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Escrito por Mayla Rosa Rodrigues.

Por que separamos as meninas dos meninos nas filas das escolas? Por que pintamos as paredes dos banheiros das meninas de rosa e o dos meninos de azul na escola? Por que as meninas têm que jogar vôlei, num cantinho, enquanto os meninos jogam futebol e são o foco da aula de Educação Física? Com essas perguntas, eu, Mayla Rosa, professora da rede municipal de São Paulo, comecei a repensar minha prática pedagógica e a buscar alternativas em um sistema educacional tão discriminatório como o nosso. E, após um bom tempo estudando o assunto e me informando através de diversas fontes, criei o projeto Mulheres na História.

EXPERIÊNCIA VIVIDA

Antes de começar a falar sobre o projeto em si, gostaria de falar um pouco sobre a minha experiência de vida e o que me trouxe até esse momento. Uma coisa está inconfundivelmente ligada à outra. Assim como a maioria das crianças no nosso país, fui criada apenas pela minha mãe e cercada de outras mulheres, como tias, avós, primas e irmãs. Com isso, claro, passei a entender o lugar que a sociedade havia determinado pra mim desde muito pequena. Por exemplo, ainda criança, ouvi inúmeras vezes que a minha casa, composta exclusivamente por mulheres, nunca deveria estar suja. Nunca entendi aquilo. Não queria pertencer ao que chamam de “mundo das mulheres”, pois nele você não pode brincar de queimada na rua, não pode sentar como bem entender, não pode cortar o cabelo se ele atrapalha sua visão, não pode ralar o joelho andando de bicicleta, não pode brincar de lutinha… Ou seja, o mundo das mulheres é uma chatice pra uma criança. Cresci querendo pertencer a outro espaço que não aquele que todo mundo me dizia que era meu por naturalidade.

Comecei a ter acesso ao feminismo logo depois da faculdade, através da internet e de um sentimento muito forte de pertencimento. Quanto mais eu lia, mais me identificava. Desde então, vivo um processo muito forte de desconstrução e, naturalmente, minha prática educativa também. É interessante que eu tenha tido acesso ao feminismo através da internet, o que não era possível há alguns anos, mas é também triste. É triste porque pouquíssimas mulheres têm acesso à faculdade ou internet, como eu tive. É triste porque apesar de começar a entender as injustiças que enfrentei e toda a revolta que sentia só depois de adulta, algumas mulheres nunca têm essa oportunidade.

PRÁTICA REFLEXIVA

Finalmente chegamos ao momento em que decidi que essa era uma pauta que eu queria acompanhar. E isso ficou ainda mais forte ao acompanhar o cotidiano das crianças na escola. Perguntei-me: o que está por trás dessa sociedade tão desigual para meninos e meninas? A resposta foi clara: nossa socialização. Como professora, constatar que a escola tem sido um espaço de repetição de padrões e não um espaço de crítica e transformação foi devastador. Mas foi revigorante também. Perceber isso me fez entender que, como professora e como feminista, eu tenho um compromisso inadiável com a transformação social. E assim, o Mulheres na História surgiu. Esse projeto começou após uma apresentação de slides com fotos de mulheres que fiz em parceria com uma colega de trabalho. Não muito surpresa, percebi que as crianças não as reconheceram. Além disso, acharam que a Carolina Maria de Jesus era uma escrava e ficaram surpresas com o fato dela ter sido escritora. Aquilo me tocou. O silenciamento feminino é uma constante até hoje. Ao estudarmos a história, temos a impressão de que não a produzimos. Alias, temos a impressão de que apenas os homens produzem história, enquanto nós reproduzimos. Não quero isso para minhas alunas. E então, o projeto foi sendo construído.

O PROJETO

Comecei a estruturá-lo em duas vertentes: uma de responsabilidade minha e outra autoral, das crianças. Na vertente autoral, as crianças passaram a usar a aula de Informática Educativa para realizar pesquisas sobre a vida de algumas mulheres selecionadas no meio de tantos nomes que trouxeram, essa seleção buscou acrescentar mulheres de classes sociais variadas, assim como raça, profissão, orientação sexual e momento histórico de atuação. Após a pesquisa, construíram apresentações de vídeo e slides com essas informações para exibirem para o resto do grupo. Nesse processo, também se encantaram com cada uma das pessoas pesquisadas, transcendendo o esperado e buscando livros que contassem a história delas em bibliotecas e na sala de leitura da escola. Entre as mulheres pesquisadas temos: Aqualtune, Rosa Parks, Carolina Maria De Jesus, Jackie-Joyner Kersee, Maria da Penha, Maria Beatriz Nascimento, Tarsila do Amaral, Elza Soares, Angela Davis e Maria Quitéria.

A segunda vertente surgiu de uma grande paixão: a literatura. Acredito que uma das formas mais efetivas de apresentar a história de alguém é através da leitura. Dentro dessa perspectiva, decidi criar uma intersecção do projeto, chamado de  “Leitura na Escola”. Após um período de pesquisa e observação crítica dos livros de literatura infantil que as crianças têm acesso, ficou explícito que muitos destes reforçam estereótipos e acabam por ditar qual o lugar que a criança deve ter no mundo, dependendo de sua raça, gênero e classe social. Para quebrar essa naturalização dos papéis que a criança deve seguir, escolhi alguns livros que poderiam promover rodas de conversa produtivas, além de representatividade para meninas e meninos, como “Menina Não Entra” de Tereza Guimarães Castro Andrade.  Além desses, escolhi também alguns livros biográficos que contam a história de mulheres que marcaram nossa história, mas não são apresentadas durante a vida escolar, como Carmen Miranda, Frida Kahlo, Wangari Maathai, Malala e outras.

A vertente extra não estava programada e surgiu dos questionamentos das crianças. Durante a etapa de pesquisa, a emoção em conhecer a história dessas mulheres foi determinante no coração das crianças, despertando o desejo de “fazer mais”, assim como as mulheres que estamos conhecendo fizeram e continuam a fazer. As crianças elaboraram mensagens para compor o que nós decidimos chamar de “Campanha do Respeito”. As frases são de autoria das crianças, assim como os desenhos. Estas são algumas das mensagens:

IMPACTO NA VIDA DAS CRIANÇAS

A mudança de comportamento é nítida pra mim e para os familiares. Os conflitos que enfrentávamos no início do ano estão quase extintos, pois as crianças passaram a se respeitar mais, a entender o limite do outro e a ouvir o não do colega. O interesse em sala aumentou consideravelmente, pois todos e todas se sentem ouvidos. Elas não esperam que eu traga leituras ou que diga o que devem escrever; são autônomas e críticas. Trazem-me notícias que querem discutir em sala ou livros que gostariam que eu lesse; apontam quando acreditam ter presenciado alguma ação discriminatória e criticam filmes/livros que não contenham personagens negros. Para ficar mais claro e vívido o impacto que menciono, deixo vocês com o vídeo abaixo em que alguns dos meus alunos e alunas declaram como o projeto mudou a vida delas. E claro, ansiando por um mundo em que as crianças não sejam limitadas por construções sociais e expectativas dos adultos.


