorra das mãos das mulheres que poderíamos chamar de “escrita feminina”? Como essa escrita seria uma essência se a própria Mulher é, desde o inicio, uma construção social?

Literatura, Literatura feminina, autoria feminina, escrita feminina – parece problemático oferecer uma reflexão satisfatória sobre esse universo complexo. Certa vez, alguém me disse que Eufrásia Meneses (2005) de Ronaldo Correia de Brito é um conto escrito por um homem, com alma de mulher, o que parecia ter deixado a pessoa bastante empertigada. “Eufrásia Meneses”, como já estudamos nesse blog, é uma narração profunda e silenciosa que não emerge em nenhum momento na “superfície” do texto (um ultra e conflituoso monólogo interior, se é que podemos dizer assim), da mulher que dá nome ao conto. Seu “silêncio” chega até nós, nos detém, nos “interrompe” sem que possamos nos desviar dele – e eu gostaria, depois de uma série de leituras (que justamente estou fazendo em razão de um trabalho sobre esse conto) entre Butler, Levinas, Althusser e Foucault, de comparar esse “silêncio” ao discurso – nos mostrando como o próprio silêncio da narradora está atado a violência de gênero, a violência que sofre por parte do marido. Bem, voltando à colocação da pessoa, parecia difícil para ela entender como um homem poderia escrever como uma mulher, principalmente nessas situações pela qual o conto pode ser analisado, já que ele se colocou numa posição de uma mulher vítima das relações assimétricas de gênero, e, de um modo geral, num lugar psíquico feminino, escrevendo, verdadeiramente e sem possíveis diferenciações, como uma “mulher”.

Claramente, essa pessoa – que inclusive é amante da Literatura e uma crítica literária – presume (ou, pelo menos, presumiu até então) que exista uma “forma feminina” de escrever, uma “escrita feminina”, e, de outro lado, uma “escrita masculina”, no entanto, essas diferenciações se tornaram um tanto quanto confusas, pois ao se deparar com o conto do autor, a relação ontológica entre mulher e “escrita feminina” se viram desestabilizadas. Mas, me interessa essa “desestabilização” para pensar a relação ontológica e para promover uma discussão introdutória sobre Literatura (d)e autoria feminina. Eu gostaria de começar por Monique Wittig e um de seus artigos – “El punto de vista: ¿universal o particular?” – presente no livro El pensamiento heterosexual y otros ensayos (2006), para quem não existe escrita feminina. Inicialmente, Wittig nos propõe uma reflexão sobre o que consiste o “feminino” da “escrita feminina”, como poderíamos pensar esta prática através da Mulher, o produto de uma Mulher. A autora nos diz que a “Mulher” não pode ser associada a um tipo de escrita, a escrita feminina, porque ela é, desde o início, uma produção imaginária/fictícia e não uma realidade concreta, uma construção. Assim, afirmar que existe uma forma característica da Mulher escrever significa naturalizar uma espécie de escrita – a escrita feminina = escrita da Mulher – tal como a própria “Mulher” é naturalizada desde sempre. Nas palavras da autora: uma metáfora que oculta e nos impede de questionar a dominação masculina, a ficção do gênero, designado uma espécie de produção biológica particular da Mulher.

A Literatura de autoria feminina é uma resistência a ordem pela qual a escrita literária ficou restrita aos homens, excluindo as mulheres do cânone tradicional. Os resultados no interior dessa ordem são a continuação da retificação do poder pela escrita, a luta contra ele e uma escrita rumo a identidade.

De outro lado, a professora brasileira, pós-doutura em Letras, Lúcia Osana Zolin e seu artigo Literatura de autoria feminina (2003) contribui para nossa discussão esclarecendo que o cânone tradicional brasileiro até 1970 (e isso não quer dizer que ele não seja mais assim) é de ordem masculinista, impossibilitando a mulher de escrever, de poder participar do cânone literário. Lembremos, como nos lembra a autora, que o cânone é uma instituição que determina a literatura representativa, a ordem inteligível da Literatura de uma cultura, região, país, e que numa cultura patriarcal, a literatura de autoria feminina não aparece, não se torna visível. Nesse contexto, Zolin nos mostra como o feminismo e a Crítica Feminista dão visibilidade à mulher, promovendo a historicização da produção literária de autoria feminina para resgatar e reinterpretar como essa produção é por si só uma resistência ao que fundamenta o espaço da escrita falocêntrica, desmascarando e desestabilizando paradigmas, além de ter garantido a mulher um status quo e, em decorrência disso, um revisionismo crítico da literatura de autoria feminina. Assim, a desconstrução da Literatura baseada na ideologia que regula o cânone é a desconstrução mesma da ideologia, pois a partir daí se puderam criticar as narrativas centradas na figura do homem e as personagens femininas submissas e dependentes.

