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Pessoalidades

Dizem que é despolitizada, dizem que é bagunceira, dizem que é promissora. A despeito da perspectiva adotada, algo se diz sobre a geração de jovens – entre os quais me incluo – que nasceram entre finais da década de 1980 e início de 90, porque esses mesmos jovens, desde as manifestações do ano passado, conseguiram deixar uma marca na história recente do Brasil. Vale questionar: que jovens são esses? De onde eles vieram? E que marcas eles deixaram ou ainda vão deixar? Neste texto, faço dessa geração de jovens em torno de 20 anos de idade o meu objeto de reflexão.

Sem pretender uma abordagem categórica ou tipológica, procurarei caracterizar minha geração a partir de acontecimentos que marcaram meu amadurecimento e, creio eu, dos meus contemporâneos, sobretudo jovens de classe média oriundos de contextos urbanos. Por mais complicado que seja demarcar os limites de uma geração, posso afirmar, sem receio, que meu tempo de vida se confunde, pelo menos em parte, com o início de um novo intervalo geracional, pelos fenômenos que descrevo abaixo.

A queda do muro de Berlim inaugurou uma nova era na história do mundo. Para nossa geração, foi o que acompanhou nosso nascimento.

A queda do muro de Berlim inaugurou uma nova era na história do mundo. Para nossa geração, foi o que acompanhou nosso nascimento.

Nasci no mesmo ano em que o muro de Berlim caiu. Enquanto usava fraldas, a União Soviética entrava em colapso. Ela deixava de ser uma referência viva e atual nas aulas de história que eu passaria a frequentar anos mais tarde. Em outro plano, o Brasil dava seus primeiros passos dentro do regime democrático. A Constituição de 88, nossa irmã de berço, foi se desdobrando em marcos dessa nova redemocratização. Eram tempos de mudanças, de quebras de paradigmas e de ruptura de velhas ordens. Visto por cima, esse foi o nosso pano de fundo.

Crescemos ouvindo o discurso quase panglossiano de que vivemos no “melhor dos mundos possíveis”. O consolidado capitalismo foi colocado como uma alternativa superior ao comunismo, assim como a democracia com relação à ditadura. Nossos pais e mães – guerreiros e guerreiras – derrubaram o regime militar, modernizaram os costumes, produziram arte popular bastante erudita e, de cortesia, ainda estabilizaram a moeda como último legado para seus filhos e filhas. Mimados pela “nova ordem mundial”, o que nos restou foi navegar na crista da onda, cuidar de nossas vidas, passar no vestibular, curtir a vida digital. Eles lutaram, eles suaram, eles sofreram. Nós, herdamos.

A vitória do Lula nas eleições presidenciais de 2002 trouxe um novo momento para a nação brasileira. Mas, para nós, ainda fazia pouco sentido.

A vitória do Lula nas eleições presidenciais de 2002 trouxe um novo momento para a nação brasileira. Mas, para nós, ainda fazia pouco sentido.

Já na década de 2000, assistimos a dois eventos marcantes que, para crianças entrando na puberdade, ainda faziam pouco sentido: a vitória do Lula nas eleições presidenciais e, um pouco antes, o atentado de 11 de setembro. Recordo-me de estar brincando na casa da minha vizinha quando vi, na televisão e em qualquer canal, aquelas imagens dignas de uma produção de Hollywood. O choque da tragédia nos Estados Unidos contrastava com a celebração da chegada de um operário ao poder. O PT era, sem dúvida, uma referência nacional. Mas não para nós, que nunca tivemos um apego pessoal ao histórico de lutas do partido e nem lembranças das greves do ABC.

Como se não bastasse, ouvíamos com frequência que éramos uma geração despolitizada, acomodada e indiferente. Pois, no plano político, é fato que crescemos sem vislumbrar grandes alternativas, lideranças ou perspectivas. Não conhecemos a tortura, a inflação ou a Guerra Fria. Por outro lado, cabe lembrar que nossos pais e mães tampouco vivenciaram a Segunda Guerra, o fascismo ou a crise de 29. E nem por isso eles negam sofrimentos que possam ter experimentado em sua trajetória de vida. Nós também. Afinal, a década de 1990 e a virada do milênio foram períodos em que a qualidade de vida nas metrópoles se deteriorou intensamente com o aumento da violência urbana e da poluição atmosférica, visual e sonora. Ainda, testemunhamos a precarização das condições de trabalho no mercado que aos poucos temos adentrado, com as reformas na previdência, o florescimento da especulação financeira e imobiliária, as privatizações de serviços públicos e a onda de terceirizações e contratos na forma de pessoa jurídica.

Os jovens de hoje, dentro dessa democracia com ares autoritários, convive com legados que já eram para ter sido eliminados. Tornam, pois, a atual geração mais desconfiada do que lhe foi vendido.

Os jovens de hoje, dentro dessa democracia com ares autoritários, convive com legados que já eram para ter sido eliminados. Tornam, pois, a atual geração mais desconfiada do que lhe foi vendido.

Nesse sentido, somos filhos de uma democracia que nos foi prometida e que, ao mesmo tempo, nasceu deformada. Em tendência oposta ao resgate das eleições diretas e o enterro da censura, as instituições democráticas no Brasil não se fortaleceram como deveriam. Consequência: temos vivenciado, desde cedo, tanto o legado da ditadura que se personifica na atuação policial, na governabilidade autoritária e nas dúvidas sobre o nosso passado, quanto as reformas neoliberais e a degradação ambiental que tornam incerto (e indesejável) o nosso futuro.