Mayla Rosa Rodrigues é formada em Pedagogia e atua como professora da rede municipal de ensino de São Paulo e coordenadora do projeto Mulheres na História. Atualmente dedica-se aos estudos de questões feministas e de gênero pela PUC-SP.

Todas as imagens reproduzidas nesta publicação foram produzidas mediante autorização de pais, mães e/ou responsáveis obtida pela autora. 

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No início dessa semana, chegamos a mais um 8 de março, Dia Internacional da Mulher. É claro, eu não sei o que você chega a saber e o que você chega a fazer a respeito dessa data, se para você conta essa data, qual a sua versão para ela, se ela começa e termina onde o dia começa e termina mesmo ou se há temporalidades e espacialidades para além do tempo e do espaço em questão. Na maioria dos casos, parece que não se sabe bem o que esse dia significa, a não ser um dia de “celebração”, no qual se devem presentear as mulheres com presentes e flores, um “dever” que termina no terminar do dia mesmo. Presentes e flores devem ter seus significados, mas certamente não são (ou, ainda não chegam a ser) o signo do que, de fato, representa esse dia, do que está em jogo nessa data. Para começar, há outras versões para essa data que são menos ditas e escutadas que deveriam ser mais ditas e escutadas. Essas versões foram marcadamente levantadas e defendidas por todos e todas aquelas que partem do feminismo como campo de teoria crítica e transformação social, como lugar em que o humano é questionado, rasurado e reconstruído. Entre essas outras versões (versões outras, eu diria), é que gostaria de me alinhar nesse texto.

Rosas

Presentes e flores devem ter seus significados no Dia Internacional da Mulher, mas certamente não são (ou, ainda não chegam a ser) o signo do que, de fato, representa esse dia, do que está em jogo nessa data.

Evidentemente, essas outras versões não dizem respeito a como se chega a se transformar num ser altamente responsável (inclusive, honorável) por parabenizar e presentar as mulheres. Aliás, não consigo perceber que tipo de responsabilidade está tratando de se praticar nesses contextos, ainda mais quando não se está recitando nenhuma ansiedade, tensão, movimento. Ao contrário disso, essas outras versões de que estou falando “começam” e “terminam” em lutas, em lutas constantes que se renovam dia após dia. Na verdade, essas outras versões estão sempre no meio, sempre em movimento, implicadas em gestos de ansiedade e tensão, gestos que são o estado, por excelência, da eticidade*.

Elas retomam ao dia de 8 de março, quando nessa mesma data em 1857, em Nova York, mulheres operárias tecelãs de uma fábrica lutavam por melhores condições de trabalho e foram mortas carbonizadas em razão de policiais que atearam fogo no local, querendo obrigá-las a sair. É claro, essas outras versões podem retomar a acontecimentos anteriores e posteriores a 1857 e a contextos diferentes desses. E, de fato, retomam, porque a lutas das mulheres, seja por que objetivo for, começou (não necessariamente num “8 de março”) em algum momento (distante) e ainda não terminou, ainda mais quando se tratam de questões de reconhecimento, principalmente as ligadas ao mundo do trabalho. As lutas das mulheres continuam todos os dias e elas envolvem a todos nós. Ela inclui as mulheres nova-iorquinas, as mulheres brasileiras, as mulheres indianas, as mulheres cabalas, todas as mulheres. Ela inclui transgêneros, transexuais, intersexos, travestis, crossdressers, drags queen/king. Ela inclui os homens. Ela inclui todos e todas que entendem que o “humano” está produzido, reproduzido e desproduzido por normas sociais, entre elas, as normas de gênero.

Cindy Sherman, Untitled #092, 1981

Desde a Grécia, as mulheres são herdeiras do silêncio, de um apagamento e falta de reconhecimento de suas vidas. (Imagem: Cindy Sherman, Untitled #092, 1981)

Seguindo a Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy em O que é feminismo (1985), percebemos que no contexto do processo do que hoje resultou o “Ocidente” (se bem que essa narração pode deixar de contar histórias outras no contexto ocidental mesmo), desde a Grécia, as mulheres são herdeiras do silêncio, de um apagamento e falta de reconhecimento de suas vidas. As autoras nos lembram que as mulheres, juntamente com os escravos, não gozavam do título de “cidadão” e, portanto, não eram entendidos e reconhecidos como pessoas de “maior valor”, livres e capazes. Desde esses tempos, às mulheres couberam atividades reprodutivas, “dentro de casa” e entendidas como de “menor valor”. Faziam (e ainda fazem) uma associação correlata entre mulher e corpo (este compreendido como inferior), homem e mente (esta compreendida como superior). Essa associação foi sustentada por nomes importantes como Platão, Aristóteles, René Descartes, carregada até nossos tempos, sobretudo, como base de conhecimentos.

A situação das mulheres continua semelhante ou até pior em todos os tempos: Idade Média, Renascimento, Revolução Industrial. Nesse sentido, o feminismo sempre procurou, em sua prática, como afirmam Alves e Pitanguy (1985), “superar as formas de organização tradicionais, permeadas pela assimetria e pelo autoritarismo” (p. 8). É claro, é difícil “estabelecer uma definição precisa do que seja feminismo, pois este termo traduz todo um processo que tem raízes no passado, que se constrói no cotidiano, e que não tem um ponto predeterminado de chegada(p. 7). Pertencem a esse processo de busca de superação de estruturas dominantes (que são tanto materiais quanto simbólicas) conquistas como o direito ao voto (o sufrágio feminino), o direito ao ingresso no mercado do trabalho e certa igualdade de salários e condições de trabalhos (se bem que este ponto é bem questionável). Pertencem a esse processo conquistas como as escritas desmobilizadoras de Betty Friedan, Simone de Beauvoir, Heleieth Saffioti, entre tantas outras. Certamente, o dia “8 de março” como “Dia Internacional da Mulher” também pertence as conquistas desse processo, ainda que tenhamos que pensar melhor sobre o que esse dia significa e o que deveria ser feito. E, certamente, ainda há muito para se batalhar e conquistar: o direito ao aborto, por exemplo.

Feminismo

O feminismo está sempre em movimento e problematiza um ideal dominante de “humano”, nos fazendo sempre e sempre pensar na questão do reconhecimento, de como alguém chega a ser re-conhecido.

O feminismo está sempre em movimento e problematiza um ideal dominante de “humano”, nos fazendo sempre e sempre pensar na questão do reconhecimento, de como alguém chega a ser re-conhecido. Às vezes, pode ser que quando nomeamos o dia “8 de março” ou o “Dia Internacional da Mulher”, ou que seja o dia 8 de março como o “Dia Internacional da Mulher”, nós estamos apenas nomeando um problema que não está resolvido. Seja no contexto da Grécia antiga, em 1857, em 1908, ou nos tempos atuais, as mulheres, como nos diz Judith Butler em Deshacer el género (2006), as mulheres não estão totalmente incluídas no marco do “humano”. Suas vidas, em razão das implicações sociais construídas em torno de ser desse gênero, tornam-se mais precárias do que a vida é em si mesma. As mulheres têm sido construídas e, ao mesmo tempo, exploradas como vidas “menos humanas”, como vidas de “menor valor”. Além do mais, quanto mais estão implicadas num processo de outridade, as mulheres são mais exploradas do que nunca.