Observem como a Literatura de autoria feminina não é aqui uma forma peculiar de escrita literária, uma escrita feminina que tanto captaria quanto facultaria a velha ontologia da Mulher, mas a produção literária de mulheres num contexto masculinista que resiste a ideologia reguladora, desconstruindo-a ou não, mas o simples (não tão simples) fato de uma mulher escrever nesse contexto quebra o paradigma de que a Literatura é um espaço masculino. Desse modo, uma escritora pode muito bem retificar a ideologia à qual o feminismo busca colocar em xeque e essa fase, segundo Zolin (2003), é a fase feminina (feminist), onde se internaliza e retifica os padrões vigentes; outra fase é a feminista (feminist), onde, ao contrário da primeira, se contesta na escrita os padrões vigentes e se defende os direitos e os valores da minoria e por fim, temos a fase fêmea/mulher (female), caracterizada pela autodescoberta e identidade própria.

Nessa altura, me parece que uma questão que poderia surgir, e principalmente se lemos Eu não sou feminista (?), de Matheus França, que é a questão de necessariamente a fase feminista e fêmea forem feitas exclusivamente por mulheres, em outras palavras, pode parecer que essas ações política de crítica ao sistema hierárquico de gênero, do qual as mulheres são inferiorizadas, e a política da identidade feminista obviamente (ou não) são ações que só o “nós” mulheres podem realizar, isto é, nada de homens. Mas, se voltarmos ao caso de “Eufrásia Meneses”, há um “eu” masculino por trás do ato que supostamente “narra como uma mulher”, que nos interrompe com o discurso de uma mulher oprimida pelo marido; eu diria que se a fase feminina não é feita exclusivamente por homens, mas também por mulheres que internalizam e retificam a norma pela escrita, então as outras fases de suma ação política também não feitas exclusivamente por mulheres. Não faz sentido definir essas ações como ações feitas por mulheres, nós teríamos aqui uma mesma ontologia tal como “escrita feminina”, teríamos uma “ação feminina” que tanto faculta a inteligibilidade da Mulher como a clientela biológica a executar a ação.

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Em “Deve a mulher trabalhar?” (2005), trabalho de Clarice Lispector enquanto estudante do curso de Direito, a autora considera justamente que uma faculdade de Direito seja um lugar onde se aprende a aceitar as mudanças sociais e a concretização disso em leis reflete e capta o modo de sentir da sociedade. É assim que Clarice introduz o tópico em que vai apresentar sua enquete, situando-se e situando seus entrevistados, bem como o curso que estão fazendo. No entanto, a opinião dos entrevistados diante da problematização da inserção da mulher no mercado de trabalho mostra que alguns acham que a mulher deve sim trabalhar, enquanto outros acham que não, e outros ficam no meio-termo.

Para o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930 – 2002), o que justificaria naturalmente a diferença social e a divisão do trabalho entre os gêneros seria a visão social em que a própria diferenciação anatômica entre os sexos segrega os indivíduos.

A primeira entrevista, Maria Luiza Castelo Branco, defende que não existe nada que impeça a mulher de trabalhar, uma vez que ela tenha objetivos pessoais e necessidades, então é legítimo trabalhe, porém ressalta que o papel da mulher no lar é imprescindível e quando perguntada se acha que as mulheres e homens tem direitos iguais, reflete um pouco e diz: “Teoricamente têm. Mas na realidade isso é impossível. Não pelas condições da sociedade, como também, e sobretudo, pela sua própria natureza que fá-la demandar outros direitos, diversos dos que os homens aspiram” (LISPECTOR, 2005, p. 52). Claramente, percebemos que a opinião da entrevistada está entre a evolução que a faculdade de Direito representa e as ideias obsoletas, condenando a mulher a uma natureza não percebida como uma construção social, e que assim legitima sua dominação. Entretanto, como nos alerta Simone de Beauvoir em O segundo sexo: a experiência vivida (1980), a condição feminina e masculina que parecem estar numa ordem das coisas, não trata o corpo como o corpo em si, mas submetido a interferências, tabus, valores, costumes, o que significa que o corpo é um fruto social e não natural.

Essa análise da construção social dos corpos também pode ser encontrada no livro A dominação masculina (2010), do sociólogo francês Pierre Bourdieu, para quem o que justificaria naturalmente a diferença social e a divisão do trabalho entre os gêneros seria a visão social em que a própria diferenciação anatômica entre os sexos segrega os indivíduos. Essa visão social seria a construtora da diferenciação anatômica entre os sexos e este por sua vez seria o fundamento natural que alicerça a visão social.