Esse contexto é crucial para se compreender um pouco quais são os referenciais de jovens que, como eu, pretendem seguir com o projeto democratizante outrora iniciado, e que têm adotado estratégias como a mobilização via redes sociais, a retomada de passeatas frequentes nas ruas e o reforço desse sonho de se fazer algo. Guardadas as devidas proporções, as Jornadas de Junho de 2013 são o nosso Maio de 68. Independentemente de qualquer vitória ou derrota, foram as manifestações do ano passado que simbolicamente nos deram a esperança de acreditar em nossa geração.

Já dizia Gonzaguinha que é a juventude quem não está na saudade. Em parte, é verdade – essa ideia só não se aplica aos jovens que têm saudade daquilo que nunca viveram, como os partidários do ARENA ou os grupelhos neonazistas. À parte disso, fica a seguinte indagação: se não temos saudade do que existiu antes de nós, até que ponto vai o nosso desapego? Pois em uma democracia capitalista, que nos foi ofertada como uma dádiva, o que se nutre não é um sentimento de apreço ou orgulho, mas a profunda desconfiança em torno do que nos foi ofertado e se isso realmente nos apetece. Parece que não.

Em todo o planeta, mobilizações encampadas por jovens (como nas passeatas na Turquia, na foto) dão o tom dessa década e ilustram quais questionamentos estão sendo pensados e debatidos nas redes socias e nas ruas.

Em todo o planeta, mobilizações encampadas por jovens (como nas passeatas na Turquia, na foto) dão o tom dessa década e ilustram quais questionamentos estão sendo pensados e debatidos nas redes socias e nas ruas.

Fazendo paralelos com o restante do mundo, são os jovens da atualidade que têm impulsionado a maré de movimentos sociais de caráter apartidário e horizontais, conectados por meio das redes sociais e voltados para a ocupação e retomada de espaços públicos, sejam as praças ou as ruas. A juventude, hoje e sempre, é um fenômeno denso e complexo, objeto das mais variadas reflexões – Castells diz que os jovens não acreditam mais nos partidos; Žižek comenta que já chegou ao fim “o casamento da democracia com o capitalismo”; Arantes, há três anos, antecipou que estávamos no início de uma “década quente”, entre outros.

É fato que a nossa geração terá de dar resposta para os dilemas que vieram com o novo milênio. Em âmbito nacional, a questão gira em torno do que fazer com essa democracia. Além disso, os chamados “novos movimentos sociais” (que eram “novos” na década de 60) estão se desdobrando continuamente, abrindo um flanco para outras vozes. Já no contexto internacional, o crescimento socioeconômico do dito Terceiro Mundo tende a colocar em questão a hegemonia euro-americana, dando margem para que velhas configurações de poder, coloniais do jeito que são, sejam alteradas a patamares até então desconhecidos.

Continuamos, porém, sem responder a pergunta que dá título a este texto. Não ouso respondê-la porque é impossível prever as consequências em longo prazo dessa combustão gerada por avanços tecnológicos, manutenção de antigas hierarquias, insatisfação nem sempre canalizada e a incerteza do que mais poderíamos usar para caracterizar esse caldo. Vale reiterar que essa geração de jovens não está isolada e depende tanto dos mais velhos quanto dos mais novos, pois é nesse processo contínuo que se constrói a mudança histórica. A questão é para onde ir e faltam análises para tantos fatos. Na dúvida, é melhor vivê-los.

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Na última quarta-feira, dia 09 de outubro de 2013, aconteceu o seminário Educação em Sexualidade e Relações de Gênero na Formação Inicial Docente no Ensino Superior, organizado pela UNESCO em parceria com a ONG ECOS (Comunicação em Sexualidade) e sediado na Fundação Carlos Chagas (FCC), em São Paulo.

Foi uma excelente oportunidade para se discutir os desafios da inclusão das temáticas relativas a gênero e sexualidade – entre elas diversidade sexual, homofobia, transfobia, construções sociais do masculino e do feminino – na formação inicial em Pedagogia e Licenciaturas pelo Brasil. Dezenas de acadêmicos, representando grupos de pesquisa por todo o território, se reuniram com entidades da sociedade civil organizada, além de representantes de órgãos estatais.

Sede da Fundação Carlos Chagas (FCC), em São Paulo, local onde o evento foi realizado.

Sede da Fundação Carlos Chagas (FCC), em São Paulo, local onde o evento foi realizado.

O dia de atividades foi sobrecarregado, com quatro mesas-redondas no período de apenas uma manhã e uma tarde. Após uma rápida abertura, contamos com uma mesa intitulada “Sexualidade e gênero: avanços e desafios”, coordenada por Sandra Unbehaum (FCC). Nessa mesa, Maria Rebeca Otero Gomes (UNESCO) destacou as contribuições da UNESCO no debate em pauta, fala que foi complementada por Elisabete Oliveira (ECOS) na apresentação das Orientações Técnicas de Educação em Sexualidade para o Cenário Brasileiro, documento ainda em fase preliminar que foi traduzido e adaptado a partir de material produzido no estrangeiro.

Destaco, nesse primeiro momento de debate, a fala de Denise Carreira (Ação Educativa), que fez um rico balanço sobre o tema, enfatizando a necessidade de fazer frente ao avanço da onda conservadora patrocinada pelos grupos fundamentalistas religiosos. Entre outras, Carreira ressaltou a necessidade de “judicializar” a questão, até porque “materiais educativos produzidos a partir de participação civil e com dinheiro público não podem ficar parado nos ministérios”. Ainda, a pesquisadora ressaltou a importância de o Estado impor limites reais ao avanço religioso, em prol de sua laicidade.