Inclusive, dentro dos próprios setores da teoria e do movimento feminista, a categoria das mulheres tem sido feita e desfeita. E tal tarefa, realmente, deve acontecer, principalmente quando em alguns momentos, a categoria das mulheres foi usada para ânimos de exclusão, para excluir parte da clientela que buscava representar mesmo. Essa desconstrução e reconstrução é bastante necessária e proveitosa, uma vez que, como diria Butler em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2008), a crítica feminista “tem de explorar as afirmações totalizantes da economia significante masculinista, mas também deve permanecer autocrítica em relação aos gestos totalizantes do feminismo”. É certo que se o feminismo não empreende uma autocrítica em relação a si mesmo, ele corre o risco se tornar tão opressor quanto às opressões que procura combater, inclusive corre o risco de se tornar um projeto altamente colonial.

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* Como em Avital Ronell. Ver aqui.

 

Dilma Rousseff, reeleita à Presidência da República em 2014. (Foto: Ichino Guerra)

Dilma Rousseff, reeleita à Presidência da República em 2014. (Foto: Ichino Guerra)

Passadas as eleições, é hora de dar prosseguimento às discussões políticas, econômicas e sociais de suma importância para a promoção da cidadania e o desenvolvimento do país. Estas, que foram o pleito mais acirrado dos últimos anos, deixam que legados além da reeleição de Dilma Rousseff e da composição de um Congresso Nacional mais conservador? Neste texto, faremos uma reflexão sobre gênero e a representação política das mulheres, com base em dados fornecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Iniciamos com uma breve contextualização sobre o quantitativo de eleitores aptos à votação. Deveríamos, aliás, dizer eleitoras, pois, a exemplo da maioria feminina na população brasileira, o eleitorado também é majoritariamente feminino. De um total de mais de 142 milhões de eleitores, 52,13% pertencem ao sexo feminino, ante 47,79% do sexo masculino. Isso significa que, no Brasil e no exterior, mais de 74 milhões de mulheres estiveram aptas a votar. Entre os homens, 68 milhões. A despeito desse elevado contingente de eleitoras, as mulheres continuam sendo minoria entre os candidatos aos cargos representativos, como podemos observar na tabela abaixo.

Tabela I - Quantidade e porcentagem de homens e mulheres candidatos aos cargos representativos das eleições 2014 - Brasil. (Fonte: Tribunal Superior Eleitoral)

Tabela I – Quantidade e porcentagem de homens e mulheres candidatos aos cargos representativos das eleições 2014 – Brasil. (Fonte: Tribunal Superior Eleitoral) – clique na imagem para ampliar

Nas eleições de 2014, nota-se que a maior proporção de mulheres foi encontrada entre os candidatos a deputados estaduais – elas corresponderam a 29,11% dos mais de 15 mil aspirantes ao cargo. Lembremos que é obrigatório que os partidos apresentem pelo menos 30% de candidatas do sexo feminino ao Legislativo. Já entre governadores, no qual não há essa obrigatoriedade, a proporção de candidatas despencou para míseros 12,05%. Em outras palavras, é mais provável encontrar mulheres no âmbito Legislativo do que Executivo em nível estadual. Se olharmos para o total de candidatas no Brasil, veremos que 6.470, ou 28,9%, entraram na corrida eleitoral. Quantas, então, saíram vitoriosas?

Para não nos afogarmos em números, discutiremos os resultados em nível federal. E, aqui, embora as notícias não sejam lá muito animadoras, elas apontam para uma tendência positiva. Conforme podemos observar na figura abaixo, o Brasil tem assistido a um crescimento na representação política das mulheres desde meados do século passado. Embora tenha sido aprovado no início da década de 30 – e elegido a primeira deputada federal do Brasil, Carlota Pereira de Queirós, em 1934 – o voto feminino só passou a valer, em caráter obrigatório, após a ditadura do Estado Novo. Mesmo assim, entre 1945 e o fim do regime militar (em 1985), a quantidade de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal oscilou entre números bastante pífios: nunca mais do que uma dezena de mulheres ocupando cadeiras na Câmara dos Deputados – as porcentagens variaram porque o número total de deputados também variou.

Figura 1 - Quantidade e porcentagem de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal - Brasil, 1945-2014. (Fonte: Tribunal Superior Eleitoral)

Figura 1 – Quantidade e porcentagem de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal – Brasil, 1945-2014. (Fonte: Tribunal Superior Eleitoral. Baseado em Oliveira, 2011) – clique na imagem para ampliar

Na redemocratização que se iniciou após a metade da década de 80, testemunhamos um salto no contingente de deputadas federais. De apenas oito em 1986, passamos para 26 em 1990 – o que, em termos proporcionais, significou quase nada, porque o número total de deputados também aumentou com a recém-promulgada Constituição Federal. Há de se lembrar que, durante a Assembleia Constituinte, 559 deputados foram eleitos, dos quais 26 mulheres (5,3%) fizeram parte (leia aqui). Com a aprovação da Lei Complementar n. 78 em 1993, a quantidade de deputados federais não pôde exceder 513 – o quantitativo que encontramos na atualidade.

Isto significa que, de 1994 em diante, o número total de deputados federais se manteve fixado nesse valor. Com a eleição de um número cada vez maior de mulheres para esse cargo (com exceção do pleito de 2002), temos visto a representação feminina crescer na política nacional. Em 2006, chegamos ao recorde de 45 deputadas federais (8,77%), resultado que se repetiu em 2010, e, finalmente, quebramos a marca dos últimos oito anos e emplacamos, somente nessa eleição, 51 mulheres na Câmara dos Deputados, o equivalente a 9,94%. Essa representação, como podemos ver na figura abaixo, não se distribui igualmente entre as unidades da Federação.

Figura 2 - Quantidade de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal, por Unidade da Federação, nas eleições de 2014 - Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres)

Figura 3 – Quantidade de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal, por Unidade da Federação, nas eleições de 2014 – Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres) – clique na imagem para ampliar

Depois do Rio de Janeiro, que elegeu seis deputadas federais, Minas Gerais e São Paulo estão empatados com cinco deputadas eleitas em cada. Outros estados, como Acre, Maranhão e Rio Grande do Sul, além do Distrito Federal, elegeram apenas uma mulher para o cargo; sem mencionar estados como Espírito Santo e Sergipe que não elegeram nenhuma, para a infelicidade de sua população.  Da mesma forma, a composição feminina na Câmara dos Deputados varia em função de seus respectivos partidos políticos. Na figura abaixo, vemos que o PT lidera a lista, com nove mulheres eleitas para o cargo, seguido por PMDB e PSDB com, respectivamente, sete e cinco deputadas federais.

Figura 3 - Quantidade de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal, por partido político, nas eleições de 2014 - Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres)

Figura 2 – Quantidade de mulheres eleitas para o cargo de deputada federal, por partido político, nas eleições de 2014 – Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres) – clique na imagem para ampliar

A respeito do Senado Federal, verificamos que a cúpula voltada para baixo também contará com uma presença um pouco mais expressiva de mulheres a partir do ano que vem. Nessas eleições, concorreram ao cargo 34 mulheres e 138 homens; saíram vitoriosos 5 delas e 22 deles. Na figura abaixo, nota-se que isso corresponde a 18,5% de mulheres eleitas. Dado que apenas um terço dos cargos de senador foi disputado, essas cinco novas felizardas se somarão às outras sete senadoras previamente eleitas. Teremos, portanto, 12 mulheres, ante 69 homens: 14,8% de mulheres, também um recorde, e… 85,2% de homens no Senado.