O segundo entrevistado, Romulo Olivieri, considera que a mulher nasceu exclusivamente para o lar e para a família, não podendo cultivar nenhum tipo de trabalho, além disso, considera que o estudo deva ser na vida da mulher apenas uma ajuda para que possa educar e guiar os filhos eficientemente, e ainda, crê numa diferença intelectual entre homens e mulheres, mais frágeis em todos os sentidos. Assim, pela opinião do entrevistado, vemos que a casa é o símbolo mais forte dessa prisão, pois a mulher está fixada nela, pelo trabalho doméstico, pelos filhos, pelos cuidados que deve a estes e também pelo marido. Se a mulher tiver contato com algum conhecimento científico, filosófico etc., deve ser para ser usado exclusivamente na educação do filho, para que esta educação funcione com eficácia. O que não deixa de, mais uma vez, afirmar o feminino como prisioneiro: a mulher estuda apenas em prol do filho, para educá-lo. Além disso, Romulo considera uma diferença intelectual entre os sexos: há o intelecto superior masculino e o intelecto inferior feminino.

Para a feminista e filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908 – 1986), o corpo está sempre submetido a valores, a tabus, a leis.

A próxima entrevistada no trabalho de Clarice, Luiza Gulkis, presidente do Departamento Feminino do Diretório Acadêmico, defende que a mulher pode sim competir com o homem, superando-o em diversos casos, mas se não houver a necessidade de trabalhar no extra-lar, ela não deve trabalhar. Ainda, considera que existam profissões masculinas e femininas, dizendo que quando terminar o curso de Direito não vai advogar e sim lecionar, uma vez que considera o magistério uma profissão que se adapta melhor às mulheres. Dessa forma, como sugere Cristiane Maria Sbalqueiro Lopes em Direito de trabalho da mulher: da proteção à promoção (2006), as profissões consideradas femininas estão relacionadas ao ensino, ao cuidado, à saúde, aos serviços domésticos e às funções burocráticas de escritório.

Por fim, a resposta do último entrevistado, Virgílio Pires de Sá, é, segundo Clarice, uma opinião mais liberal, ele considera que a mulher conquistou o direito ao trabalho por meio de reivindicações justas e que não existem motivos sérios que a impeçam de trabalhar, ter filhos e conciliar muito bem a vida profissional com a maternidade. Além disso, não aceita que a mulher seja intelectualmente inferior ao homem e diz: “Que ela estude, que trabalhe, que se desenvolva” (LISPECTOR, 2005, p. 54). Isso mostra que Virgílio está atento à sociedade em que vive: ele a analisa, desmistifica o tabu de desnível intelectual entre os sexos e não está preso à ideologia da dominação masculina.

Em texto anterior, tentamos iniciar algumas análises sobre o texto “Deve a mulher trabalhar?” de Clarice Lispector, de forma que, como já dissemos, o texto se trata de um trabalho produzido pela nomeada autora enquanto acadêmica do curso de Direito, entre 1939 a 1942, integrando a coletânea Outros escritos (2005), organizada por Teresa Montero e Lícia Manzo, coletânea que traz textos iniciantes da autora em suas várias facetas: dramaturga, ensaísta, estudante de Direito, escritora, jornalista etc. Especificamente, em “Deve a mulher trabalhar?”, Clarice problematiza a inserção da mulher no mercado de trabalho, trazendo à discussão as consequências dessa inserção, os paradigmas quebrados, a organização machista da sociedade, entre outros.

Clarice Lispector sustenta em seu texto “Deve a mulher trabalhar?”, que a inserção da mulher no mercado de trabalho problematizou as relações de gênero no âmbito trabalhista e social, o “lugar” da mulher, o “lugar” do homem, as normas em “ser mulher” e “ser homem”, o “destino” maternal da mulher.

Clarice também problematiza um “eterno destino biológico” que se viu questionado pela inserção da mulher no mercado de trabalho e pela luta feminista, nos dizendo que, para a mulher, é possível continuar apenas seguindo-o, mas, por outro lado, também é possível escolher um outro caminho que a mulher possa escolher. Claramente, o “destino biológico” configura-se como um destino imutável para homens e mulheres, estabelecendo a velha assimetria nas relações de gênero, onde o homem é o chefe da família, assume o controle da política, trabalha, enquanto a mulher fica responsável pelos serviços domésticos, por cuidar dos filhos e do marido e mantém-se como símbolo da procriação. Contrapondo-se a esse “destino biológico” e graças a inserção da mulher no mercado de trabalho surge, como argumenta a autora, a “nova mulher”, problematizando as relações de gênero no âmbito trabalhista e social, o “lugar” da mulher, o “lugar” do homem, as normas em “ser mulher” e “ser homem”, o “destino” maternal da mulher.