Mesa-redonda na qual foram relatadas experiências da inclusão de gênero e sexualidade em suas universidades, por Cláudia Vianna, Cris Cavaleiro e Paulo Rennes.

Mesa-redonda na qual foram relatadas experiências da inclusão de gênero e sexualidade em suas universidades, por Cláudia Vianna, Cris Cavaleiro e Paulo Rennes. (Foto: ECOS)

Em seguida, contamos com duas mesas-redondas que ilustraram as experiências de acadêmicas/os na implantação de tais temáticas nos currículos de suas respectivas universidades. Na primeira delas, coordenada por Maria Cristina Cavaleiro (UENP), a professora Cláudia Vianna (do grupo de pesquisa do qual faço parte, na USP) contou sobre inserção do debate na Faculdade de Educação, destacando a vitória de ser incluído gênero em pelo menos parte das aulas ministradas em uma disciplina obrigatória para a licenciatura. Porém, o tom geral das falas, que contaram também com Maria Eulina Carvalho (UFPB), Jimena Furlani (UDESC) e Paulo Rennes Marçal Ribeiro (UNESP Araraquara) demonstrou o quanto as tentativas de se pautar o tema dependem de iniciativas individuais que, no fim das contas, podem se reduzir à criação de uma disciplina optativa e não resultarem em uma real inclusão no currículo.

Sobre essas mesmas preocupações, em outra mesa, desta vez coordenada por Helena Altmann (Unicamp), ouvimos Célia Rossi (UNESP Rio Claro) narrando um pouco de sua experiência na qual se ressaltou que a entrada de gente mais jovem (em idade assim como em ideias) tem arejado a academia, Iracilda Carvalho (UnB), Jane Felipe de Souza (UFRGS) – que nos surpreendeu porque em sua universidade as resistências a gênero e sexualidade foram mínimas (há de se destacar que a UFRGS, com nomes de peso como Guacira Louro, foi pioneira na criação de grupos de estudos sobre gênero e educação, em 1990). Por fim, ouvimos também Eliane Maio (UEM) falando do enorme interesse que há por parte de professores/as em buscarem formação continuada.

Representação da UNESCO no Brasil, responsável pelo evento. A UNESCO, pela sua importância, nome e relativa independência do governo, tem um papel importante na difusão de tais temáticas.

Representação da UNESCO no Brasil, responsável pelo evento. A UNESCO, pela sua importância, nome e relativa independência do governo, tem um papel importante na difusão de tais temáticas.

A última mesa-redonda, por sua vez, foi uma tentativa de sintetizar os principais desafios e abrir o debate para a participação da plateia. Intitulada “De que forma a educação em sexualidade e gênero está sendo incluída na formação docente?”, ouvimos Ivany Nascimento (UFPA), Fernanda Alzuguir (UERJ) e novamente Cris Cavaleiro (UENP) – quem, com sua fala deliciosamente ácida, chamou a atenção para outros determinantes do trabalho docente, como a sobrecarga e a pressão para publicação, que constrangem a permeabilidade dessas “novas” temáticas no meio –, além de Helena Altmann (Unicamp) que, entre outras, nos lembrou que a ausência de uma disciplina obrigatória sobre gênero em determinada universidade significa que não haverá contratação de docentes especializados no assunto.

Antes de abrir para o público, Jorge Lyra (UFPE) fez uma ótima fala de fechamento, apontando para o quanto a inclusão das temáticas dependem de esforços individuais, nos quais um ou outro docente age como mártir para que gênero e sexualidade seja uma realidade na formação inicial. Ainda, Lyra foi enfático ao afirmar que o Ministério da Educação esteve ausente da discussão, apesar de ter sido convidado, o que evidencia sua negligência a essa agenda.

Quando se abriu para a participação do público, vimos o quanto estiveram presentes outras entidades: o Núcleo Pagu (Unicamp), as secretarias municipais e estaduais da Educação de São Paulo, o Ministério da Saúde, o Ministério dos Direitos Humanos e, destaco, uma representante da ONG Católicas pelo Direito de Decidir com uma linda fala sobre o quanto a interface gênero e religiosidade é deixada para escanteio, apesar das crenças religiosas atravessarem de cabo a rabo a concepção de mulher e homem na sociedade brasileira.

Abertura do debate para o público, a partir da qual diferentes vozes - de entidades da sociedade civil, organismos estatais e acadêmicos - puderam conversar.

Abertura do debate para o público, a partir da qual diferentes vozes – de entidades da sociedade civil, organismos estatais e acadêmicos – puderam conversar. (Foto: ECOS)

Em uma curta fala, comentei da dificuldade de se inserir tais temáticas nas faculdades particulares, as quais, querendo ou não, correspondem a 75% ou mais da formação de docentes no Brasil. São nessas instituições que se concentram a massa do ensino superior brasileiro, bem como a massa de professoras/es formadas/es, que vão lecionar para a massa dos/as estudantes em nível básico. No debate, apenas ouvimos docentes de universidades públicas e, mesmo assim, sem uma relação direta com o âmbito das políticas públicas.

Procurando finalizar com encaminhamentos, Sylvia Cavasin (ECOS) apresentou a Rede de Gênero e Educação em Sexualidade (REGES – para saber mais, acesse aqui) e, em uma espetacular conclusão, Sandra Unbehaum tomou novamente a palavra e fez um balanço de avanços, desafios e fraquezas.