Figura 4 - Proporção de mulheres e homens eleitos/as para o cargo de senador/a nas eleições de 2014 - Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres)

Figura 4 – Proporção de mulheres e homens eleitos/as para o cargo de senador/a nas eleições de 2014 – Brasil. (Fonte: Secretária Especial de Políticas para Mulheres) – clique na imagem para ampliar

Na Presidência da República, bem, nem é preciso se alongar. Dilma Rousseff (PT) saiu vitoriosa, galgando o título de primeira mulher reeleita ao cargo de Presidência. Talvez seja interessante pontuar que essas foram as eleições mais “femininas” que tivemos até então, no sentido de que esse pleito foi intensamente disputado por mulheres. Em primeiro lugar, pois a situação – o governo – esteve nas mãos de uma presidenta. Depois, porque nos últimos meses antes do primeiro turno, a principal candidata de oposição era Marina Silva (PSB), que chegou a decolar nas pesquisas eleitorais ao ponto de nos dar a impressão de que teríamos, de forma inédita, um segundo turno composto apenas por candidatas mulheres.

Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB em 2014.

Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB em 2014.

Infelizmente, não foi esse o rumo a que as eleições nos conduziram quando Aécio Neves (PSDB), que passou despercebido por boa parte da primeira etapa, apresentou uma virada que lançou o pleito novamente à polarização PT-PSDB. Ademais, não é exagero relembrar da força de Luciana Genro (PSOL) que, apesar de “nanica” nas pesquisas eleitorais (e eleitoreiras…), foi a candidata que mais tencionou a disputa política, criticando a situação, a oposição e ao que tentava se esboçar como uma “terceira via”. Quanto aos demais presidenciáveis, ora ficaram a reboque dessas candidatas, ora foram ignorados pela imprensa.

Luciana Genro, candidata à Presidência pelo PSOL em 2014.

Luciana Genro, candidata à Presidência pelo PSOL em 2014.

Por fim, é sempre importante ressaltar que uma maior representação feminina não implica necessariamente o avanço de pautas feministas (leia aqui). Uma coisa são lideranças femininas; outra, lideranças feministas – aliás, a história é pródiga em nos mostrar exemplos de mulheres que, no poder, agiram verdadeiramente como homens, no sentido de um exercício político patriarcal, machista, conservador. Progressistas ou não, a presença expressiva de mulheres nos espaços de poder é crucial para fazer justiça à maioria feminina no Brasil. Aumentar a representatividade política de mulheres, pois, é o primeiro passo para que possamos cobrar ainda mais de nossos/as políticos/as eleitos/as. Também, é uma maneira de espelhar com mais rigor, precisão e fidedignidade, a luta cotidiana de cada mulher neste país. Nesse tocante, as eleições de 2014 deram um tímido passo que, pelo menos, foi para frente.

Vândalos? Revolucionários? Mimados? Não são caracterizações positivas que usualmente rodeiam as conversas sobre os black blocs. Concordemos com a tática adotada ou não, um olhar sobre o fenômeno black bloc é crucial para se pintar um retrato da dita “nova ordem mundial”. Em um só movimento, os mascarados são um produto da globalização hegemônica, das democracias falidas e da repressão policial. Serão também um produto das masculinidades? Neste texto, contextualizo os black blocs para, em seguida, discutir questões de gênero acerca desse grupo de jovens mascarados.

Soam desinformados aqueles que bravejam contra a suposta “violência inerente” aos black blocs. Primeiramente porque os mascarados, de orientação deliberadamente anarquista, não agem sempre por meio da depredação e vandalismo. Ademais, quando os atos de destruição são evocados, eles se dirigem a símbolos do capitalismo, a corporações ou à propriedade privada, nunca às pessoas. Sua crítica, por mais que se tente esvaziá-la de conteúdo político, é uma resposta agressiva a um sistema agressivo. Isso não implica em inocentá-los, por completo, de qualquer análise que pondere a efetiva contribuição desses grupos à construção do pensamento e da ação de esquerda.

A Batalha de Seattle, em 1999, foi um marco na luta de alterglobalização. Também foram um palco para a atuação dos black blocs.

A Batalha de Seattle, em 1999, foi um marco na luta de alterglobalização. Também foram um palco para a atuação dos black blocs.

Apesar de sua origem remeter aos anos 80 – a partir do movimento Autonomen na Alemanha – os black blocs se tornaram mundialmente conhecidos após a chamada Batalha de Seattle, ocorrida em 30 de novembro de 1999 no noroeste dos Estados Unidos, e que foi motivada por protestos contra uma reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC). De acordo com Francis Dupuis-Déri em sua obra Black Blocs (2014), de onde extraio esses dados, a dura resposta da polícia estadunidense aos protestos, que englobaram manifestantes de variadas causas, não conseguira deter a “batalha” que, bem sucedida, derrubou a chamada “Rodada do Milênio” da tal reunião. Um marco, pois, do movimento de alterglobalização.

No Brasil, os black blocs “ganharam” a mídia no ano passado, quando as chamadas Jornadas de Junho colocaram sistematicamente multidões de jovens nas ruas. Tensionamentos nas avenidas que serviam de palco para as passeatas atravessaram os conflitos com a polícia, o grito dos fascistas de plantão, os coxinhas de verde-e-amarelo, os vermelhinhos partidarizados e, finalmente, os mascarados de roupas escuras que logo foram apontados como black blocs. Desde então, o conceito de black bloc tem se tornado uma categoria coringa à serviço do oportunismo da imprensa brasileira que, atacando Sininhos e Fábios, vê nos mascarados o pretexto para a recrudescência jurídico-policial.

No Brasil, os black blocs ganharam visibilidade com as manifestações de junho de 2013.

No Brasil, os black blocs ganharam visibilidade com as manifestações de junho de 2013.

Mas essa história que estou contando é bastante masculina. Os manifestantes, os policiais, os fascistas, os vermelhos etc. E onde as mulheres entram nessa história? A rigor, se fôssemos contabilizar a participação das jovens nesses protestos, nos depararíamos com obstáculos metodológicos. O autor supracitado baseia-se em suas próprias observações para anotar que, dependendo do black bloc, a participação das mulheres pode se limitar a apenas 5% dos manifestantes (DUPUIS-DÉRI, 2014). É coisa de macho, então? Veremos.

Essas estimativas, todavia, são puramente especulativas. É difícil calcular a composição sexual de quem está por trás das máscaras, por dois motivos principais (sendo o primeiro deles bastante óbvio): eles ou elas são anônimos! Em segundo lugar, os black bloc são, acima de tudo, uma tática. Sua composição é efêmera e pode aglutinar desde velhos militantes a alguns novatos. O bloco não se constitui, em suma, como um grupo fechado em si, com um programa político bem delimitado e esclarecido (apesar de o anarquismo ser o denominador comum). Assim, se uma determinada manifestação é voltada, por exemplo, para questões ligadas ao feminismo, é esperado encontrar uma concentração de black blockers mulheres. Em outra ocasião – e.g. na hora do quebra-pau com a polícia – a balança poderá pender para o outro sexo.