Dessa forma, as reivindicações trabalhistas feministas, a luta por direitos iguais entre mulheres e homens no extra-lar, o descentramento do público e do privado, colocou em xeque as opressões machistas da sociedade em relação para com as mulheres, principalmente porque estas reclamaram o campo social considerado ativo, modificando, portanto, costumes, ideais e ideologias, o que a levou a conhecer a si mesma, suas possibilidades e potencialidades. Significativamente, a reflexão de Clarice Lispector em torno do “destino biológico” nos mostra que este parece ser um campo conflituoso que impõe a mulher uma opressão, que opera no interior das relações assimétricas de gênero, nas configurações sociais de “ser homem” e “ser mulher”.

Não muito longe, está a teoria feminista da filósofa francesa Simone de Beauvoir, que também questionou esse opressivo “destino biológico”, mostrando que a condição feminina quanto a masculina surgem em relações sociais, dado que, no seu O segundo sexo: a experiência vivida (1980), a autora argumenta que o sentido que assume a palavra “ser” deve ser entendida sob o dinamismo hegeliano, já que ser mulher e, portanto ser inferior, denotam uma substancialidade do ser, algo pelo qual a “pessoa” é inferior em nome do que ela é, como se a inferioridade, incapacidade ou histeria fosse natural às mulheres. Assim, sob o dinamismo hegeliano, Beauvoir (1980, p.18) nos alerta que “ser é ter-se tornado, é ter sido feito tal qual se manifesta” e a condição de ser inferior é uma condição imposta, e não, natural: alguém é inferior na medida em que outro alguém ou outro grupo o mantém assim. Essa perspectiva, claramente, fornece condições para Beauvoir compreender que a fêmea humana não nasce mulher, mas torna-se mulher, do mesmo modo que o macho humano não nasce homem, mas torna-se homem.

A revisitação do mito de Eva, durante a Idade Média, contribuiu para a associação das mulheres ao pecado e à impureza, uma vez que, tendo sido a primeira a contemplar e a comer o fruto proibido, ela está associada à desrazão, à compulsão. (Imagem: Michelangelo, O Pecado Original)

A partir dessas análises, Beauvoir fundamentará sua importante dicotomia sexo/gênero, inúmeras vezes abordada nesse blog, onde o sexo seria uma base biológica onde se inscreveriam os significados culturais, o gênero [¹]. O fato é que a interpretação cultural do corpo, como sugere a teoria feminista de Beauvoir, ou mais especificamente, do sexo desse corpo, gera e naturaliza a condição feminina bem como a condição masculina, de forma que o homem é o Um/Sujeito, a mulher é o Outro; ele é o essencial, o absoluto, enquanto ela é o inessencial. Mas, segundo a autora, é pelo Um definindo-se como Um que se define o Outro.

Ainda, nesse mesmo sentido investigativo acerca das construções deprecativas em relação às mulheres, cabe nos dizer que, apresentado sua raiz no período medieval, as formulações de pensadores e principalmente de pensadores religiosos contribuíram para revisitar e reafirmar concepções clássicas de compreensão do feminino. Dessa forma, como argumenta Robert Com Davis em Aristotle, gynecology, and the body sick with desire (1997), a ideia aristotélica de que o corpo feminino era apenas um receptáculo foi retomada por fisiologistas como Soranos, para quem toda a constituição psíquica da mulher se concentra no útero, resultando em uma redução das mulheres ao seu corpo, negando-se sua racionalidade e autonomia. Também Georges Duby em Idade Média, Idade dos Homens (2001), coloca que a revisitação do mito de Eva contribuiu a para a associação das mulheres ao pecado e à impureza, uma vez que, tendo sido a primeira a contemplar e a comer o fruto proibido, ela está associada à desrazão, à compulsão: sua má conduta justificaria tanto o sofrimento físico quanto o fato de ser governada pelos homens.


[¹] Sabemos das problemáticas da dicotomia sexo/gênero em Beauvoir desconstruída no âmbito da filosofia pós-estruturalista (esse texto e esse aqui são alguns exemplos). No entanto, não se objetivou apresentar essas problemáticas aqui, uma vez que nossa expectativa foi inquestionavelmente evidenciar uma intertextualidade entre Lispector e Beauvoir.