Após enfatizar alguns avanços (os marcos normativos, a diversidade de ministérios e secretarias, os programa de formação continuada, o florescimento de núcleos de pesquisa em universidades), Unbehaum comentou do quanto o debate está pouco articulado ao campo da Educação como um todo; primeiramente, porque quem trabalha com Educação geralmente não tem nenhum olhar para gênero e sexualidade; em segundo lugar, porque formuladores de políticas públicas, definidores de orçamento etc, costumam estar ausentes do debate, o que significa que, no fim das contas, “estamos dialogando entre nós mesmos”.

O evento valeu, portanto, pela sua riqueza de informações e experiências, pela alta variedade de entidades, organismos e núcleos de pesquisa que estiveram presentes e, não poderia deixar de mencionar, pela possibilidade de rever amigos/as e expandir nossa rede de contatos. Esse foi apenas mais um entre tantos outros esforços no avanço para uma sociedade sem sexismo, machismo, homofobia, transfobia, lesbofobia e outras formas de opressão. Mostra que desafios existem e as dificuldades são marcantes. Contudo, os esforços para superá-los também o são e há gente, pelo Brasil todo, empenhada nessa tarefa.

Estou há aproximadamente um mês na Austrália. Talvez seja cedo para refletir sobre meu estágio na University of Sydney, mas creio que algumas reflexões e observações podem ser extraídas desse período. Por conta de uma mania de brasileiro, tende-se a tratar a educação no exterior como muito superior à nossa, sobretudo em nível universitário. Isso é uma bobagem. Mas para fazer um debate sério, é importante analisar com mais profundidade o que significa estudar no exterior ou, no meu caso, na Austrália.

The Quadrangle, o prédio mais antigo da University of Sydney.

The Quadrangle, o prédio mais antigo da University of Sydney.

Saí da Universidade de São Paulo (USP) para cair na University of Sydney (UniSyd). Pode não parecer, mas existem muitas semelhanças entre elas. Ambas são públicas e ostentam inúmeros títulos superlativos: as maiores, as mais antigas e as mais ricas. A UniSyd congrega aproximadamente 50 mil estudantes e foi fundada em 1850, nos moldes das universidades britânicas como Oxford ou Cambridge. O primeiro edifício a ser erguido nesta universidade é o The Quadrangle, o qual remete, não só na sua arquitetura, ao período colonial.

Apesar de todas as características que colocam a UniSyd como uma universidade de ponta – a sua invejável infraestrutura, sua excelência na pesquisa, a qualidade do ensino e até sua reputação – não se pode perder de vista que essa universidade, assim como toda a Educação australiana, tem sofrido com inúmeras reformas neoliberais que foram iniciadas no país pelo Partido Trabalhista (Australian Labor Party) na década de 1980, com uma força superior às mudanças que vemos no cenário educacional brasileiro.

Explico: o pagamento de taxas de matrícula e mensalidades, que inexistiam num passado próximo, foi reintroduzido e pouco a pouco as universidades foram sendo, lato senso, privatizadas. O investimento federal no ensino superior caiu de 90% para 50% nas últimas décadas. E um sistema universitário nacional, que até os anos 70 era uniforme em qualidade e recursos, passou a ser declaradamente desigual, quando foi cristalizado o chamado Group of Eight – uma espécie de bloco das oito universidades mais importantes que, juntas, formaram um lobby para captar maiores benefícios das reformas neoliberais.

Prédio da Faculty of Education and Social Work.

Prédio da Faculty of Education and Social Work.

O ensino superior, em especial no tocante aos estudantes internacionais, tornou-se um intenso business e as universidades se transformaram em verdadeiras profit-making companies. Os custos variam entre os diferentes cursos, mas só para se ter uma ideia: na minha faculdade, Faculty of Education and Social Work, custa entre cinco a seis vezes mais para um estudante internacional se comparada a um australiano. Em termos numéricos, o custo é de mais ou menos AU$ 30 mil por ano (equivalente a mais de R$ 60 mil).

[Antes que pensem que sou rico, é bom esclarecer! Sabendo disso, minha orientadora me incluiu como um visiting scholar (pesquisador visitante), para evitar as taxas. Em outras palavras, não sou um estudante regular da UniSyd. Além disso, consegui uma bolsa que arca com praticamente todos os curtos da viagem. Ufa!]

Quando compareci às boas vindas da universidade aos estudantes estrangeiros, percebi em que pé está esse negócio. O número de alunos vindo de diferentes regiões do globo é irrisório. A grande maioria, diria que aproximadamente uns 80% a 90%, é da China. Há, de fato, acordos entre o governo chinês e os administradores das universidades, o que resulta inclusive em disciplinas ministradas em chinês. É bem possível que um sistema de ensino superior saturado, em um país com a maior população mundial, tenha encontrado vazão em países como a Austrália.

Garota estudando nos arcos do The Quadrangle.

Garota estudando nos arcos do The Quadrangle.

A despeito disso, é válido ressaltar que, no passado, as universidades australianas ofereciam cursos gratuitamente para estudantes asiáticos, como forma de colaborar no desenvolvimento da região. De um curso gratuito passar a faturar AU$ 30 mil ao ano por estudante, torna-se patente quais são os parâmetros que balizam o ensino em nível universitário na Austrália.