Marchas de black blocs, os quais incluíram mulheres, em 2001 em Washington DC: sua pauta era a defesa dos direitos reprodutivos das mulheres.

Marchas de black blocs, os quais incluíram mulheres, em 2001 em Washington DC: sua pauta era a defesa dos direitos reprodutivos das mulheres.

Para avançar neste debate, devemos ir além do sexo dos participantes. Voltando um pouco no tempo, cabe ressaltar que as feministas (sobretudo as ditas “feministas radicais”) foram peça-chave para a constituição do já mencionado grupo “autonomista” alemão. O Autonomen teve raízes variadas, que iam do marxismo ao anarquismo, passando pelo ambientalismo e também pelo feminismo radical. Essas feministas defendiam plataformas de autonomia que alimentavam o ideal anarquista: rejeição à representação verticalizada, tomada de decisões consensual, distanciamento de órgãos institucionais e, evidentemente, a capacidade de fundar coletivos compostos unicamente por mulheres – marca, até hoje, de muitas vertentes feministas (incluindo as assim apelidadas radfems).

A despeito disso, não deixam de ser válidas as críticas de que os black blocs criariam uma esfera de atuação política demasiadamente masculina – ou melhor, forçosamente masculinizada. Há quem afirme que, em um protesto violento, gênero não mais existe, uma vez que não se poderia distinguir quem é o/a mascarado/a que arremessa a pedra. Ora, essa afirmação esquece que, por trás de cada manifestação, há a construção social do próprio manifestante: quem se interessa por essa forma de reivindicação? Quem se alinha com o anarquismo? Quem se sente integrado a um black bloc? E mais, quem está disposto a enfrentar a polícia?

Manifestação em Montreal: quem está por trás das máscaras? O que isso nos diz sobre as questões de gênero?

Manifestação em Montreal: quem está por trás das máscaras? O que isso nos diz sobre as questões de gênero?

É certo que, em grande medida, os confrontos entre mascarados e polícia militar são uma verdadeira encenação de masculinidades. Machos fardados versus machos encapuzados, ambos sem identificação. Esse quadro dialoga diretamente com as representações mais convencionais de masculinidades, daquelas que incentiva os meninos, desde pequenos, a brincarem com armas, exércitos e carrinhos. Nesse sentido, é natural esperar, tal como relata Dupuis-Déri (2014), que há queixas por parte das mulheres de que os homens monopolizaram essa forma de ativismo. Sem falar nas situações em que a própria militância é palco de assédios e agressões sexuais.

Essa tese alerta para um panorama mais amplo da esquerda. Uma perspectiva de gênero faz falta. Assim, volta à cena aquela antiga denúncia de que a esquerda prima pelas questões de classe, deixando em posições marginais um aprofundamento sobre cor/raça, gênero, deficiência etc. Em consequência, cabe à insistência das próprias “minorias” (que não são minorias) em pautar o debate dentro de organizações de outras minorias. Uma loucura, sem dúvida. E necessária, pelo visto.

Por fim, fica o questionamento de como seria uma forma “radical” de ativismo que pudesse escapar de algumas dessas armadilhas. Aliás, será que a palavra “radical” implica necessariamente no uso da força para fins de depredação material? E, se sim, essa atuação é necessariamente masculinizada? Longe de essencializar as mulheres em torno de uma atmosfera pacifista, nossa intenção é chamar a atenção para o quanto determinados valores, por sua vez generificados, pautam modos de organização, eles mesmos, dispostos à subversão de formas tradicionais de dominação. Haverá, por trás dos capuzes negros, alguma perspectiva capaz de enfrentar também o sexismo e machismo das sociedades contemporâneas?

A pobreza é um fenômeno multidimensional no Brasil e no mundo. Para entendê-la, é necessário pensar além da faixa de renda, pois não é apenas o rendimento médio que define uma classe social e muito menos a única maneira de se apreender a condição de vida de uma família ou indivíduo. Somada à baixa renda, a pobreza é caracterizada pela dificuldade ou impossibilidade de satisfazer necessidades básicas. Esses obstáculos acabam por não só minar a qualidade de vida, como ainda limitam a abertura de novos horizontes, restringindo a autonomia dos sujeitos e mantendo-os sem perspectivas viáveis de mudança.

Foi com o intuito de romper com esse círculo vicioso que o Programa Bolsa Família foi criado. Existindo em distintas modalidades, a vertente mais humilde dessa política pública – voltada não para pobres, mas para miseráveis – fornece uma quantia básica de apenas R$ 70,00 por mês para famílias cuja renda mensal per capita equivale a R$ 70,00. A presença de renda estável na família, bem como a existência de até três filhos/as, modifica algumas regras. De toda forma, o beneficia continua sendo entregue àqueles que compõem a base da pirâmide social brasileira e, em todos os casos, no nome das mulheres que chefiam seus lares.

Múltiplas dimensões caracterizam a pobreza no Brasil e no mundo: renda mensal, cultura da resignação, opressões de variadas sortes, ausência de perspectivas, estruturas e serviços etc. (Foto: família do Vale de Jequitinhonha/Christian Perona)

Múltiplas dimensões caracterizam a pobreza no Brasil e no mundo: renda mensal, cultura da resignação, opressões de variadas sortes, ausência de perspectivas, estruturas e serviços etc. (Foto: família do Vale de Jequitinhonha/Christian Perona)

Espera-se, assim, que o Bolsa Família (BF) tenha um efeito não apenas social, de melhoria no nível de vida de pobre e indigentes, como também de gênero, ao empoderar as mulheres, usualmente subordinadas no seio da família e excluídas do mercado de trabalho, com uma renda estável que, apesar de pequena, fornece o mínimo para se satisfazer as necessidades mais vitais, garantindo o direito à vida. Conforme afirmei, esses são os efeitos esperados. Foi para averiguar tal hipótese que Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani realizaram a pesquisa descrita na recente obra Vozes do Bolsa Família: autonomia, dinheiro e cidadania (2013).

Munidos de caderno de notas e gravador, a dupla se embrenhou em algumas das regiões mais pobres desse imenso país e entrevistaram 150 mulheres que recebiam o benefício mensal. Sertão alagoano, Vale do Jequitinhonha, periferia de Recife e de São Luís, foram alguns dos destinos procurados pelos pesquisadores. Com frequência, depararam-se com inúmeros casebres (por vezes sem saneamento básico), uma completa falta de estrutura e serviços, desemprego crônico e escassez de oportunidades. Um povo que, quando encontrava possibilidade de trabalho, o executava para compor uma renda miserável – aquilo que Graciliano Ramos, em Vidas Secas, chamou de “adiar a morte do grupo”.

O cartaz do Bolsa Família é entregue no nome das mulheres, com vistas a empoderá-las no âmbito familiar, além de garantir que a renda chegue a quem chefia o lar.