Recentemente, como pesquisador do Grupo Dialogus – Estudos Interdisciplinares em Gênero, Cultura e Trabalho, sob a orientação acadêmica da Professora Dra. em Estudos Literários Luciana Borges, publiquei na Revista Nome, periódico da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (FL/UFG), o artigo “Condição feminina: (re)leitura de uma produção da jovem estudante de Direito Clarice Lispector”, tentando realizar um (re)leitura do texto “Deve a mulher trabalhar?” que se encontra no estimável Outros Escritos (2005), coletânea organizada por Teresa Montero e Lícia Manzo que trazem textos inéditos e outros que já haviam sido publicados, porém de difícil acesso, de Clarice Lispector. Assim, ao longo desse e de mais um ou dois textos, tentarei apresentar algumas análises que foram feitas sobre o texto da autora.

“Deve a mulher trabalhar?” é um texto da consagrada escritora Clarice Lispector, produzido como estudante do curso de Direito. Nele, a autora aborda a problemática da inserção da mulher no mercado de trabalho, as reivindicações do direito ao trabalho além do lar, o distanciamento de um destino maternal, ou, antes mesmo, a modificação radical da figura feminina.

Em primeiro lugar, “Deve a mulher trabalhar?” é um trabalho publicado em 1941 na revista A Época, de Clarice Lispector enquanto aluna do curso de Direito, entre 1939 a 1942, na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, onde a autora aborda a problemática da inserção da mulher no mercado de trabalho, as reivindicações do direito ao trabalho além do lar, o distanciamento de um destino maternal, ou, antes mesmo, a modificação radical da figura feminina. Depois de sua abordagem, Clarice apresenta uma enquete que ela realizou entre alguns estudantes, perguntando suas opiniões sobre o ingresso da mulher no mercado de trabalho.

Lispector (2005, p. 50) começa seu trabalho assim: “Tornou-se velho o problema da mulher, embora date apenas da Grande Guerra, tanto foi ele visado e estudado. Deve ou não deve ela estender suas atividades pelos vários setores sociais? Deve, ou não, voltar suas vistas também para fora do lar?”. Nesse sentido, a autora enxerga de um lado, o eterno destino feminino, e do outro, a “nova mulher” que escolhe livremente seu caminho. De um lado, a casa, os filhos e o marido, exigindo abnegação constante dessa mulher, do outro lado, a evolução dos costumes, a quebra do eterno destino biológico.

Clarice usa de um momento de crise econômica, que inquestionavelmente clamam a mulher para o mercado do trabalho, para mostrar as consequências desta crise entre as relações de gênero. Essa crise, sob o nosso olhar, pode ser na ou a própria organização da Revolução Industrial, a considerar pela data do texto e pela pertinência de que nessa data o número de mulheres e menores de idade cresce progressivamente, uma vez que de fato, como sugere Gomes citado Cristiane Maria Sbalqueiro Lopes (2006, p. 412) em Direito de trabalho da mulher: da proteção à promoção: “o emprego de mulheres e menores na indústria nascente representava uma sensível redução do custo de produção, a absorção de mão-de-obra barata, em suma, um meio eficiente e simples para enfrentar a concorrência. Nenhum preceito moral ou jurídico impedia o patrão de empregar em larga escala a mão-de-obra feminina e infantil”.

Na Revolução Industrial, o número de mulheres e menores de idade cresceu significativamente nas indústrias, umas vez que representavam mão-de-obra barata, gerando mais lucros para os empresários.

Esse espaço criado pela Revolução Industrial trata-se, portanto, de um espaço onde o que está em jogo é a maximização dos lucros, a mais-valia, já que mulheres e crianças como proletariados ao invés de homens, proporcionam aos seus respectivos patrões lucros altos, enriquecimento rápido e a baixos custos. Dessa forma, os homens começam a diminuir sua participação no mercado de trabalho, ficando desempregados e assistindo a uma possível inversão social. Frente a isso, Lopes (2006) argumenta que a hierarquia machista usará de justificativas morais como a preservação da organização sexual e da família, como aquelas reivindicadoras do espaço masculino e da organização machista da sociedade.

Desse modo, essa inversão social ameaça a organização tradicional da família e a autoridade do marido, assim Lopes (2006) destaca que até então o casamento funciona como um contrato conjugal de restrição, ele solidifica um contrato em que a esposa fica responsável pelas tarefas do lar e o marido fica responsável pelas tarefas no extra-lar. Significativamente, nessa organização, a mulher “venderia” sua “liberdade” e em troca é sustentada pelo marido, a mulher torna-se um objeto na mão do seu “senhor”, é reificada, direcionada ao privado, enquanto o homem é direcionado para o público.