Estudar uma universidade pública como essa, na Austrália, não é muito diferente, em termos de acesso, a estudar em uma USP: nos dois casos tem-se um ensino elitizado, cujo marketing reside na venda de um privilégio (CONNELL, 2013). Talvez o grande diferencial seja que a renda per capita australiana permita com que estudantes da extensa classe média sejam capazes de bancar seus estudos nesse sistema educacional altamente lucrativo.

Não há nada de mágico – com exceção da infra-estrutura e dos recursos humanos disponíveis para a realização de um bom trabalho, que são realmente impressionantes (refiro-me às bibliotecas, às tecnologias, à verba, ao acesso a periódicos, ao apoio à pesquisa) – em estudar em uma universidade australiana. A experiência universitária está para ser construída por cada estudante, a partir de suas escolhas, contatos, leituras etc.

Brennan MacCallum Building (só coloquei esta foto aqui por acho esse prédio lindo!)

Brennan MacCallum Building (só coloquei esta foto aqui por acho esse prédio lindo!)

As nossas ideias, os nossos docentes, as nossas produções, os nossos estudantes, não deixam em nada a desejar ao modelo de first world que tanto gostamos de venerar. E as disputas políticas em torno da Educação continuam as mesmas, com a diferença de que, em termos de princípios, nós ainda estamos melhor, porque ainda não deixamos as políticas neoliberais inundarem nossas universidades (pelo menos por ora não!).

Há outras diferenças que eu pretendo explorar em outros textos. Só escrevi este para deixar claro que não vou voltar para o Brasil como se eu estivesse vindo de um mundo à parte, e por sua vez superior. É possível extrair o máximo daqui e o máximo daí, sem deixar de valorizar e saber ponderar os dois lugares. Aguardo ansiosamente pelo que me espera nos próximos cinco meses!

Ontem, dia 04 de outubro de 2012, tive uma interessante conversa sobre a presença de homens no movimento feminista. Tudo começou em um grupo de discussão sobre temáticas relacionadas ao feminismo, no Facebook. Em um dos tópicos, alguém recomendou a leitura do livro A Dominação Masculina, de Pierre Bourdieu. Comentei logo em seguida, dizendo que o texto era muito interessante, mas que seria importante problematizá-lo (por motivos que não são o foco deste texto). Sugeri, então, a leitura do texto O Sexo da Dominação, de Mariza Corrêa, que faz uma boa análise e crítica a essa obra do Bourdieu.

Acreditei que o debate seguiria de forma tranquila após isso. Qual não foi minha surpresa quando o comentário abaixo veio com o seguinte texto: “Eu CAGO para homens, especialmente heterossexuais, que tentam falar sobre mulheres”. Resolvi comprar a provocação. Minha intenção, de início, era problematizar essa fala. Afinal, por que homens não podem falar sobre mulheres? Existe um consenso dentro do movimento feminista a respeito disso? A fala acima me incomodou principalmente porque eu falo do lugar de um homem que apoia o movimento e se considera feminista. Não descreverei aqui o debate na íntegra, mas abordarei alguns pontos-chave da discussão.

E então: homens podem ser feministas ou não?

Começo falando sobre um argumento utilizado pela minha interlocutora para justificar a não-possibilidade de participação dos homens nos debates feministas. Segundo ela, “o opressor não pode falar pelo oprimido”. Nessa linha de pensamento, só mulheres podem falar sobre/por mulheres, só gays podem falar sobre/por gays, só negr@s podem falar sobre/por negr@s (segundo ela). Pois bem. Uma das perguntas que fiz foi: mas o que é mulher, então? Qual a definição da palavra “mulher”? Acredito que haja uma dificuldade muito grande de se colocar, em uma só categoria, todas as formas de vivenciar o “ser mulher”. A não ser que essa categoria seja definida de uma forma essencialista, ou seja, levando-se em consideração características biológicas e/ou intrínsecas de uma suposta biologia que define os sujeitos. E é complicado falar em essencialismos dentro de um movimento social que tem como uma de suas principais bandeiras a luta contra tais concepções. Por esse motivo, já acho complicado falar que “homem não pode falar sobre mulher”, uma vez que essas próprias categorias já são, em si, problemáticas: se eu não consigo definir de fato o que é mulher, mais complicado ainda é dizer que só mulher pode falar sobre mulher, não?

Em todo caso, vamos supor, por um momento, que realmente essa distinção drástica entre “homem” e “mulher” faz sentido. Ainda assim, fica difícil visualizar como homens não podem fazer parte de um movimento que, em sua grande maioria, luta contra desigualdades, mais especificamente contra desigualdades entre homens e mulheres. Se as mulheres historicamente lutam por direitos iguais em todas as instâncias da sociedade, não vejo muito sentido em falar, de forma agressiva, que homens não podem ajudar nas discussões e nas lutas. Acredito, ainda, que se existem homens que têm afinidade pelo feminismo, em muitos casos isso se deve a avanços sociais resultantes do próprio feminismo – por exemplo, uma relativa equidade de gênero em alguns espaços. Um exemplo claro e rápido disso é a possibilidade de homens poderem participar do Curso de Formação Feminista do Grupo Transas do Corpo, curso esse que pude ter o prazer de estar presente em sua primeira edição. O efeito disso, pelo menos até agora (e até onde pude sentir e perceber), foi de homens que deram suas contribuições, cada um à sua maneira, para o avanço do movimento.

“Nós apoiamos homens no feminismo”.

Penso que muito do que estou falando aqui vem sendo amplamente discutido, analisado e abordado nos demais textos deste blog. Por esse motivo, não vou me estender muito. Meu objetivo foi, antes de mais nada, relatar uma experiência pessoal que, muito embora tenha acontecido em um contexto bastante particular, revela debates que estão no bojo do movimento há tempos e que devem ser, sim, discutidos. Meu post, nesse sentido, é político.