O cartaz do Bolsa Família é entregue no nome das mulheres, com vistas a empoderá-las no âmbito familiar, além de garantir que a renda chegue a quem chefia o lar.

Nesse contexto, o BF cumpria uma tarefa importante, de fornecer o mínimo para a sobrevivência, o que por si só se coloca como uma primeira tensão na nossa histórica curva de desigualdade. Porém, em nenhum desses casos o benefício havia sido responsável por tirar essas famílias da situação de pobreza. Uma série de outros empecilhos se colocava no caminho, dentre o isolamento geográfico que os afastava do campo das políticas públicas, a escolaridade baixa e com poucas vistas à melhora, o acesso limitado a crédito e, no caso das mulheres, uma ainda marcante sujeição às opressões de gênero.

As altas taxas de natalidade se apresentavam como um obstáculo à emancipação das mulheres, se levarmos em conta que a divisão sexual do trabalho ainda as conferia uma sobrecarga de serviços domésticos. Longe de trazer ganhos econômicos – a falsa visão de que os pobres teriam filhos para angariar recursos do governo – as elevadas taxas de natalidade apontavam para a desinformação sobre o seu controle, para crenças religiosas que constrangiam tais limites e, também, pelo baixo acesso a métodos contraceptivos. Para muitas das mulheres entrevistadas, realizar a laqueadura era quase um sonho, poucas vezes levado a cabo.

Periferia de Recife: a pobreza em sua face mais miserável não se encontra apenas nas terras mais remotas do país, mas também nas margens das grandes metrópoles - ou no meio delas...

Periferia de Recife: a pobreza em sua face mais miserável não se encontra apenas nas terras mais remotas do país, mas também nas margens das grandes metrópoles – ou no meio delas…

Ainda, uma renda estável garantida por meio do cartão do BF no nome das mulheres não as colocava necessariamente numa situação de poder. Elas, em sua quase totalidade, avaliavam positivamente tal responsabilidade. Diziam que, se o cartão estivesse no nome do marido, eles gastariam com bebida alcoólica. Estando sob a responsabilidade feminina, elas saberiam, melhor do que ninguém, onde e como gastar a verba, a fim de manter a casa e os/as filhos/as. Porém, a violência doméstica ainda se fez presente, sendo que as possibilidades morais de libertação de casamentos rígidos e desgastantes – ou seja, da opressão conjugal – ainda eram baixas.

“A sujeição das mulheres em uma sociedade muito marcada pelo patriarcalismo as priva quase completamente de qualquer soberania sobre seu corpo”, escrevem Rego e Pinzani (2013, p. 179), “Isso demonstra que a privação de direitos civis elementares, como o direito à integridade do próprio corpo, pode ter raízes no contexto de uma cultura machista e violenta”.

Cabe ressaltar que, nos lugares visitados, a situação dos homens igualmente não lhes fornecia uma posição vantajosa. Analfabetos ou com pouca escolaridade, desempregados, com vínculos precários ao lugar e às pessoas, a eles tampouco havia oportunidades de melhoria de vida. Separar-se de suas mulheres poderia agravá-los ainda mais: perderiam sua casa, filhos e o benefício entregue às mulheres, o qual assegurava ao menos uma cama para dormir e a comida na mesa. Para elas, a vida familiar poderia se constituir como um inferno e emancipar-se dessa situação, em todos os seus nós, não era simples. Criava-se, assim, uma sensação de dependência mútua no bojo de uma cultura machista.

Ex-presidente Lula, visto pelas famílias como o responsável pela política, que muitas mulheres consideram um "favor". Falta, ainda, um olhar mais politizado sobre a esfera de direitos dos cidadões e deveres do Estado.

Ex-presidente Lula, visto pelas famílias como o responsável pela política, que muitas mulheres consideram um “favor”. Falta, ainda, um olhar mais politizado sobre a esfera de direitos dos cidadãos e deveres do Estado.

A tudo isso, soma-se a persistência de uma cultura da resignação, quando a conjuntura atual é aceita como uma sina inevitável ou natural. Já não alimentam mais expectativas para si, senão para os seus filhos – cujas possibilidades reais de ascensão, no fundo, são ainda pequenas. Ainda que a existência do BF seja bem avaliada, vista como algo importante (por vezes, um “favor” que Ele, o Lula, as concedeu) e que muda alguns aspectos entre todas as “faltas” que caracterizam os estratos populares, essa política já tem dado sinais de desgaste.

Rego e Pinzani (2013) enfatizam que o BF acena para o início de uma superação da cultura da resignação e das múltiplas dimensões que embalam a pobreza no Brasil. Adiciono, todavia, que os riscos são de estacionarmos nesse “início” e não concretizarmos, de fato, uma transformação social em nossa sociedade estratificada. E também não parece ser via Bolsa Família, assim como não o é via Lei Maria da Penha, que a violência gênero e a opressão sobre as mulheres serão efetivamente derrotadas. Ainda precisamos de mais ousadia, mais enfrentamento, mais radicalismo na tomada de decisões e formulações de políticas públicas, capazes de apresentar saídas para nossos problemas que, longe de contingenciais ou conjunturais, são de ordem estrutural e sistêmica.

Tal como sugerem os pesquisadores, as “pequenas fendas abertas” na autonomia das mulheres é digno de nota e atenção. Por outro lado, a construção dessa autonomia é tolhida por raízes fincadas na submissão, tanto pelas condições materiais que rodeiam o ambiente da pobreza, quanto por identidades femininas ainda relegando-as à falta de soberania sobre sua vida e seu próprio corpo. Embora importante, a renda estável promovida pelo Bolsa Família não quebra os grilhões da díade autonomia-submissão.

Os movimentos de mulheres vêm desempenhando um papel importante no ainda corrente processo de democratização da América Latina. Sua contribuição se deu tanto na luta contra os regimes militares que vieram ao poder na segunda metade do século passado, quanto no esforço de se institucionalizar, no âmbito do próprio estado, uma agenda política à serviço das demandas de mulheres. Essas histórias, contudo, têm diferentes compassos e, no Brasil, o processo de democratização, aliado ao fortalecimento de movimentos feministas, tem sido marcado principalmente por avanços dos últimos trinta anos para a atualidade.

Embora o Brasil tenha conquistado o sufrágio feminino em 1933, fruto principalmente de um lobby de mulheres escolarizadas pertencentes às camadas abastadas junto a políticos simpáticos à causa (MACAULEY, 2006), o movimento feminista brasileiro, ao reflexo do feminismo latino-americano, apenas se consolidou enquanto um movimento de massa em meados da década de 1970, no contexto da luta contra o regime militar (1964-1985), que se instaurou no país a partir de um golpe de estado apoiado pelos setores dominantes e pela política externa dos Estados Unidos, e de uma crise econômica a qual resultou em elevação das taxas de desemprego e subemprego, bem como arrocho salarial e corte de gastos sociais (SAFA, 1990).

Resistência à ditadura: mulheres desempenharam um papel importante na luta contra o regime militar.

Resistência à ditadura: mulheres desempenharam um papel importante na luta contra o regime militar.