A favor dos homens desempregados, daqueles preocupados com o desemprego, da concorrência, e da organização da sociedade onde o homem é soberano, algumas leis surgiram como a de que a mulher casada deveria ter uma autorização do marido para trabalhar, não permitia que ela trabalhasse à noite e estabelecia restrições quanto ao tipo de serviço, por exemplo. Assim, Lopes (2006) nos alerta sobre as próprias leis, proteções, que se dão no âmbito da igualdade de gênero e das relações trabalhistas, pois muitas têm efeitos aparentes no que diz respeito à proteção e aos direitos das mulheres, necessitando de uma análise histórica que as constituiu.

Livro dos Homens (2005) de Ronaldo Correia de Brito, onde o autor conta as sagas dos nordestinos.

Eufrásia Meneses é o nome do segundo conto do Livros dos Homens (2005), de Ronaldo Correia de Brito, onde a protagonista, Eufrásia, reflete sobre sua vida, sua relação com seu marido opressor, seu filho, suas angústias e sobre a seca do sertão nordestino. O autor do conto, Ronaldo Correia de Brito, nasceu no Ceará, em 1950, além de escritor, é crítico, jornalista e autor de várias peças de teatro. Para Carlos Santana, no seu artigo publicado em 2010, Introdução à leitura de Livros dos Homens (2005), de Ronaldo Correia de Brito (1950 -), os contos de Brito neste livro se tratam de um sertão nordestino atemporal, cruel, onde quase sempre aparecerá um corpo imolado, machucado; as mulheres na literatura de Brito são marcadas ou pela submissão ou pela revolta, aceitando ou rompendo seus destinos.

Assim, o monólogo realizado pela protagonista em Eufrásia Meneses pode ser analisado como um monólogo sobre sua prisão enquanto mulher frente a um homem agressivo, rude, a uma casa que lhe impõe uma moral, a um destino que lhe parece imutável. Já é fim de tarde e Eufrásia está sentada, como faz sempre, pensando sobre sua vida e ao mesmo tempo capturando elementos exteriores, é o cheiro de carne apodrecida do gado morto, é o bater de portas se fechando, o balido das ovelhas, a magreza dos animais, a fome, o sol escaldante etc. Brito parece fazer de propósito essa visibilidade de um contraste entre o ambiente exterior e o interior da personagem, sua “vida seca”, a habitação de um mundo de ausências, de mutilações, de rudeza.

Ronaldo Correia de Brito (1950 - ) mostra em seus contos um sertão nordestino atemporal e cruel, onde as personagens estão carregadas de dureza ou em contato com ela.

Eufrásia descreve a casa em que mora, é imensa, branca e alberga a alegria dos seus antigos donos, carregada com os retratos deles nas paredes. Segundo a protagonista, a casa os julga por seus atos, os vigiam, os condenam, defendem a moral dos antigos senhores, de quem seu marido é herdeiro. Desse modo, a casa cheia de lembranças se mostra como símbolo de violência, de perpetuação de uma certa moral, segundo a narração da protagonista, a casa guarda o peso cruel da presença dos antigos donos que a abandonaram e cabem a eles agora perpetuar uma herança de estirpe e quando ela pensa em outro homem a casa a reprime e Eufrásia, segundo seu discurso, é escrava dessa casa, é prisioneira dessas pessoas mortas que se nutrem dela. A casa, portanto, vigia e pune ao mesmo tempo seus moradores atuais, quando Eufrásia pensa no “outro”, ela está desfazendo a herança moralista dos antepassados e por isso é punida tão severamente, é interferindo em seus sonhos e gritando com todas as suas vozes que os antepassados castigam Eufrásia, eles precisam lembrar que agora ela é Eufrásia Meneses, casada com um Meneses, tem que manter seu compromisso para com ele, moralidade e fidelidade.

Ela fala sobre ser o objeto de prazer do marido: “Minhas veias guardam um resto de vida, alimento do meu marido. Ele deita sobre mim, funga, rosna, machuca-me sem me olhar no rosto. Depois cai para o lado. Contemplo o telhado e toco, com as pontas dos dedos, o sêmen morno que molha o lençol” (BRITO, 2005, p. 19). Pelo excerto fica claro que Eufrásia não é mais que um objeto nas mãos do marido, é a escrava e o objeto sexual, é onde ele realiza sua posse plena, sua dominação, seu poder. Pierre Bourdieu em A dominação masculina (2010) esclarece que a relação sexual é em si uma relação social de dominação, tornando-se o sexo, para os homens e sua construção da virilidade, um ato agressivo, de posse, de apropriação, de conquista orientada para a penetração e o orgasmo. Assim, o marido de Eufrásia deita sobre ela, fica por cima, numa oposição entre ativo/passivo, que segundo Bourdieu, é a posição considerada normal, onde a vagina não vista somente como “vazia”, é também o inverso, o negativo do falo.