Acredito no poder das alianças. Muito mais do que brigar para reiterar discursos essencialistas que separam radicalmente homens e mulheres em dois grupos distintos e dicotômicos, entendo que, num contexto de profunda efervescência do conservadorismo e da caretice, como é o caso brasileiro – e de outros contextos em todo o mundo –, precisamos criar alianças entre pessoas que estão preocupadas em criar uma realidade distinta, mais justa e igualitária – e, portanto, menos (bem menos!) imbecil – e lutar pelo fim de desigualdades, especialmente as de gênero. E tudo isso é bem diferente de um discurso dito por quem está menos preocupado com mudanças e avanços do que com elencar diferenças entre homens e mulheres. Nesse sentido, posso afirmar, com toda a certeza: sim, eu me considero feminista!

Já faz algumas décadas que se discute o que seria uma “nova direita”. Católicos ortodoxos, militares golpistas, monarquistas ultrapassados… tudo isso é a “velha direita”, já meio careta, capenga e broxa. Do ponto de vista político, um fiasco. Esses, mesmo dando um golpe aqui ou acolá, não podiam ser considerados a “nova direita”; o título não lhes cabia. Passou-se adiante.

A presidenta Dilma e sua proximidade com Kátia Abreu (PSD), um dos maiores nomes entre os ruralistas: a “velha direita” articulada à “nova”.

Depois, com a crise dos anos 70, surgiu uma classe de capitalistas globais daquelas… Eram os tais “neoliberais”: privatizando empresas, flexibilizando direitos, contabilizando gestões. Esses se tornaram grandes candidatos a ocupar o cargo da “nova direita”. Mas, no fundo, eles nada mais eram do que os antigos liberais conservadores, só que ocupando as bolsas e não mais as fábricas. Pois, eles não eram tão “novos” assim.

Em seguida, falou-se do crescimento mundial do evangelismo como uma espécie de “neopentecostalismo” conservador. Eles foram ganhando os cristãos e as bancadas e se tornaram entraves a conquistas sociais no Brasil e em outros países. Multiplicaram-se como outrora fizeram as filiais do McDonalds. Mas, o que eram eles além de uma repaginação do fundamentalismo? Não, eles não podiam ser a “nova direita”.

Posteriormente, com a atual crise, veio à tona os “neonazistas”. Aparentemente mortos, com exceção de alguns maníacos por aí, eles criaram partidos e dominaram bairros, ganharam a Europa como um tabuleiro de War. A xenofobia aumentou e eles se orgulharam de mostrar a versão atualizada do “Heil Hitler”, além de suas inconfundíveis carecas. Mas, peraí, eles só se baseavam no passado. É claro que não podiam ser a “nova direita”!

A aliança política entre Haddad e Maluf, acompanhados por Lula: quando a ganância eleitoreira desconstrói programas e ideologias políticas.

A “nova direita”, portanto, não vai ser nada que é “neo”: neoliberal, neopentecostal, neofascista. Porque o “neo” é simplesmente um update do que já foi velho. O velho não pode ser o novo, obviamente! Assim, novamente me pergunto: quem é a “nova direita”?

Se é que podemos falar de uma “nova direita” no Brasil – a polêmica não é se é de direita, e sim se é nova –, ela é sem dúvida o PT e toda a corja da “antiga esquerda” que se sindicalizou, que se articulou a movimentos, que promoveu grandes greves (e comprometimentos maiores ainda) e que hoje está cumprindo à risca as agendas mais conservadoras, dignas dos melhores direitistas. A “velha direita” não precisa fazer nada, porque a “nova” já a superou. Hoje, os tucanos agradecem, o Maluf se gaba, o centrão se atiça, os empresários dão risada, os fundamentalistas se ajoelham, os ruralistas invejam: nunca a direita conseguiu ir tão longe sem ter que, antes, dar um golpe de estado.

Quando a postura “nova” de Dilma Roussef a faz ser elogiada e reverenciada nos meios da “velha direita”. Aqui, destaca-se que uma “ex-marxista” está à frente de uma máquina empresarial.

E por que estamos diante de uma “nova direita”, se ela está tão atolada de velhos vícios? Ela é “nova” porque, como ‘nunca antes na história desse país’, articulou a essa cartilha conservadora um discurso absolutamente modernizador, social, desenvolvimentista e, quando não, de “esquerda”. Entidades como MST, CUT, UNE, LGBT, feministas etc, foram sendo engolidos: viraram secretarias, poliram suas campanhas, ilustraram seus palanques, ganharam adesivos. Em retorno, poucos avanços na diversidade sexual, retrocessos na educação, nada de reforma agrária, ameaças às pautas das mulheres, entre outras.

Na prática, a “nova direita”, amiga de todas as (ou de pelo menos todas as maiores) forças dominantes e mesmo as contradominantes tem feito aquilo que nenhuma “velha direita” jamais conseguiu fazer: o progressivo desmonte de um Estado de direito com amplo consenso popular.

As dúvidas que permanecem são: Assistiremos de camarote a esse crescimento? Continuaremos a reiterar velhas escolhas por “falta de opção”? Permaneceremos dando nosso suor por um projeto de poder claramente conservador, para não dizer reacionário? Até que ponto vamos engolir que as decepções com nossos governantes são “casos isolados”? Por quanto mais vamos esperar o que não vem e nos contentaremos com o pouco que nos é dado? O fato é que a hegemonia nunca esteve tão à flor da pele e está na hora de refazer nossos caminhos e perspectivas.