Com a proibição, logo no início da ditadura, das formas de organização coletiva contrárias ao governo militar, as resistências à ditadura, de caráter institucional, estavam restritas ao único partido de oposição permitido, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), e a setores progressistas da Igreja Católica. No entanto, com o recrudescimento da censura e repressão a partir de 1968, as formas de resistência passaram a se constituir, cada vez mais, no clima de clandestinidade. À parte dos atores envolvidos nesses movimentos, o objetivo era único e claro: derrubar o regime militar. Assim, o primórdio de um movimento feminista brasileiro vai surgindo como uma forma das mulheres se posicionarem contra o regime em questão, conforme destaca Helen Safa (1990). Nesse contexto, o autoritarismo praticado pelo Estado dava pouca possibilidade para que outras pautas, as quais diziam respeito especificamente às demandas das mulheres, viessem à tona. Por um lado, as mobilizações de mulheres basicamente se somavam às formas de resistência à ditadura; por outro, o próprio engajamento político de mulheres já trazia, em si, uma revisão de uma ordem de gênero que relegava as mulheres a um papel secundário (SARTI, 2004), ainda que não sistematizada em bandeiras assim chamadas feministas.

Foi com a declaração, por parte da ONU, do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher, que o cenário passou a propiciar maior visibilidade ao feminismo. Debates feministas, antes tímidos, passaram a ser mais explícitos – a título de exemplo, nessa época duas revistas feministas de caráter militante foram criadas, Brasil Mulher e Nós Mulheres. Conforme essa década se aproximava do fim, acontecia o processo de abertura política, quando a repressão passou a ser reduzida e, ao mesmo tempo, uma ampla mobilização social que culminou com a anistia em 1979, na qual as mulheres foram protagonistas. Ainda, a volta de mulheres exiladas no exterior (as “retornadas”) permitiu que suas experiências com os feminismos norte-americanos e europeus pudessem se somar ao desenvolvimento de uma consciência feminista que já encontrava espaço no Brasil.

Promulgação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher, pela ONU, deu um impulso para o feminismo brasileiro e mundial.

Promulgação do ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher, pela ONU, deu um impulso para o feminismo brasileiro e mundial.

Essa confluência de fatores fez com que o movimento feminista, na década de 1980, passasse a ser uma força política e social consolidada. De acordo com Sarti (2004), explicitou-se um discurso feminista que trazia em seu âmago um debate de gênero. Três processos passaram a acontecer simultaneamente: (1) a pluralização e mesmo fragmentação do movimento, que vai se desdobrando em diferentes frentes; (2) a criação de espaços institucionais para as mulheres no interior do estado brasileiro, o que permitiu que políticas públicas voltadas para mulheres e gênero se integrassem à agenda política do país; (3) por fim, a consolidação de um campo de pesquisas na área de mulheres e gênero.

Da mesma forma, com o fim do regime militar, em 1985, a sociedade brasileira se encontrou em um intenso processo de ebulição que girava em torno da promulgação de uma nova Constituição Federal e da criação de espaços institucionais que fizessem valer a democracia recém conquistada. No mesmo ano, dois importantes passos foram dados: a fundação das Delegacias de Defesa da Mulher, importante política adotada no combate a violência praticada por homens contra mulheres, e a constituição do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), uma instituição com autonomia financeira e administrativa, poder deliberativo e um orçamento razoável, com a finalidade de pôr em prática políticas orientadas à militância feminista (CALDEIRA, 1998).

Benedita da Silva (1942-) foi a primeira mulher negra a ser eleita para um cargo legislativo e, no final da década de 80, juntou-se às outras 25 mulheres na Constituinte.

Benedita da Silva (1942-) foi a primeira mulher negra a ser eleita para um cargo legislativo e, no final da década de 80, juntou-se às outras 25 mulheres na Constituinte.

Se antes e durante o regime militar, a presença de mulheres nas casas legislativas restringia-se a 0,6%, na eleição de deputados para a Assembleia Constituinte chegou-se a 5,3%, o que significou 26 mulheres entre 559 deputados, sendo uma delas negra (Benedita da Silva). Embora numericamente diminuta, essa representação (o “Lobby do Batom”) aliada à força da CNDM, foi capaz de apresentar mais de cem propostas para a nova Constituição, sendo que 80% delas foram aprovadas e garantiram avanços significativos na questão de gênero, incluindo licença-maternidade de 120 dias, a criação de uma licença-paternidade, benefícios sociais e direitos trabalhistas para empregadas domésticas, direito ao divórcio, além de artigos garantindo a igualdade entre mulheres e homens independentes de cor/raça, ressalta Verucci e Patai (1991).

Nas anos 1990, a ascensão de governos de direita impediu avanços das pautas feministas no interior do próprio estado – a CNDM, por exemplo, nasceu no pós-ditadura, foi morta pelo governo Collor e enterrada pelo FHC. Contudo, a progressiva expansão do ensino superior, somada à influência do feminismo, favoreceu a entrada da questão de gênero nas universidades brasileiras. Se o primeiro estudo acadêmico sobre a mulher, apresentado por Heleieth Saffioti em 1967, datava da época do regime militar, foi só na década de 90 que os núcleos de pesquisa ganharam os contornos que possuem atualmente. Nesse processo, a substituição do termo “mulher”, característico da militância que se apresentou durante a transição democrática, pelo conceito de “gênero” trazia implícito, nessa revisão epistemológica, um amadurecimento teórico do feminismo (COSTA & SARDENBERG, 1994), o que não quer dizer que críticas não sejam aplicáveis. Ainda no início de 1990, os dois mais importantes periódicos feministas foram criados, a Revista de Estudos Feministas e os Cadernos Pagu, visando contribuir com a produção acadêmico-científica, as práticas de pesquisa e a discussão de teoria.

Dilma Rousseff: apesar de ser um progresso termos uma mulher na presidência, parece que na atualidade temos sofrido mais retrocessos que avanços.

Dilma Rousseff: apesar de ser um progresso termos uma mulher na presidência, parece que na atualidade temos sofrido mais retrocessos que avanços.

Do ponto de vista político, com a eleição do Lula em 2002, retomou-se o projeto que se iniciara na democratização. Foi criada a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres e, na mesma década, a promulgação de duas políticas públicas com impactos significativos nas relações de gênero: a lei Maria da Penha, com o intuito de combater a violência doméstica, e o programa Bolsa Família, um sistema de transferência de renda que favorece mais de 10 milhões de família, no qual a verba era repassada prioritariamente para as mulheres e mães de famílias de baixa renda.

Atualmente, apesar de certos progressos, como a eleição em 2010 da primeira mulher para o cargo presidência, o Brasil tem enfrentado uma disputa muito intensa em torno da agenda dos direitos humanos, frente ao crescimento de uma direita evangélica com fortes tendências fundamentalistas, a qual tem se fortalecido à sombra do PT. Tanto o movimento feminista quanto o LGBT não tem conseguido responder à altura e, nos últimos anos, temos assistido a uma série de retrocessos, entre eles: o veto ao programa Escola sem Homofobia, a maior iniciativa de combate à homofobia nas escolas; a proposição de um Estatuto do Nascituro, o qual coloca em xeque muitos das conquistas feministas no tocante ao aborto e violência sexual; demissões no Ministério da Saúde por conta de uma campanha visando o bem-estar e saúde das profissionais do sexo; por fim, a nomeação de um deputado fundamentalista, Marco Feliciano, na presidência da (falecida) Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Tudo isso indica que há muito chão a ser percorrido. E que o feminismo, mesmo que ignorado ou mal visto por muita gente, ainda tem muito a cumprir na história da nação.