Outro aspecto importante no conto é o casamento, se torna evidente pela narrativa da protagonista, que certas tarefas se naturalizam, certos benefícios cobrem o homem, ela cuida do filho ensina o “pranto e a saudade” e ele a “dureza e coragem”, também é obrigação dela acompanhá-lo, assim como fez quando se casaram. A escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir em seu O Segundo Sexo (1980) nos diz que o destino socialmente proposto à mulher é o casamento, é através dele que a mulher passará a integrar a coletividade, se não se casa, transforma-se socialmente em resíduo, o casamento, portanto (antes, durante e depois) é radicalmente diferente para os dois sexos, a mulher se torna praticamente a vassala do homem, é ele o “chefe da família”, é dele que ela recebe um nome e é encarnada aos olhos da sociedade. Beauvoir escreve:

Ela toma-lhe o nome, associa-se a seu culto, integra-se em sua classe, em seu meio; pertence à família dele, fica sendo sua ‘metade’. Segue para onde o trabalho dele a chama, é essencialmente de acordo com o lugar em que ele trabalha que se fixa o domicilio conjugal; mais ou menos brutalmente ela rompe com o passado, é anexada ao universo do esposo, dá-lhe sua pessoa, deve-lhe a virgindade e uma fidelidade rigorosa. (1980, p. 169)

Para Simone de Beauvoir (1908 - 1986) o destino que a sociedade propõe tradicionalmente à mulher é o casamento e, ainda hoje, o casamento se apresenta de maneira radicalmente diferente para o homem e para a mulher.

Adiante, Beauvoir (1980) dirá que o casamento outorga ao homem a síntese feliz, e pela sua percepção de repetição, imanência e transcendência, o homem transcende, a mulher fica sob a repetição e a imanência, o homem conhece o progresso, a mudança, tem uma vida política, casa-se quando se cansa de dispersar através do tempo e do universo, é ele quem funda um lar e quando chega a noite do serviço, como é o caso descrito por Eufrásia, retorna a sua casa onde sua mulher cuida da limpeza dos móveis e dos filhos. Assim, o destino da mulher torna-se repetitivo e imanente, longe de qualquer transcendência, ela mantém e sustenta a vida em sua pura e idêntica generalidade, perpetuando a espécie imutável, a passiva, a reprodutora, a receptora de sêmen, o objeto sexual, assim seus dias asseguram essa mesmice, no seu lar, com as portas fechadas, ela só alcança a coletividade através do esposo.

Eufrásia continua sentada ainda refletindo, o filho que está deitado dormindo em uma rede, é ao mesmo tempo o que ameniza sua dor e será também sua vingança contra esse marido bruto, ela vai educá-lo do jeito dela. Um dos vaqueiros vem lhe avisar que seu marido não retornará esta noite, há uma festa perto dali, onde, segundo ela própria, se ouvirão até de madrugada os gritos de prazer e a música. Eufrásia continua seu monólogo, seu discurso psicológico, discurso do silêncio, do fluxo de consciência, assim conforme nos esclarece Santana (2010), a voz audível da protagonista não está presente em nenhum momento do conto, ela não questiona verbalmente sua condição, apenas vai remoendo seus pensamentos pelas tardes quentes e fatigantes do sertão. Ela é sem dúvida mais um corpo mutilado exposto pelos contos de Brito, não fisicamente, mas sem dúvida, psicologicamente.

É possível que o tamanho do cérebro de uma pessoa determine se ela é mais inteligente do que outra?  A intelectualidade estaria ligada ao sexo? E o apreço por ser dominado também estaria relacionado ao sexo? 

A escritora Virginia Woolf (1882 - 1941) também contribui muito para a luta feminista.

Em 1920, Desmond MacCarthy, sob o pseudônimo de Falcão Afável, publica uma resenha na revista New Statesman sobre o livro Our Womem: Chapters on the Sexdisvord, coleção de ensaios do romancista Arnold Bennett, onde este aponta que as mulheres são intelectualmente inferiores aos homens e gostam de ser dominadas por eles. Virginia Woolf, famosa escritora inglesa, imortalizada principalmente por seus livros Mrs. Dalloway (1925) e Orlando – uma biografia (1928), também pela sua luta feminista e sua obra tão citada nesse campo, Um teto todo seu (1929), não deixou de lado a resenha do Falcão Afável e resolveu respondê-lo, culminado assim em várias respostas um para com o outro, onde vemos uma discussão atemporal que encerra a mulher numa condição inferior e que Virginia Woolf consegue “reduzir ao absurdo” essa verdade fabricada, como diria Foucault.