Escrito por Viviane Angélica Silva.

Havia um rádio de madeira na cozinha que Dona Ceição, talvez por saudade ou por falta de opção, conservou como aquela que ficou no Serro há muitos anos. Seu Zé Rufino, ao abrir o portão, encurvado ainda pelo peso do matulão e da ladeira Oswaldo Cruz, chegava de Honório Bicalho. O fato é que tinha leite na vendinha do final do morro, mas seu Zé ainda gostava era daquele colhido ao pé da vaca pela manhã de todo dia, mas que só chegava à cozinha de Dona Ceição quase à hora do almoço. Pressa pra quê? Abria a sacola de couro. De lá saíam garrafas fechadas com rolha, que tempos atrás carregara alguma garrafada ou só cachaça mesmo, mas que àquela hora trazia o sagrado leite de todo dia. Seu Zé passara na rocinha de algum conhecido e apanhara inhame, mandioca, taioba, jiló, couve ou alguma outra verdura. Da rua trazia também notícias de compadres e entretenimentos que a velha Nova Lima tivesse oferecido.

Só então o rádio era ligado e sempre na Itatiaia. Aí começo a aprender um pouco do que sei. De domingo a domingo funcionava a máquina do Rei, que nunca parava. Fim de semana e feriado parecia mais tranqüilo, mas mesmo assim, havia muita movimentação na corte. Desde sempre desconfiei de uma orgia, mas naquela época eu ainda tinha que respeitar o Rei e acreditar nas benções que me concederia. Como sonhava ser da nobreza um dia, o melhor era eu ser boa menina.

Ficava me perguntando como as mãos grandes e enrugadas que sintonizavam o rádio, eram úteis no reino. As unhas sujas, o cheiro de teta de vaca na mão e de burro nas calças de tergal bem como aquele chapéu surrado que era tirado da cabeça toda vez que seu Zé evocava Deus, só confirmavam minhas suspeitas: ele era da plebe. No reino tão vasto, a ele coube desafiar a terra, numa luta ingrata. Eu já tinha visto do que ela era capaz e me punha a imaginar o que aquele homem havia feito de tão mau para não ter sido mais agraciado.

Não que eu gostasse de tudo que eu via, mas aquela cozinha, a nata grossa do leite fervido, o fio cheiroso do café coado, o passo lento de Dona Ceição e a voz segura da Itatiaia, garantiam a legalidade que eu precisava na ocasião. Foi aí que comecei a entender um pouco de contradição. A terra que meu avô atravessou em longas missões de garimpo deu-lhe a miséria de cada dia, mas não o impediu de colher o que colocou à mesa todos os dias com fartura: Da sua sacola de couro saía toda viração de pensamento. Era uma ventania de histórias, dava até medo. Mas eu não arredava o pé, e não era só curiosidade, pois o velho sempre queria a companhia de um ouvido paciente para os casos que minha avó, meus tios e tias e minha mãe, conheciam de cor e salteado e que agora deveria pertencer aos netos. Tentava escutar e compreender todo mistério que aquela voz anunciava, muitas vezes sem entender porque de repente ela agravava e soava baixinha, como um trovão mansinho. Queria ver também o que passava diante dos olhos do Seu Zé quando chamava sua memória. Parecia ser coisa bem antiga pelo tanto de ruga que fazia nascer. Aí seu olhar procurava a Folhinha de Mariana e a ferradura enferrujada atrás da porta, suplicando entendimento…

Livre desde o nascimento, aquele homem de cabelos brancos e pele muito preta contava muitos nascentes e poentes. Parecia um capitão do mato capturado. Homem bravo que matara minha avó no dia do casamento e criara quatorze filhos no tempo da ignorância. Esse assassinato merece esclarecimento, pois não fora nenhum crime para a época já que não teve sangue, muito menos defunto. É que durante dezesseis anos existiu uma mulher chamada Conceição Gomes de Carvalho, sem registro de nascimento, mas que estava prestes a se casar com seu Zé. Seu Zé Rufino, que na verdade se chamava João Batista dos Santos, encontrara pela vida uma mulher da qual gostara muito e cuja graça era Maria Angélica. Não sei se houve possibilidade do João colocar o dos Santos nessa Maria, esse detalhe nunca foi comentado. O certo é que com essa mulher na cabeça, meu avô foi arranjar os documentos para casar com a tal da Conceição. E assim, em nome do seu desejo de macho, Conceição Gomes de Carvalho é sacrificada para que nascesse a Maria Angélica dos Santos, casada e registrada.

Ouvi dizer que toda família tem um segredo. No caso da minha, apesar das incessantes buscas, só constatei o óbvio: Vó Ceição não amava vô Rufino. Chegava a ser constrangedor ouvi-la considerar que feiúra era uma coisa que seus filhos herdaram dele. Gargalhava dizendo que da sua parte não tinha gente feia. Menina romântica e sem mais o que imaginar, eu passava horas ciscando sobre essa história de amor que talhou sem experimentar queijo com goiabada e que pra mal dos pecados, atravessou seis décadas. Olhava pra cara do seu Zé e realmente achava-o feio mesmo. Mas hoje percebo que era justamente sua negritude que minha avó atacava e, portanto, tive que dar um passo atrás e dois adiante pra então discordar dela, gabada de sua beleza cabocla. Continuando minha busca, ouvi dizer que no garimpo meu avô nunca achou pedra que prestasse, então, é provável que vó Ceição perdera a fé em dias de fartura e nesse homem de falsas promessas. Por fim, eu soube ainda, que seu Zé era um anjo para os da rua e um demônio para os de casa. Não poupava a força do braço sobre os seus. Constituir família nos modos da ignorância devia parecer correto só na cabeça dele. Acho que Ceição Angélica só amaria João Rufino se ela não tivesse sangue nas veias.