Os tigres asiáticos são um capítulo bem conhecido na história mundial. Refere-se ao desenvolvimento acelerado de quatro nações do sul e leste da Ásia: Coréia do Sul, Hong Kong, Taiwan e Singapura. Entre 1960 e 1990, tais países apresentaram altas taxas de crescimento e rápida industrialização. Quanto a isso, não há dúvidas – afinal, é a própria definição da alcunha que tais nações ganharam. Mas pouco é sabido a respeito de como esse processo de desenvolvimento afetou e foi influenciado pelas relações de gênero da região.

O “milagre econômico” que se apresentou nessas nações insere-se bem claramente em um contexto geopolítico marcado pela chamada Guerra Fria. Sabe-se que os EUA, com o término da Segunda Guerra Mundial, apoiou maciçamente a reconstrução do Japão, país que acabara de ser atacado pelas duas bombas nucleares dos próprios ianques. Tendo em vista a ameaça que a URSS colocava à hegemonia do capitalismo, a economia japonesa foi recuperada como uma forma de se manter acesa uma chama capitalista na Ásia. Essa chama, por sua vez, poderia acender outras pela região.

Singapura: pela extensão do porto, fica evidente o quanto as exportações eram fundamentais para sua economia.

Singapura: pela extensão do porto, fica evidente o quanto as exportações eram fundamentais para sua economia.

É aí que entra o desenvolvimento dos tigres asiáticos, fenômeno que só foi possibilitado pela ajuda tanto norte-americana quanto japonesa. Criou-se, assim, quatro potências de segundo porte que orientaram suas economias basicamente para o mercado externo. Tornaram-se países industrializados e exportadores, com alta participação de capital internacional. Esses efeitos, como se pode imaginar, transbordaram a economia e ressoaram na sociedade. Seus sistemas educacionais, por exemplo, foram bastante reorientados para a formação de “capital humano” a fim de suprir demandas de mercado.

No meio de todo processo, a feminista australiana Chilla Bulbeck, em Re-Orienting Western Feminisms (1998), destaca que as mulheres desempenharam um papel fundamental, ou melhor, foram exploradas a ponto de serem essenciais para esse processo. Se passara a existir, com a globalização, um interesse das multinacionais de alocarem à produção para os países de terceiro mundo – valendo-se dos menores salários, frouxa legislação ambiental e trabalhista e fracos ou mesmo inexistentes sindicatos – passou a ser crescente o interesse em empregar essencialmente mão-de-obra feminina, a base para o desenvolvimento da economia desses quatro países.

Centro de Hong Kong: uma das cidades mais verticais do mundo, teve seu desenvolvimento atrelado ao fenômeno dos tigres asiáticos.

Centro de Hong Kong: uma das cidades mais verticais do mundo, teve seu desenvolvimento atrelado ao fenômeno dos tigres asiáticos.

Dessa forma, as mulheres eram preferidas nos trabalhos manuais realizados pelas indústrias voltadas à exportação. Não só porque a sua remuneração era de 50% a 62% da renda masculina, como também, ressalta Bulbeck (1998), eram tão complacentes quanto produtivas. Afinal, a situação de desvantagem das mulheres as compelia a aceitar trabalhos mesmo em condições degradantes. Ainda, os seus dedos menores e mais ágeis (“swift fingers”) davam-lhes vantagem em trabalhos repetitivos com objetos minúsculos. Por fim, para os patrões era mais fácil despedir as mulheres, caso fosse necessário, uma vez que direitos como licença-maternidade não estavam garantidos.

Estamos falando, portanto, de um processo violento de precarização do trabalho. As mulheres asiáticas que alimentaram os tigres o fizeram sendo incorporadas na escala mais baixa do mundo trabalhista. Não é de se espantar, assim, que consequências danosas também foram produzidas. Em 1985, por exemplo, 64% das mulheres trabalhadoras da Coréia do Sul ganhavam menos do que os custos mínimos de sobrevivência. É válido lembrar que, na década de 80 neste mesmo país, tinha-se as maiores jornadas de trabalho do mundo (em uma firma, a coreana POSCO, trabalhava-se 56 horas ao longo de sete dias por semana, com apenas um dia de folga por mês!).

Taiwan: a rápida industrialização incorporou muitas mulheres. Na maioria das vezes, de forma precária.

Taiwan: a rápida industrialização incorporou muitas mulheres. Na maioria das vezes, de forma precária.

Nas indústrias de microeletrônicos da Coréia do Sul e de Hong Kong, por sua vez, a maioria das mulheres era forçada a abandonar seus empregos antes dos 30 anos de idade por causa de deterioração do globo ocular, sendo que não havia nenhuma possibilidade de promoção ou coisa que o valha. Em Taiwan, havia fábricas que processavam amianto e não possuíam sequer um sistema de circulação de ar adequado. A regra era a seguinte: ou se aceitava essas condições de trabalho, ou não se tinha sequer uma renda mínima, por menor que fosse. Infelizmente, essa realidade não se reduz aos tigres asiáticos, mas está presente na maioria – senão todos – os países de terceiro mundo.

Uma situação degradante dessas, como podemos esperar, não vem desacompanhada de formas de resistência. Foi na própria Coréia onde movimentos de mulheres pressionaram por uma jornada de oito horas diárias, maiores salários, licença-maternidade, creches etc. Contudo, o enfrentamento por parte do Estado foi grande, havendo detenção de muitas mulheres. Existem relatos, na realidade, dos mais variados tipos de abuso sexual que aconteciam no interior das delegacias de polícias (BULBECK, 1998). De toda forma, é evidente que essa história ainda não acabou.

Coréia do Sul: lutas trabalhistas, tanto de homens quanto de mulheres, se estendem até hoje em busca de melhores condições.

Coréia do Sul: lutas trabalhistas, tanto de homens quanto de mulheres, se estendem até hoje em busca de melhores condições.

Desde a década de 90, o Banco Mundial tem procurado recriar as condições do “milagre econômico” em aproximadamente 20 países do Pacífico Sul (60% da população pertence à Papua Nova Guiné e 20% às ilhas Fiji). Entre as medidas que os governos nacionais passaram a ser pressionados a implantar estavam: corte de gastos sociais, redução de salários, privatizações e incentivos fiscais para exportações. Tudo isso, é claro, deve envolver também a exploração da mão-de-obra feminina, frequentemente não organizada em movimentos e sindicatos.

Vê-se, portanto, que ao nos referirmos a grandes crescimentos econômicos, é essencial estarmos atentos para as condições de vida e de trabalho daqueles sujeitos – homens ou mulheres – que carregam o desenvolvimento nas costas. É comum que se faça uso da condição marginal das mulheres na cadeia produtiva e, ao mesmo tempo, que se mantenha uma situação de subordinação ao se destinar, a elas, os trabalhos mais degradantes. Todos esses processos, para o bem da humanidade, devem estar sob as lupas do movimento feminista em âmbito global.