Ao descrever o livro de Arnold Bennett e a partir de suas ideias, Falcão Afável acirra uma discussão e mostra seu lado machista, androcêntrico e sexista. Ele considera que, embora, “seja verdade que uma pequena porcentagem das mulheres seja tão inteligente quanto os homens inteligentes, o intelecto é uma especialidade masculina” (WOOLF, 1996, p. 22), ou seja, a intelectualidade é uma característica inata ao sexo masculino, como se estivesse numa “ordem das coisas”, numa “ordem natural”, o homem ser mais inteligente do que a mulher. Além disso, citando Arnold Bennet, o Falcão Afável transcreve que: “não apenas que atualmente as mulheres como um sexo adoram ser dominadas, mas que por séculos, se não sempre elas continuarão ser dominadas” (p. 23).

Para a feminista Simone de Beauvoir (1908 - 1986) mesmo que o corpo da mulher seja biologicamente mais fraco em relação ao corpo do homem, isso não afirma um destino imutável nem tampouco justifica condições de subordinação.

O grifo é meu! E ao lermos a frase percebemos que uma naturalização de uma condição sob um aspecto biológico, em primeiro lugar repousaria, nesse contexto, sobre a fêmea humana a inferioridade intelectual e também o desejo de ser dominada. Não obstante a isso, vamos observar uma análise da famosa escritora e feminista Simone de Beauvoir em seu ilustre O Segundo Sexo (1980), em que sábios materialistas “imbuídos da teoria do paralelismo psico-fisiológico, procuraram estabelecer comparações matemáticas entre organismos masculinos e femininos e imaginavam que essas medidas definiam imediatamente suas capacidades funcionais”. Beauvoir cita um exemplo em que pesquisas foram feitas para se saber o peso médio do encéfalo feminino em relação ao masculino e essa verificação comprovar a hipótese de que o homem seria superior intelectualmente em relação a mulher, dessa forma os resultados e as “discussões engenhosas” validam a hipótese.

Mas é claro, esse resultado não comprova nada, poderíamos chamá-lo como sendo parte de uma biologia socializada como coloca Pierre Bourdieu em A dominação masculina (2010), onde uma matematização do corpo é feita para se naturalizarem certas opressões, são feitas construções sociais naturalizadas e não só nesse caso é que vamos assistir o seu uso, e sim em diversos outros. A fisiologia não responde, portanto à questão da diferença intelectual entre o homem e a mulher e para Beauvoir esse paralelismo psico-fisiológico já foi há muito tempo vencido; “o homem”, ela escreve citando Merleau-Ponty, “não é uma espécie natural: é uma idéia histórica”.

Assim, Virginia Woolf, ao responder ao Falcão Afável, o interroga como ele explicaria então a produção, no século dezessete, de mais mulheres notáveis do que no século dezesseis, o dezoito mais que o dezessete e o dezenove mais do que os outros três juntos. Para a escritora não há nada em suas colocações que legitime a condição em que ele descreve a mulher e tão pouco os dados da própria história estão em seu favor. A autora ainda cita nomes como Jane Austen, Emily Brontë e Safo.

São naturalizadas as condições de frágil, histérica, incapacidade intelectual, o prazer por ser dominada, sob a mulher.

O que torna interessante nessa primeira discussão entre os dois é justamente essa condição naturalizada já mencionada; para Beauvoir (1980) os “dados da biologia” devem ser lidos à luz de um contexto ontológico, econômico, social e psicológico, a mulher é direcionada à categoria do “Outro”, o homem do “Sujeito”. Sendo o Outro, o inessencial, é colocada como mais fraca e para isso cria-se um destino biológico subserviente e inferior, onde a opressão é naturalizada. Se é que podemos ignorar o dinamismo biológico entre os corpos de diferentes homens e diferentes mulheres e partimos da premissa de que a mulher é mais fraca biologicamente do que o homem, em razão de possuir menos força muscular, glóbulos vermelhos e capacidade respiratória, recusamos, como estabelece Beauvoir, que isso seja capaz de criar um destino imutável para ela, não são o suficiente para definir uma hierarquia entre os sexos, mantê-la como o Outro. O que acontece é que a essa “fraqueza” lhe adicionam a histeria, a incapacidade, a instabilidade, a subserviência.