Apesar dos pesares, e por ser fã do agradecimento, devo reconhecer que desse garimpeiro herdei o gosto de catar histórias preciosas. Os ventos têm mudado e estou entendendo que não preciso procurar riqueza apenas na direção do Norte, conforme me ensinou meu avô. Aprendi que tem também muito tesouro pra’s bandas do Sul.

Hoje relendo o testamento do meu velho, percebi que o bichinho da utopia que ele trazia aninhado em seu coração, achou lugar no meu. Foi ele que me deu a esperança de melhores momentos. Do contrário não teria graça nenhuma entrar na roda. E valeu a pena. Mas pra isso, tive que demolir meu castelo de infância e construir outro sobre novo firmamento epistemológico. E entendendo a cor do testamento do meu avô, é que tenho encontrado função nobre no Reino.

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Viviane Angélica Silva é mineira nascida na cidade de Nova Lima. É graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atualmente é mestranda do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP).

Nos últimos dias, tive o prazer de conferir a peça de teatro Viver Sem Tempos Mortos, estrelada por Fernanda Montenegro, sob direção de Felipe Hirsch, em uma das 21 apresentações gratuitas que estão sendo encenadas nos Centros Educacionais Unificados (CEU) do município de São Paulo. No palco, a atriz encarna a escritora Simone de Beauvoir (1908-1986).

Fernanda Montenegro interpreta Simone de Beauvoir em Viver Sem Tempos Mortos. Foto: Divulgação.

Apenas uma cadeira e um facho de luz sobre Fernanda são suficientes para que ela, vestindo calça e sapato pretos e uma camisa branca, relate as experiências de vida, intimidades e sensações da feminista francesa, tendo como base fragmentos de seu pensamento impressos nas suas correspondências e memórias.

A escritora, nascida em Paris no início do século passado, foi, como muito bem sabido, uma mulher de coragem. Desafiou padrões vigentes até para os dias atuais, recusando o casamento, a maternidade (ela apenas adotou uma filha), engajando-se em relacionamentos abertos bissexuais ao longo de toda a sua vida, na companhia de outra figura pública, seu amado Jean-Paul Sartre, importante filósofo existencialista. Em vez de calar-se no silêncio do ambiente doméstico, Beauvoir se encontrava pelas noites.

Bastante influenciada pelo existencialismo, escreveu a obra considerada o marco inicial da “segunda onda” do movimento feminista: O Segundo Sexo, de 1949. Alguns anos depois, publicou um premiado e excelente romance (um dos meus favoritos!) chamado Os Mandarins (1956), marcado pelas suas memórias em um tempo que, de longe não era morto, mas era claramente sombrio: o clima de pós-guerra, com a polarização ideológica e novos tensões surgindo. É neste contexto que, junto com Sartre e outros pensadores como Merleau-Ponty, escreve para a revista progressista Les Temps Modernes.

Ao lado de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir esteve da juventude à morte dele, mesmo com diversos outros relacionamentos com homens e mulheres.

Poderia ficar textos e mais textos falando da rica biografia de Beauvoir. No entanto, indico o blog (brasileiro, apesar do nome) Avec Beauvoir para quem quiser saber mais a respeito de sua vida e obra. Aqui, gostaria de comentar alguns pontos e reflexões que me vieram a partir da sua obra.

Preciso confessar que O Segundo Sexo mudou minha vida. Não sei de onde, mas sempre tive interesse por questões relativas às mulheres (o que não quer dizer que não tenha reproduzido opiniões ou atitudes machistas vez ou outra). Talvez por eu sempre me afastar da masculinidade dos meninos das escolas as quais frequentei, aproximando-me das meninas, fiz-me mais sensível à causa.

Quando ouvi falar em na tal feminista francesa, resolvi me presentear aos 20 anos com essa importante obra. Já prevendo que ela faria algum “estrago” na minha vida, escrevi como dedicatória a mim mesmo: “Duas décadas de um jeito. Como serão as próximas duas depois desse livro?”. Ingênuo, não esperava que a influência fosse tão grande, a ponto de eu me encantar com debates de gênero ainda na graduação e resolver mudar de área na pós, etapa na qual me encontro agora.

Enquanto Simone de Beauvoir, Fernanda Montenegro relata suas memórias de modo bastante informal, mas profundo e sensível.

Por isso, considero-me um quase devoto de Beauvoir. Ela é minha madrinha intelectual. É claro que, atualmente, faço uso das suas ideias com ressalvas, pois o livro é datado e não podemos esperar uma compreensão completa a respeito da subordinação de mulheres a partir de sua perspectiva. O que não invalida, de forma alguma, a sua imensurável contribuição!

Agradeço à Fernanda Montenegro e à sua equipe por ter me proporcionado esta imersão no passado, lembrando-me dos momentos nos quais deliberadamente quis passar por uma “experiência fundamental de liberdade”, tal como a escritora durante sua vida, de tal forma que retracei novos rumos para mim mesmo. Assim como Beauvoir, também quero sempre viver agarrando meu destino com unhas e dentes. E, claro, sem tempos mortos.